Há um novo som a bater na cidade

Felisberto Reste, mais conhecido por Bison, e Miguel Afonso, ou seja Squareffekt, com discos acabados de lançar
Foto
Felisberto Reste, mais conhecido por Bison, e Miguel Afonso, ou seja Squareffekt, com discos acabados de lançar João Cordeiro

Lento, sensual, híbrido e digital. Um novo som, de denominação portuguesa, tem-se disseminado nos últimos meses pelo mundo inteiro

Cadência rítmica insinuante, um som lento carnal, mais sensual do que sexual, uma junção de estruturas de linguagens localizadas que emergiram em Angola, como a tarraxinha ou a kizomba, ou nas Antilhas, como o zouk, mas redefinidas em Portugal com elementos de géneros urbanos globais de características digitais como o trap, moombhaton ou o dubstep: num universo sobrelotado de género e subgéneros, onde apenas os ouvidos mais experimentados distinguem diferenças, talvez não precisássemos de mais uma inventariação, mas ela está aí e é impossível fugir-lhe. O baptismo deu-se há um ano, no evento Boiler Room, quando os Buraka Som Sistema iniciaram a sua sessão com o tema Tarraxo na parede do colectivo setubalense DZC Deejay. Às tantas Kalaf Ângelo agarrou no microfone e por entre a lenta cadência digital começou a gritar que aquilo que se estava a ouvir era zouk bass. E assim ficou. 

Na verdade tratava-se de um tema de tarraxinha – um dos muitos subgéneros (para além do kuduro, batida, afro-house ou funaná) gerados nos quartos por jovens músicos de Lisboa ou de Luanda – mas numa linha não convencional, reflectindo um novo tipo de influências. 

Nada que DJ Marfox ou Nigga Fox, da grande Lisboa, não tivessem já abordado nas suas sessões DJ ou nas suas produções (basta ouvir o fantástico tema Só nós 2 de Nigga Fox incluído no EP do ano passado O meu estilo). Mas a verdade é que o nome pegou e num curto espaço de tempo, dos Estados Unidos à Rússia, da Argentina à Holanda, vários músicos e produtores começaram a utilizar a expressão, acabando por criar uma sonoridade que se inspira em princípios definidos por nomes como o angolano DJ Znobia, mas com novos elementos agregados. 

A grande mais-valia do zouk bass acaba por ser a sua elasticidade, capaz de agregar inúmeras referências, e o ritmo lento, que permite um tipo de enlevo dançante. Ao contrário, por exemplo, do frenesim do kuduro, o zouk bass (como um dos seus parentes mais em destaque, o afro-house) pode ser desfrutado tanto em ambiente festivo como doméstico. 

Propagação global

Quem assistiu, através da internet, a essa sessão do Boiler Room, foi Miguel Afonso, de Almada, com anteriores paragens na curva da vida por Londres ou Barcelona, mais conhecido enquanto DJ e produtor como Squareffekt. Admirador de subgéneros urbanos globais como o trap ou o moombhaton, vislumbrou potencialidades naquele tipo de sonoridade. 

Antes já abordara géneros como o drum & bass, grime ou dubstep porque “não é de ficar preso a nenhum género musical”, diz-nos. “Quando descortino potencial para explorar – independentemente do estilo ou da cultura de onde é oriundo – faço-o sem reservas.” 

Até à audição da sessão DJ dos Buraka nunca encarara a kizomba ou a tarraxinha daquela forma. Começou a experimentar, optando por estruturas rítmicas mais lentas do que aquelas que lhe eram familiares. 

E não foi apenas ele. “Rapidamente entrei em contacto com produtores americanos de moombhaton ou russos que praticavam som balcânico e que de repente mostravam curiosidade e despertavam para o zouk bass.” 

Foi também através da internet que descobriu Felisberto Reste, 23 anos, nascido em Benguela, mas a residir em Rio de Mouro desde que se lembra, que assina as suas produções como Bison, e com quem começou a colaborar. “Quando ouvi na internet um dos seus temas, o Tarraxo do demónio, disse logo: ‘tenho que descobrir quem é este tipo que ninguém conhece’. Quando nos encontrámos tivemos logo grande afinidade.” 

Agora os dois vão lançar o EP Odyssey Of The Mind e Bison avança a solo com o EP The Wave Of Tarraxinha, ambos com edição na plataforma e editora holandesa Generation Bass (www.generationbass.com), uma das principais divulgadoras destas movimentações. A outra é a Enchufada (www.enchufada.com), editora e plataforma portuguesa dos Buraka Som Sistema, que na série de lançamentos da série Uppercurts tem revelado activistas como o português Kking Kong, o luso-francês Mala Noche ou o americano JSTJR. 

Os próprios Buraka Som Sistema abordam o género no tema Sente, estreado há poucos dias no programa de rádio de João Barbosa (Branko) na BBC Radio 1. Um tema que aliás vai ser incluído na compilação We Call It Zouk Bass que a Enchufada vai lançar nas próximas semanas. 

