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Hambúrgueres: contra todas as tendências do comer bem

Chega a ser irónico que se olhe para um hambúrguer como algo que procura ser uma alternativa à globalização mas o que é facto é que esta foi uma das formas encontradas, mesmo por chefs de renome, de se destacarem

Durante o último ano assistiu-se a um fenómeno gastronómico sem precedentes. Um fenómeno que nos atingiu — contra todas as tendências do comer bem e do fazer por manter a linha — de forma gordurosa, alta em colesterol, mas… deliciosa. Sim, falo-vos de hambúrgueres.

Quer seja hora de almoço ou jantar num dia de semana, quer seja a meio de uma ressacada tarde de fim-de-semana, estão quase sempre atestados e com filas os agora inúmeros sítios onde se podem encontrar bons e não tão bons hambúrgueres tradicionais, artesanais, gourmet, caseiros… São sítios “hipster”, são “trendy”, são difíceis de aceder ou pelo menos implicam tempo de espera e estão repletos de gente sofisticada que, ainda antes da primeira dentada, cataloga a sua refeição nas redes sociais.

Ora como qualquer outro fenómeno ou tendência que atinge determinadas proporções, este gerou também, e inevitavelmente, “haters”. Porque é mais uma “americanice”, porque antes prefiro um bom prego ou bifana, porque não percebo o que têm de especial. E é aqui que ouso intervir.

Até há pouco tempo os hambúrgueres eram sinónimo de ganância corporativa, de exploração de mão de obra, do fomento de problemas relacionados com saúde, enfim, do lado negro da globalização. Ora, é inegável que as novas hamburguerias que surgiram recentemente fomentam e promovem o que é local, o que é único e autêntico e, moderadamente, o que é fresco e saudável.

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Chega a ser irónico que se olhe para um hambúrguer como algo que procura ser uma alternativa à globalização mas o que é facto é que esta foi uma das formas encontradas, mesmo por chefs de renome, de se destacarem e diferenciarem da concorrência. Tecnicamente, um hambúrguer é algo relativamente simples, qualquer um de nós cozinha e compõe um em casa, mas a realidade é que torná-lo especial e dissemelhante é uma tarefa trabalhosa e improvável que, pessoalmente, muito aprecio e valorizo.

Naturalmente, como tantas outras, esta será uma tendência que acabará por abrandar e da qual restarão, a médio prazo, apenas alguns exemplos de verdadeira qualidade que as leis do mercado se encarregarão de designar. No entretanto, ganharam-se alternativas de qualidade, acessíveis e tão mais saborosas que as cadeias internacionais de comida sem coração ou alma. Sim, acabamos por forçar uma ida extra ao ginásio ou a mais trinta minutos de corrida semanal mas toleramos isso porque “aquele” hambúrguer e “aquelas” batatas valem o empenho.

Desconheço que tendência gastronómica se seguirá (cervejas artesanais?) e se terá tamanho impacto mas, se elevar a fasquia qualitativa e alargar o leque de oferta disponível, creio que qualquer apreciador de boa comida (e bebida) como eu, a aceitará de braços abertos, que é como se recebe quem vem em paz.

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