Opinião

Visita a Auschwitz

A comemoração do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto a 27 de Janeiro – o aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz – calha num momento em que à nossa volta há alertas para os perigos do esquecimento. Este ano assinalam-se duas décadas desde o genocídio no Ruanda. Conflitos na Síria, Sudão do Sul e República Centro- Africana assumiram uma dimensão social e comunitária perigosa. O fanatismo ainda percorre as nossas sociedades e nossa política. O mundo pode e deve fazer mais para eliminar o veneno que levou aos campos de concentração.

Eu visitei Auschwitz-Birkenau em Novembro passado. Um vento frio soprava naquele dia, o chão sob os meus pés era rochoso. Mas eu tinha um sobretudo e sapatos resistentes; os meus pensamentos foram para aqueles que não tinham nem uma coisa, nem outra: os judeus e outros prisioneiros que outrora povoaram o campo. Eu pensei naqueles prisioneiros a passar horas em pé, nus, num clima gelado, arrancados às suas famílias, os seus cabelos rapados enquanto os preparavam para as câmaras de gás. Pensei naqueles que foram mantidos vivos apenas para trabalhar até a morte. Acima de tudo, reflecti sobre quão insondável o Holocausto permanece até hoje. A crueldade foi tão profunda, a escala tão grande, a visão de mundo nazi tão deformada e extrema, a mortandade conduzida de uma forma tão organizada e calculada.

Os aquartelamentos do campo de Birkenau pareciam estender-se até o horizonte em todas as direcções – uma vasta fábrica da morte. O "Livro dos Nomes" com a identificação de milhões de vítimas judias enchia uma sala, ainda que contivesse apenas uma fracção do total das vítimas, que também incluiu polacos, ciganos, Sinti, prisioneiros de guerra soviéticos, dissidentes, homossexuais, pessoas com deficiência e outros. Fiquei especialmente comovido com um vídeo mostrando a vida dos judeus na Europa na década de 1930 – cenas de refeições em família e visitas à praia, performances musicais e teatrais, casamentos e outros rituais, todos barbaramente extintos com o assassínio sistemático, único na história da humanidade.

Marian Turski, um judeu polaco que sobreviveu a Auschwitz e é hoje o vice-presidente do Comité Internacional de Auschwitz, guiou-me através do infame portão com o lema "Arbeit Macht Frei" (O trabalho liberta) – desta vez em liberdade. O Rabino Yisrael Meir Lau, um sobrevivente de Buchenwald e agora o rabino-chefe de Telavive, esteve ao meu lado na rampa onde os comboios de transporte descarregavam a sua carga humana, e contou o momento traumático quando o rápido movimento do dedo indicador de um comandante das SS significava a diferença entre a vida e a morte. Sinto pesar por aqueles que morreram nos campos, e estou impressionado com aqueles que viveram – que carregam memórias tristes, mas também mostraram a força do espírito humano.

Também fui acompanhado por estudantes do Centro Internacional de Encontro da Juventude em Oswiecim, que trabalham para construir pontes entre os povos e nações. “L'dor V'Dor”, disse-me Marian Turski, palavras que em hebraico significam "de geração em geração", a transmissão da sabedoria. É por esta razão que Auschwitz-Birkenau está na lista do Património Mundial da UNESCO. Não podemos construir o futuro sem nos lembrarmos do passado, o que aconteceu uma vez pode voltar a repetir-se.

Combater o ódio está entre as principais missões da Organização das Nações Unidas. Os nossos mecanismos de direitos humanos trabalham para proteger as pessoas. Os nossos tribunais especiais e tribunais esforçam-se para combater a impunidade, fazer justiça e prevenir violações de direitos humanos. Os conselheiros especiais da ONU sobre Prevenção do Genocídio e a Responsabilidade de Proteger escrutinam constantemente o mundo para detectar indícios de crimes atrozes. A “Aliança de Civilizações” pretende contrariar manifestações de ódio, de anti- semitismo e islamofobia, ultra-nacionalismo e o preconceito contra minorias. A nossa nova iniciativa "Direitos Up Front" (Direitos na frente) visa reforçar a acção precoce para prevenir graves abusos dos direitos humanos.

Ao longo de quase uma década, o Programa de Informação “Nações Unidas e o Holocausto” tem vindo a trabalhar com professores e alunos de todos os continentes para promover a tolerância e os valores universais. O mais recente pacote educacional do programa, produzido em parceria com o Museu Memorial do Holocausto nos Estados Unidos, vai ajudar a introduzir estudos sobre o Holocausto nas salas de aula de países como o Brasil, a Nigéria, a Rússia e o Japão. Na cerimónia de comemoração deste ano na sede da ONU, o orador principal será Steven Spielberg, cujo Instituto Shoah para a História Visual e a Educação foi um marco na preservação dos testemunhos de sobreviventes.

A poucos passos do crematório em Auschwitz, tirei um tempo para mim próprio, para a reflexão. Toquei numa cerca de arame farpado – já não electrificada, mas ainda afiada e intimidante. Senti-me esmagado pela enormidade do que aconteceu ali dentro e profundamente tocado pela coragem e sacrifício dos soldados e líderes de muitas nações que derrotaram a ameaça nazi. A minha esperança é que a nossa geração e aquelas que virão, irão convocar esse mesmo sentido de propósito colectivo para evitar que tal horror volte a acontecer em qualquer lugar, para qualquer pessoa ou grupo, e construir um mundo de igualdade para todos.

Secretário-geral das Nações Unidas
 
 
 

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