Também havia livros no inferno de Auschwitz

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NUNO FERREIRA SANTOS

O jornalista e escritor Antonio G. Iturbe partiu em busca de uma reportagem e acabou a escrever um romance. Sobre uma biblioteca e a rapariga que a geria, em Auschwitz

Antonio G. Iturbe (Saragoça, 1967) foi padeiro e vigilante de parques de estacionamento antes de se tornar jornalista (é actualmente o director da revista Qué Leer) e escritor. Exactamente por não ter tido uma infância privilegiada, diz que deve a sua vida a livros como os que colocou nas prateleiras de uma biblioteca que existiu no mais sinistro de todos os lugares do terror nazi. A Bibliotecária de Auschwitz é, justamente, o seu mais recente romance.

Começou a pesquisar sobre a biblioteca de Auschwitz quando leu uma referência sobre ela no livro A Biblioteca da Noite, de Alberto Manguel. Nunca duvidou da existência desses livros?

Não. Alberto Manguel escreveu um Dicionário de Lugares Imaginários, mas esta obra é sobre bibliotecas que existiram de facto. É verdade que me surpreendeu muito quando, em poucas linhas, ele explica, que num barracão de Auschwitz — o lugar mais terrível que existiu —, conseguiram criar aquela que terá sido a biblioteca pública mais pequena do mundo, com apenas oito volumes. Mas, sim, acreditei completamente, porque o dizia Alberto Manguel e porque vi na bibliografia a fonte onde ele tinha ido buscar a informação, que era outro livro. Li este livro, com artigos sobre temas variados relacionados com Auschwitz, e havia umas 15 páginas sobre o campo familiar.

Foi fácil conseguir informação sobre a biblioteca do Bloco 31?

Não, o Deus Google, que tudo vê e tudo sabe, neste caso sabia muito pouco. Pedi informação ao Yad Vashem, em Israel, e enviaram-me um tomo que se revelou muito útil. Além disso, decidi viajar até Auschwitz, para ver o que conseguia encontrar. Não trouxe de lá muita informação, no sentido restrito do termo, mas a viagem serviu-me muitíssimo, pelas sensações e percepções que recolhi. E, finalmente, como a vida não deixa de ser uma espécie de tômbola de casualidades, quando andava à procura de uma novela sobre o campo familiar de Auschwitz [The Painted Wall], de Ota Kraus, acabei por encontrar a pequena de 14 anos que cuidava dos livros e que, afinal, tinha casado com Ota e estava viva, em Israel. Dita Kraus tinha 80 anos naquela altura e, de um momento para o outro, estava a responder-me a um e-mail. Os livros levam-nos sempre a outros livros e, neste caso, um livro foi levando a outro e a outro até que acabei por escrever o meu próprio livro.

Alguma vez pensou que Dita ainda estaria viva?

Na realidade, não. Estava obcecado por saber quantos e quais seriam os livros da biblioteca. Estava tão obcecado com os livros que me esqueci, por um momento, da pessoa que estava por trás deles, não me tinha ocorrido procurá-la. Grande erro.

Essa obsessão é o motivo para esta história ser tanto sobre a condição humana como sobre a importância dos livros? Foi consciente?

Totalmente consciente, este livro é também uma forma de agradecimento ao muito que os livros fizeram por mim. Sou uma pessoa muito normal, de classe média, e os livros tornaram a minha vida extraordinária.

Quando Dita diz, a determinada altura, “O papá tinha razão. Aquele livro levou-me mais longe do que qualquer par de sapatos”, é a voz do escritor que ouvimos?

Tal qual. Os livros são uma janela para outros mundos e multiplicam-te a vida, porque a vida passa num instante e acaba. Os livros dão-te a oportunidade de viver muitas vidas, de conhecer muita gente, personagens incríveis. Eu estive na lua graças a Júlio Verne, cacei baleias com Melville em Moby Dick, ouvi as sereias na Odisseia, vi chorar Anna Karenina... Vivi coisas extraordinárias graças aos livros.

Começou a pesquisa para fazer uma reportagem, mas acabou por escrever um romance.

Sim, havia lacunas que não conseguia preencher, factos que não tinha como comprovar. Por outro lado, apercebi-me de que tinha recolhido uns quantos números, umas quantas situações, mas não tinha conseguido captar a emoção do momento. Parecia-me que estava a construir um acto notarial, sem espaço para o que eu de facto queria contar — a importância dos livros, a importância de uma escola. O facto de uma escola num lugar assim fazer com que as crianças possam, de alguma forma, regressar à sua condição de crianças. Aquele momento em que a vida se paralisa, mas uma escola começa. Estas emoções, esta esperança que nascia no sítio mais escuro do mundo, escapavam ao simples relato dos factos. Eu necessitava da ferramenta da ficção, para converter este monte de acontecimentos numa história que nos emocionasse.

