Dois esqueletos levam-nos numa viagem até ao século VI e à peste justiniana

Doença só do passado? Nem por isso: ainda há cerca de 2000 mortes por peste em todo o mundo por ano. Em Portugal, a história da terceira (e última) pandemia está ligada à criação da Direcção-Geral da Saúde, no século XIX.

Esqueletos de duas vítimas da Peste Justiniana no século VI, no cemitério de Aschheim, na Baviera
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Esqueletos de duas vítimas da Peste Justiniana no século VI, no cemitério de Aschheim, na Baviera Cortesia de M. Harbeck/Universidade de Munique
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Um dos esqueletos depois de removido do cemitério Cortesia de M. Harbeck/Universidade de Munique
Dente de uma das vítimas da Peste Justiniana, de onde se extraiu ADN
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Dente de uma das vítimas da Peste Justiniana, de onde se extraiu ADN Universidade de McMaster
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O dente de uma das vítimas a ser examinado DR

Dois esqueletos sepultados num cemitério da Baviera, na Alemanha, permitiram a uma equipa internacional de cientistas embarcar numa viagem ao passado – até ao século VI e à primeira pandemia da peste, conhecida como peste justiniana, por ter surgido no tempo do imperador Justiniano I, e que dizimou entre 30 e 50 milhões de pessoas à medida que se disseminava pela Ásia, Península Arábica, pelo Norte de África e Europa. Essa viagem científica teve ainda paragens noutras duas pandemias: uma entre os séculos XIV e XVII, com o auge na célebre peste negra de 1347 a 1351; e outra entre o final do século XIX e meados do XX. Através da genética, e comparando agentes patogénicos das suas vítimas nestes três momentos históricos, os cientistas descobriram que, embora a bactéria responsável tenha sido sempre a mesma, as pestes justiniana e negra foram causadas por estirpes distintas.

Há ainda outra descoberta agora revelada pela equipa de Hendrik Poinar, da Universidade de McMaster, em Hamilton (Canadá), e colegas dos Estados Unidos, da Austrália e Alemanha, na revista The Lancet Infectious Diseases: a estirpe responsável pela peste justiniana desapareceu entretanto de circulação. E quando, vários séculos mais tarde, a peste negra atacou entre 1347 e 1351 – matando 50 milhões de europeus, um terço da população –, as estirpes da bactéria já foram outras.

Sabe-se que na origem das três pandemias esteve a bactéria Yersinia pestis. Mas a ligação entre esta bactéria e a peste justiniana só foi estabelecida há alguns anos, através da análise do ADN da bactéria isolado em restos mortais das suas vítimas. O conhecimento da primeira pandemia de peste continuava a ser considerado “limitado”, diz a equipa na The Lancet Infectious Diseases.

Por isso, os dois esqueletos exumados num pequeno cemitério de Aschheim, cidade alemã na Baviera, de duas vítimas da peste justiniana, funcionaram como uma máquina do tempo que permitiu à equipa saber mais sobre esta pandemia que matou cerca de metade da população mundial à época. As duas vítimas terão morrido já na fase tardia da epidemia, quando a doença finalmente chegou ao Sul da Baviera – o que terá ocorrido entre 541 e 543, segundo um comunicado da Universidade de McMaster. Datações por radiocarbono confirmaram que os esqueletos eram do tempo da primeira pandemia da peste.

No cemitério de Aschheim estavam sepultadas 438 pessoas. Na segunda metade do século VI, os enterramentos tornaram-se múltiplos, o que é um indicador de que a população estava a morrer muito depressa e era necessário enterrar rapidamente os mortos. As suspeitas recaíram assim sobre a peste justiniana.

É certo que a Baviera não fazia parte do Império Romano do Oriente (que sobreviveu ao colapso do Império Romano do Ocidente), mas, sendo a peste altamente contagiosa, depressa chegou a outras paragens para lá das suas fronteiras. Justiniano I, ao mesmo tempo que expandia o império e reconquistava territórios que antes pertenciam ao Império Romano Ocidental (como o Norte de África, a Península Itálica e uma parte da Península Ibérica), também teve de enfrentar esta terrível peste, que ficou associada para sempre ao seu nome.

Na forma mais comum da doença, a peste bubónica, surgem bubões (protuberâncias azuladas) dolorosos nos gânglios linfáticos na zona das axilas, no pescoço e nas virilhas. Neste caso, o contágio resulta da picada de pulgas das ratazanas e de outros roedores. Depois, quando as bactérias entram na corrente sanguínea, podem causar uma infecção generalizada (peste septicémica), com hemorragias em vários órgãos: na pele, estas hemorragias formam manchas escuras, daí o nome de peste negra. A partir do sangue, a bactéria também pode invadir os pulmões, onde provoca hemorragias, ou chegar lá através de partículas de expectoração infecciosas expelidas dos pulmões de pessoas já contaminadas – e aí a doença assume a forma de peste pneumónica. Tremores, dores de cabeça, febre elevada, delírios, dores no corpo e forte diarreia são alguns dos sintomas.

