Os desaparecidos na guerra à droga do México

São mais de 25 mil pessoas que nos últimos anos desapareceram sem deixar rasto ou deixando um rasto que as autoridades teimam em não seguir. São vítimas da guerra declarada aos cartéis da droga, onde muitas vezes não é fácil distinguir entre soldados e criminosos, porque uns e outros estão frequentemente no mesmo lado.

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Manifestação de parentes de pessoas desaparecidas na guerra contra o tráfico de droga no México Frederic J. BROWN/AFP

O dia em que Israel Arenas Durán, de 17 anos, desapareceu começou como qualquer outro, com a mãe a preparar-lhe o pequeno-almoço. Comeu com o pai e o irmão Irving, de 15 anos, na pequena mesa de madeira no exterior da casa, de uma só divisão, com vista para os viveiros de plantas que a família gere no estado de Nuevo León, no Norte do México.

Quando Israel acabou de comer, ele e mais três homens jovens que trabalham nos viveiros carregaram várias palmeiras para a carrinha e encaminharam-se para uma cidade vizinha onde iam passar o dia a tratar do jardim de uma vivenda. Por volta das 22h dessa noite de 17 de Junho de 2011 o telemóvel de Irving tocou. Era Israel que lhe ligava de uma tasca próxima onde ele e os outros jovens tinham parado para uma bebida. Estava sem dinheiro e precisava que Irving lhe fosse levar algum. Irving entrou na carrinha do pai e dirigiu-se ao bar. Cinco minutos depois de entrar na estrada principal, viu umas luzes a piscar à sua frente. Viu o carro de Israel parado na berma, com um carro da polícia atrás. Irving encostou, saiu do carro e começou a dirigir-se para eles.

Estava a cerca de cinco metros, quando viu um polícia a levar Israel, algemado, para dentro do carro-patrulha. O polícia virou-se e, reparando em Irving, abordou-o. “O que se passa?”, perguntou Irving, virando a cabeça na direcção do carro da polícia, que, reparou, tinha o número 131. “Conheces aquele gajo?”, perguntou o polícia. Houve um longo silêncio. “Não”, respondeu Irving. “Então, desaparece.”

Irving voltou para o seu carro, deu meia volta, e assim que as luzes deixaram o seu espelho retrovisor acelerou até casa para contar aos pais o que tinha acontecido. Nunca mais voltou a ver o irmão.

A 1 de Dezembro de 2012, Enrique Peña Neto tomou posse como 57.º Presidente do México no meio de uma terrível vaga de violência ligada à droga. Mais de 100 mil pessoas tinham sido mortas durante os seis anos em que o seu antecessor, Felipe Calderón, declarara “guerra às drogas” e encarregara o Exército Mexicano de atacar o poderoso cartel da droga do país.

A vitória de Peña Neto marcou o regresso do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o país ininterruptamente durante mais de 70 anos até ser derrubado em 2000. Durante o tempo em que esteve no poder, o PRI desenvolveu um modelo para controlar praticamente todos os aspectos da vida dos mexicanos, incluindo o tráfico de droga. Peña Neto — jovem, bem educado e com boa aparência — prometeu terminar a guerra de Calderón sem voltar ao antigo “pacto” do PRI, que permitira aos cartéis da droga actuar, desde que respeitassem certas regras e dessem ao Governo a sua parte. No entanto, durante a campanha e o seu primeiro mês na presidência, Peña Neto deu poucos pormenores sobre as diferenças da sua abordagem. Nem sequer apresentou um plano sobre como lidar com um dos aspectos mais nefastos da guerra à droga: os desaparecimentos.
Esta omissão é particularmente perturbadora dado que, a 29 de Novembro de 2012 — dois dias antes de Peña Neto tomar posse —, foi tornada pública uma lista do Governo que mostrava que mais de 25 mil pessoas tinham desaparecido durante o Governo de Calderón. (Esta lista chegou às mãos do Washington Post — http:
/wapo.st/1dsLzrT — através de um analista do Governo que suspeitava que nem Calderón nem Peña Neto alguma vez revelariam o número.)

O que acontece a quem desaparece

O “desaparecimento” de pessoas — que envolve um sequestro e depois esconder o seu paradeiro — foi uma das tácticas mais sinistras usadas pelos governos da América Latina nas “guerras sujas” que começaram na década de 1960. Nessa altura, os desaparecimentos destinavam-se a erradicar movimentos de guerrilha e os seus alegados simpatizantes: intelectuais de esquerda, sindicalistas, líderes estudantis. O Governo de Augusto Pinochet, no Chile, fez desaparecer mais de três mil pessoas; a junta militar argentina 10 mil, segundo o número oficial. Durante a guerra suja do México, do final dos anos 1960 até ao início dos anos 80, o Governo PRI fez desaparecer cerca de 500 pessoas — algumas das quais foram lançadas vivas de aviões da Força Aérea para o oceano Pacífico. Se pelo menos metade dos casos conhecidos em 2012 forem reais, isto constituiria uma das piores vagas de desaparecimentos na América Latina em décadas.

