Comentadores de bancada

Para muitos sites, a afluência de comentadores, mesmo que só digam asneiras, é interessante, pois aumenta o número de visitas às páginas, o que é significativo quando existem interesses comerciais

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Flickr/Dunechaser

Textos desvairados, insultos e até mesmo discursos de ódio: é possível encontrar tudo isto nos mais diversos espaços de comentários na Internet. Em grande medida, a interactividade, o anonimato e a facilidade de publicar na rede têm facilitado a propagação deste fenómeno. O epicentro deste prodígio verborreico são as caixas de comentários dos sites noticiosos, quer nos espaços de opinião, quer nos espaços noticiosos e quer os temas sejam política, economia, desporto, ciência, crimes, novidades dos famosos ou até mesmo catástrofes e acidentes.

Na globalidade, e infelizmente, são uma minoria aqueles que comentam, de facto, o assunto em si ou trazem algo de construtivo para a matéria em discussão. O que acontece, na verdade, é que um número considerável de indivíduos agarra com unhas e dentes a oportunidade de se expressar para insultar ferozmente, quer o jornalista que escreve notícia, quer o meio onde a notícia surge, quer os envolvidos na notícia, quer outras pessoas que já comentaram, quer o vizinho que estacionou o carro fora do sítio.

É um fenómeno impressionante que me faz imaginar centenas ou milhares de pessoas sem nada para fazer a não ser destilar veneno pelas caixas de comentários da rede, nos vários meios de comunicação social e não só. Sim, porque isto acontece não só nos meios noticiosos, mas também nas redes sociais (Facebook e Twitter), no You Tube e nos blogues, desde que se possa comentar de forma rápida, fácil e, de preferência, anonimamente. No entanto, a identificação dos autores dos comentários não é impeditiva (ou até será um incentivo) para alguns “insultadores” profissionais esbanjarem ofensas e disparates onde encontrarem um espaço para comentar. Por vezes utilizam uma outra arma: o email. E assim, de forma mais privada ou pública (quando enviam o email com conhecimento de várias pessoas, por exemplo, no caso de empresas e instituições), exortam os defeitos alheios.

Para muitos sites, a afluência de comentadores, mesmo que só digam asneiras, é interessante, pois aumenta o número de visitas às páginas, o que é significativo quando existem interesses comerciais. Além disso, limitar os comentários coloca questões relativas à liberdade de expressão e à participação pública dos cidadãos. Muitas das vezes, a solução encontrada é moderar os comentários, que só são publicados após aprovação, o que minora em muito este problema, mas isto só é possível em determinados contextos de recursos humanos e temporais.

No meu ponto de vista, no entanto, a solução mais eficaz, a longo prazo, para este problema passaria pela inclusão no ensino obrigatório de um curso intensivo (são só três lições) que daria o passaporte para poder ser comentador online. A primeira lição seria para explicar as diferenças entre opinar, reclamar e insultar. Todas elas são importantes e úteis em diversas situações da vida, mas são completamente diferentes. A segunda lição seria para praticarem estes três verbos cara a cara, em vez de se escudarem num ecrã, usando como arma um teclado. A terceira e última lição seria sobre ortografia e gramática. É que, se as outras duas lições anteriores falharem, pelo menos não ferem os olhos alheios com as calinadas monumentais que normalmente prosperam nos seus textos.

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