Milhares nas ruas contra Hollande e a favor dos "valores tradicionais da família"

Movimento de oposição às políticas do Governo socialista para a família contestam acesso dos gays à procriação medicamente assistida ou a barrigas de aluguer.

Milhares de pessoas desfilaram em Paris
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Milhares de pessoas desfilaram em Paris REUTERS/Benoit Tessier

Os franceses que se mobilizaram contra a aprovação da chamada lei Taubira, que legalizou o casamento de pessoas do mesmo sexo, voltaram à rua para defender os “valores tradicionais da família” e protestar contra a procriação medicamente assistida e as barrigas de aluguer, dois “métodos” à disposição dos casais homossexuais que querem ter filhos.

Em Paris e em Lyon, centenas de milhares de pessoas (mais de 500 mil, segundo a organização) desfilaram numa “Manifestação Por Todos”, com cartazes contra as políticas do Governo socialista, acusado de “familiofobia” e de promoção de uma suposta “teoria do género” nos currículos escolares. “Educar as crianças é a tarefa dos pais” e “Hollande, não queremos as tuas leis”, gritaram os participantes.

Como explicou Ludovine de la Rochére, que preside à organização “Manif Pour Tous”, a iniciativa foi convocada em antecipação do futuro projecto de lei sobre a família que o Governo está a preparar – e deverá ser apresentado em Conselho de Ministros no próximo mês de Abril. O objectivo, conforme anunciado pela ministra da Família, Dominique Bertinotti, é reconhecer as novas formas de parentalidade e resolver questões de filiação e adopção.

Os manifestantes querem que o executivo saiba que a inclusão de artigos que autorizem a fertilização in vitro de mulheres em relações homossexuais ou legalizem a prática conhecida como “barrigas de aluguer” não será tolerada. “É uma advertência. Queremos mostrar o nosso compromisso e a nossa determinação em não deixar passar as ameaças que se preparam contra as famílias, que são o lugar natural de protecção dos mais fracos”, informou de la Rochére, antes do arranque da marcha. Os cartazes distribuídos pela multidão eram explícitos: “Um papá e uma mamã, é assim que se faz um bebé” ou “Todos nascemos de um homem e uma mulher”.

Em declarações ao Le Journal du Dimanche, o ministro do Interior, Manuel Valls, lamentou a constituição de um novo movimento político que descreveu como uma espécie de “Tea Party à francesa”: “Uma ala direita conservadora e reaccionária que se libertou com a oposição à lei do casamento para todos e veio ocupar as ruas”.

Notando que a manifestação de domingo ocorre precisamente uma semana após o “dia de cólera” convocado pela extrema-direita contra o Governo, Valls manifestou preocupação pelo actual clima político em França, que comparou com aquele que se viveu nos anos 30. “Estamos confrontados com uma frente de antis: antielites, anti-Estado, anti-impostos, anti-Parlamento, antijornalistas… E ainda pior, anti-semitas, racistas, homofóbicos. Muito simplesmente, anti-republicanos”, considerou. “Perante este fenómeno, a direita republicana tem a responsabilidade de se demarcar claramente destes movimentos que não aceitam a democracia e as escolhas do Parlamento”, acrescentou.

O recado de Manuel Valls destinava-se à UMP, que no passado apoiou as iniciativas de protesto contra a lei do casamento gay, mas começa a mostrar renitência em apoiar estas. O presidente do partido, Jean-François Copé, considerou a “Manifestação Por Todos” uma acção extemporânea, uma vez que, ao contrário da contestação do ano passado, agora “não existe nenhuma proposta em discussão no Parlamento”. Apesar de alguns membros do partido terem participado nas marchas, Copé manteve a UMP à margem – segundo notava a imprensa francesa, existe um claro “desconforto” na sede dos conservadores, que não querem ver-se associados a movimentos extremistas ou comparecer em eventos com a chancela da Frente Nacional.

Pelo seu lado, a comediante conhecida como Frigide Barjot, uma das impulsionadoras das marchas contra o projecto de casamento para todos, afirmou que não marcaria presença na manifestação de domingo por já não se rever na “violência e radicalização ideológica” que tomou conta do movimento.

A polícia de Paris deteve doze militantes do Grupo União e Defesa, uma organização estudantil de extrema-direita, que tencionavam infiltrar-se na manifestação. “Havia indícios de que se preparavam para criar problemas”, disse um porta-voz policial, acrescentando que foram mobilizados cerca de 3000 agentes para a operação de segurança da capital.