Era importante para si esse lado emocional?

Sim. Embora seja jornalista, para mim uma notícia não são os factos. São os factos mais a visão de quem os está a contar. Se tens um pouco de água, farinha e sal, não tens pão. Para isso, precisas de uma mão que junte todos os ingredientes, que os ligue, que os amasse. De algum modo, o que a ficção faz é isto. Pegar na realidade, e trabalhá-la, tirar um pouco da fumaça, para que nos possamos dar conta do que está lá dentro. Porque os factos por si só não nos levam mais além do que à antessala da verdade.

Porque alterou o sobrenome de Dita, na obra? Há outras personagens baseadas em pessoas reais, como Fredy Hirsch, cujo nome manteve.

Porque o livro não é uma biografia, no sentido em que criei cenas imaginárias, recriei diálogos, situações. Inspirei-me em Dita, mas há, desde logo, coisas de que ela não se lembra com clareza, porque se passaram 70 anos, e também — e aqui acho que não exerci bem o meu papel de jornalista — porque houve coisas que não quis perguntar, coisas que pertenciam à sua intimidade.

Está a falar da morte dos pais dela?

Por exemplo. Eu fazia-lhe perguntas de uma forma muito cautelosa, com a máxima delicadeza, e apercebia-me de que às vezes me respondia de forma muito concisa. Isso aconteceu com as mortes dos pais e eu não lhe perguntei: e como te sentiste? Como se pode sentir uma menina de 14 anos que perde o pai ali, num campo de extermínio? Não quis explorar essa dor e imaginei o que ela poderia ter sentido.

E os livros que ajudam Dita a ultrapassar todo o terror vivido sob o regime nazi — A Montanha Mágica, A Cidadela ou O Bom Soldado Svejk — foram referidos por ela ou escolhidos por si?

Um pouco de ambos. Quando tentava descobrir que livros existiam na biblioteca, consegui reconstruir o título de cinco deles de forma mais ou menos segura: os livros de H. G .Wells e de Sigmund Freud, a gramática russa, o livro de matemática e o Atlas. Fui confirmando isto com várias fontes, outros sobreviventes. Mas, efectivamente, parece que eram oito livros, o que quer dizer que existiam mais três. Sobre um deles perdeu-se a memória, mas dos outros dois soube que um era um livro em checo e que o outro era em francês. A catapulta da imaginação fez-me pensar: que livro poderia ser em francês? Porque não O Conde de Monte Cristo, para falar sobre a vingança? Utilizo-o de forma simbólica, para introduzir o tema. A Dita disse-me: “Eu não tenho desejo de vingança, mas também não esqueço. Nunca poderei esquecer.” E sim, também lhe perguntei que livros tinha lido até àquela altura e ela falou-me do Thomas Mann de A Montanha Mágica, de um livro com biografias de investigadores de microbiologia que se chama Caçadores de Micróbios e de A Cidadela, que é um livro que eu não conhecia e que aproveitei para ler.

Antes de escrever este livro, o que sabia sobre o gueto de Terezín, onde Dita esteve com a família, e do campo familiar de Auschwitz?

Nada. Para mim foi uma descoberta absoluta. Pouco a pouco fui entrando em Terezín, essa cidade na República Checa que Hitler ofereceu aos judeus, mas que na realidade era uma falsa cidade, um gueto com actividades culturais, com uma polícia judaica, e que os nazis quiseram usar como fachada para os olhos da comunidade internacional. Estive em Terezín com Dita, que muito amavelmente me acompanhou lá.

Voltou a Auschwitz?

Não.

E gostaria?

(Longo silêncio) Não sei. São sensações contraditórias. Há pessoas que me perguntam se eu recomendo uma visita a Auschwitz. O que respondo a pessoas que vão à Disney ou a Biarritz? Auschwitz não é uma visita agradável. Interessante, sim, porque é uma porta aberta para uma parte crucial da História do século XX, e com uma carga emocional muito grande. Teria de ter um motivo para regressar, não o faria enquanto turista.

Perguntou a Dita se alguma vez pensou no que aconteceu aos livros?

Não. Ela tinha 14 anos, estava a passar por uma situação terrível e, no final, estava um pouco aturdida. Tudo o que diz respeito aos livros aparece como algo muito rápido na sua memória. Eles ficaram para trás. O seu destino daria outra novela, mas aí teria mesmo de se inventar tudo, porque não há qualquer rasto.

Dita acaba por ser transferida para Bergen-Belsen. A descrição que faz deste último campo é muito mais dura e dramática do que a de Auschwitz. Isto resulta da descrição que ela lhe fez?