Para o seu estudo, a equipa de Hendrik Poinar analisou 12 dos esqueletos. Em dez, havia poucos vestígios do ADN da Yersinia pestis – mas, nos dentes dos restantes dois, o material genético foi suficiente para possibilitar a reconstituição de toda a molécula de ADN da bactéria, contou o investigador à revista britânica New Scientist.

Em seguida, os cientistas compararam esse genoma com os genomas de 131 estirpes da bactéria em circulação na segunda e terceira pandemias. E construíram a sua árvore evolutiva (uma árvore filogenética) ao longo dos tempos. Foi então que puderam concluir, refere o comunicado de imprensa, que “a estirpe responsável pelo surto de peste justiniana foi um ‘beco sem saída’ evolutivo, distinta das estirpes que mais tarde estiveram envolvidas na peste negra e noutras pandemias de peste que se lhe seguiram”.

“Concluímos que as linhagens de Yersinia pestis que causaram a peste-de-justiniano e, 800 anos depois, a peste negra emergiram de forma independente dos roedores para os seres humanos”, escreve a equipa no seu artigo, acrescentando que o ramo da árvore que conduz até às amostras dos dois esqueletos do tempo de Justiniano I não tem actualmente representantes: “Portanto, ou está extinto ou se encontra em reservatórios de roedores dos quais não temos amostras.”

Ricardo Jorge e a terceira pandemia
A terceira pandemia, nos séculos XIX e XX, começou por surgir em 1855 na província chinesa de Yunnan e disseminou-se pelo planeta a partir de Hong Kong (considerou-se activa até meados do século XX). Segundo o trabalho agora publicado, é provável que as estirpes desta última pandemia tenham descendido da estirpe medieval da peste negra.

A Portugal, a terceira pandemia chegou em 1899 – ou seja, 44 anos depois de ter aparecido na China. O médico Ricardo Jorge, membro da comissão técnica de saneamento da cidade do Porto, diagnosticou essa chegada ao país. “(…) Ricardo Jorge, no dia 4 de Julho de 1899, recebe um bilhete de um negociante da Rua de São João, chamando a sua atenção para uns óbitos que tinham ocorrido na Rua da Fonte Taurina. Inteirado do caso, e suspeitando da gravidade da moléstia, dá imediato conhecimento às autoridades competentes das suas inquietações e toma medidas para impedir a propagação da doença”, escrevem Valentino Viegas, João Frada e José Pereira Miguel em A Direcção-Geral da Saúde – Notas Históricas (2006).

O primeiro óbito (de um cidadão espanhol, Gregório Blanco) tinha ocorrido cerca de um mês antes do bilhete do negociante, a 5 de Junho. Depois desse caso e até 24 de Setembro, foram diagnosticados mais 88 casos. “Rapidamente, a notícia faz eco pelo mundo fora. As missões dos peritos estrangeiros confirmavam in loco, total e integralmente, tudo o que fora diagnosticado e prognosticado pelo investigador português”, recordam ainda os três autores das notas históricas sobre a Direcção-Geral da Saúde, criada a 4 de Outubro de 1899, logo depois do aparecimento da peste no Porto (então como Direcção-Geral da Saúde e Beneficência Pública), precisamente para melhorar a defesa contra futuras epidemias.

Voltando ao estudo genético da bactéria, a equipa receia que a peste volte a surgir em força. “Estes resultados mostram que os roedores por todo o mundo representam reservatórios importantes para a emergência repetida de diversas linhagens de Yersinia pestis nas populações humanas”, alerta a equipa no artigo.

“Se a peste justiniana pôde irromper na população humana, causar uma grande pandemia e depois desaparecer, isso sugere que pode acontecer outra vez”, considera, por sua ve,z David Wagner, da Universidade do Norte do Arizona (EUA), no mesmo comunicado. “Felizmente, agora temos antibióticos que podem ser usados para tratar eficazmente a peste, o que reduz as probabilidades de outra pandemia em grande escala.”

Apesar dos antibióticos, bem como da melhora das condições de higiene e do controlo dos ratos nas cidades, a peste ainda persiste nalgumas partes do mundo, como seja Ásia, África, América do Sul e América do Norte. E talvez só não mate mais – adianta a equipa – ou porque os seres humanos evoluíram tornando-se menos susceptíveis à bactéria ou porque as alterações do clima dificultaram a sobrevivência da bactéria na natureza. Mesmo assim, por ano, a peste continua a matar cerca de 2000 pessoas em todo o mundo. Madagáscar, onde reapareceu em 1991, é agora o país com mais casos anualmente: apenas num surto, em Dezembro de 2013, morreram 20 doentes. No ano anterior, Madagáscar relatou um total de 256 casos e 60 mortes, tornando-se o país mais atingido pela peste. Más condições higiénicas e um fraco acesso a cuidados de saúde têm contribuído para a doença.

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