A propagação é global e figuras atentas às últimas novidades musicais do planeta, do inglês Thom Yorke (Radiohead) ao americano Diplo (Major Lazer), já trataram de deixar a sua marca nos acontecimentos. Este último através da Mad Decent, a sua editora, que já lançou três volumes das compilações Zouk Bass, onde têm entrado portugueses como Riot (Buraka Som Sistema), DZC Deejays ou Bison & Squarffekt. 

A publicação americana The Fader (que já entrevistou Bison), o blogue Tropical Bass ou o canal do YouTube Zouk Bass TV, do bracarense Filipe Ribeiro, têm sido outros importantes canais de divulgação do género. 

Como é fácil de perceber, esta é música de baixo custo, feita através de ferramentas tecnológicas rudimentares, em estúdios caseiros. Todos estes agentes possuem Soundcloud, a plataforma online de áudio, e é aí que vão dando a conhecer a música nova que vão produzindo. É assim que operam os setubalenses DZC Deejays (Di Zona Crew Deejays), um colectivo de DJs e produtores (DJ2pekes, DJ Kuimba, DJ Matabaya, DJ Sacaninha, Motello), percursores de toda esta história. 

Há dois anos numa colaboração com DJ Yudifox (Tia Maria Produções) compuseram a faixa Tarraxo na parede, abrindo um novo leque de opções. “O zouk bass é fruto da mistura da tarraxinha, kizomba e até zouk, com aroma mais electrónico, mais obscuro e progressivo” dizem. “Há cada vez mais produtores a misturar estilos de música, obtendo dessa forma um conteúdo mais inovador, versátil e atrevido”, acrescentam. 

Nos últimos meses têm visto o seu nome ser mencionado em alguns dos mais relevantes blogues internacionais de música, depois da edição do EP Deep In Zouk Bass, também na Generation Bass. “É gratificante vermos o nosso trabalho reconhecido e chegarmos a outros países” dizem. Por um lado sentem-se surpreendidos com a atenção dispensada, por outro dizem que trabalham sempre “com empenho e confiança” para darem a conhecer a sua música. “Sentimos que este é um bom momento.” 

Até agora estas actividades têm tido mais impacto internacional do que nacional. É na internet que o passa-a-palavra acontece. “A maior parte dos músicos e DJs internacionais com quem falo tem imensa curiosidade em perceber o que se passa aqui”, reflecte Miguel Afonso. Querem saber se alguma vez irá existir uma ligação entre os produtores tradicionais de tarraxo e os de zouk bass, afirma. “E eu respondo que não sei”, ri-se, “talvez porque acabam por ser realidades aproximadas, com pontos de identificação, mas também muito diferentes.”

Por norma nos temas de tarraxinha o som é mais redondo e existem estruturas aproximadas da canção (ouvir a magnífica compilação do ano passado Keep Calm and Listen To Tarraxinha de DJ Marfox, que inclui temas de músicos de Lisboa e de Luanda e que está disponível na net), enquanto o zouk bass é mais minimal e, por norma, menos melódico, incorporando influências diversas. Oiça-se, por exemplo, o magnífico EP de cinco faixas de Bison, dinamismo rítmico em câmara lenta, muito espaço, elementos algo góticos e uma precisão ambiental surpreendente. 

Diz Miguel Afonso do disco do seu colega: “ele tem ali sons que nunca tinha ouvido no zouk, como linhas de g-funk ou de ‘disco’. O Bison é uma espécie de Giorgio Moroder do tarraxo”, conclui. No mesmo enquadramento encontramos o EP de quatro temas do próprio Afonso (Squareffekt) com Bison, temas instrumentais, som translucido em câmara lenta recheado de detalhes, música nocturna que convida mais ao abandono melancólico do que ao hedonismo da pista de dança. Música linear, de simplicidade formal, mas muito singular. 

“O que se tem visto até agora é diferentes músicos, das mais diversas partes do mundo, trazerem as suas influências para este tipo de som”, reflecte Miguel Afonso. “Até agora a parte lírica das letras não tem sido muito desenvolvida mas no futuro próximo isso pode acontecer.”

O que parece faltar, por enquanto, são noites onde o zouk bass possa estar em evidência. As noites mensais da editora Príncipe no MusicBox, ou as sessões dos Buraka Som Sistema, por vezes contêm alguns destes elementos, mas uma noite apenas de zouk bass é uma miragem. “Tudo isto é muito recente, talvez ainda não existam ainda suficientes pessoas atentas, mas que isso vai acontecer, não restam quaisquer dúvidas” afiança Miguel Afonso. A propagação global pelo menos já começou.



Bison
The Wave Of Tarraxinha??
****

Bison & Squareffekt
Odyssey Of The Mind?
****