Sim. Bergen-Belsen é uma espécie de descida aos infernos. A história de Dita começa com a chegada dos nazis a Praga, continua no gueto de Terezín, que é uma cidade sitiada, segue em Auschwitz, mas eis que chegamos ao sótão dos horrores que é Bergen-Belsen. Numa das longas conversas que tive com Dita, em Praga, ela falou-me de Auschwitz, de quão terrível tinha sido, das privações, da morte do pai. Ela é uma mulher muito forte, que não se cala nem recua perante nada. Mas quando começou a falar de Bergen-Belsen nasceu-lhe um nó na garganta. Em muitos momentos ficava calada e não conseguia continuar. Embora pareça incrível, Bergen-Belsen foi mais duro do que Auschwitz.

Escreve livros para crianças. Imagino que o processo, ao escrever um livro como este, seja muito diferente.

São produtos diferentes, mas têm um ponto em comum, afinal a protagonista tem 14 anos, é uma menina. As crianças fascinam-me, aprendo muito com elas. E ainda que este não seja, em absoluto, um livro infantil, fico muito contente por ter recebido mensagens de gente muito jovem que o leu e que me diz que gostou muito. Há algo no papel das crianças em tudo isto que me fascina e que me reconcilia com o mundo, que é a sua capacidade de ultrapassar o horror. Quando os nazis entram em Praga — eu já tinha lido sobre isto e Dita contou-me também —, tudo passa a ser proibido aos judeus, até esta coisa sádica de uma criança não poder ir a um parque infantil, não poder brincar, não poder descer por um escorrega. E, então, as crianças iam para o cemitério judaico e brincavam às escondidas. A mim isto parece-me maravilhoso. Enquanto muitos adultos ficaram completamente paralisados pelo medo, pela tristeza, pela repressão, as crianças encontraram uma saída, e continuaram a rir e a correr. As crianças conseguiram aldrabar o Terceiro Reich. Esta força delas fascina-me.

Quando estava a escrever ocorreu-lhe que o livro poderia ser lido por uma criança?

Este não é um livro para crianças. É uma história difícil, há coisas muito duras. Até que ponto temos de ocultar às crianças as coisas horríveis da vida? Não sei. Não sou partidário de que tudo tenha de ser como o Canal Disney, mas também não acho que tenhamos de queimar etapas com as crianças. Elas têm direito a uma infância feliz. É fundamental. Se estas maldades e tragédias fazem parte da condição humana, talvez seja melhor esperar um pouco para lhes contar, deixá-las desfrutar dos Reis Magos mais uns anos.

Neste era da Internet e do digital, acha que as crianças e os jovens ainda conseguem compreender a mensagem da importância dos livros?

As crianças, os jovens e os adultos... É muito difícil fazer as pessoas compreenderem que não podemos viver apenas de centros comerciais, que temos de ser algo mais do que consumidores, que temos de tentar ser cidadãos. A cultura é o que nos faz subir a fasquia. E isto é uma mensagem que tem de ser transmitida às crianças e aos adultos, porque eu venho de um país com um Governo que decidiu, por exemplo, que à cultura, ao teatro, ao cinema e à música se aplicava um IVA de 21%, que é o mais elevado que temos. Em Espanha, pagas o mesmo imposto por comprar um Ferrari Testarossa e por ir ao teatro, e com isto estão a dizer-nos que a cultura é um luxo, um capricho tonto. Precisamos de rebobinar um pouco o filme e ver que mundo e que valores queremos deixar aos nossos filhos.

Este é um livro sobre o passado com uma mensagem muito presente?

Espero que sim. A luta de Fredy Hirsch para montar uma escola é uma luta de antigamente, de agora e de sempre. Pensemos no que está a acontecer em algumas partes do mundo, em Malala, que reclamava que as meninas podiam ir à escola e, por isso, apanhou um tiro na cabeça. Cometeu o terrível delito e pecado de pedir que houvesse escolas [no Paquistão]. Essa luta continua, não é uma historieta que aconteceu há muitos anos. Não ganhamos tudo, há que continuar a lutar pelas escolas, pelo ensino; é uma batalha que não está ganha.

Dita já leu o livro?

Sim.

E o que disse?

Que há montes de coisas que estão mal, detalhes (risos). Ela é muito humilde e preocupa-a que outros sobreviventes possam pensar que quer que lhe dêem medalhas. Ela não pediu nenhuma, se alguém lhe pôs uma medalha fui eu. E tudo isto a deixa um pouco preocupada. Se há algo bem feito neste romance e se ele tem algum interesse é graças a ela, Dita Kraus, à sua personalidade. E todos os erros, exageros ou desvios são culpa minha. Disse-lhe para não estar de todo preocupada porque os erros são todos meus.