Mas ao contrário dos desaparecimentos na guerra suja, que seguia a lógica sinistra de tomar como alvos sectores específicos da população, não existe qualquer explicação para a razão pela qual tantas pessoas desaparecem na guerra à droga no México, ou o que lhes aconteceu. Passei três anos a investigar mais de 300 desaparecimentos em 11 estados mexicanos para a Human Rights Watch. Descobri que, se há alguma coisa em comum nestes desaparecimentos, é que o Governo não fez praticamente nada para tentar encontrar os desaparecidos. E tem falhado constantemente em seguir as linhas de investigação que, caso após caso — incluindo o de Israel Arenas Durán —, levam a uma ligação entre os cartéis e os mesmos soldados que a polícia envia para os combater.

O Governo de Peña Neto começou por negar a existência de uma lista com nomes das vítimas. Meses depois, sob pressão, prometeu dar pequenos passos para lidar com os desaparecimentos. Mas até hoje, com mais de um ano de governação, poucas das promessas de Peña Neto foram cumpridas. O paradeiro de milhares de mexicanos continua incerto. As famílias continuam à procura, frequentemente com pouca ajuda do Governo. E mais pessoas continuam a desaparecer.

O filho a escapar-lhe entre os dedos

Depois de Irving ter ido a correr para casa, contou calmamente à mãe, Luz María Durán Mota, aquilo que tinha visto. Luz, uma mulher baixinha e de voz suave, com uma longa trança preta a cair nas costas, tem contado os acontecimentos que rodeiam o desaparecimento de Israel em entrevistas ao longo destes dois anos, juntamente com o marido, Emilio, e Irving. Os seus relatos são corroborados por procuradores do Ministério Público com quem falei que acabaram por tomar conta do caso.

Luz conta que agarrou em Irving e foi até à esquadra da polícia na cidade de Benito Juárez. Quando chegaram, por volta da meia-noite, Irving viu o carro envolvido na detenção do seu irmão parado à porta: carro patrulha 131.
Luz disse à recepcionista que vinha buscar o filho. A agente apontou o nome de Israel e saiu por uma porta nas traseiras da esquadra. Enquanto ela não vinha, apareceu o polícia que tinha detido Israel. Irving virou rapidamente a cara.

Quando a recepcionista voltou, disse que não estava lá detido nenhum Israel. Onde poderia ele estar, perguntou Luz, apanhada de surpresa. “Volte amanhã de manhã”, disse-lhe. Luz passou a noite acordada na cama, na esperança de ouvir a carrinha de Israel parar lá fora.

Na manhã seguinte, Luz e Irving voltaram à mesma esquadra, onde outro recepcionista lhes disse a mesma coisa. Vejam nas esquadras da zona, disse-lhes. Foi o que eles fizeram, mas nenhuma tinha qualquer registo da detenção de Israel.

De volta à esquadra de Benito Juárez, pela terceira vez, Luz e Irving foram recebidos por um agente à civil, alto e encorpado, com atitude de comandante. Luz contou-lhe a sua história. “Não se preocupe”, sossegou-a o polícia. “Ele aparecerá em breve”. Luz pediu-lhe que verificasse nas celas da esquadra se Israel lá estaria, mas o agente respondeu-lhe que saberia se algum Israel tivesse sido preso. Luz insistiu e ele acabou por aceitar ir ver. Quando voltou, disse a Luz que afinal o seu filho estava lá. Tinha só “apanhado umas pequenas bofetadas” para aprender a lição e seria libertado no dia seguinte.

Luz agradeceu efusivamente ao polícia e telefonou para as mães dos outros três jovens que estavam com o filho e que também tinham desaparecido.
Enquanto Luz estava ao telemóvel, o polícia à paisana acenou a Irving e apertou-lhe o ombro com firmeza. Aproximando-se, recorda Irving, o polícia sussurou-lhe: “Sabes o que acontece às pessoas que falam de mais.” Depois deu-lhe uma palmadinha nas costas e afastou-se. Aterrorizado, Irving não contou logo à mãe o aviso que recebera.

Quando Luz terminou os seus telefonemas, ela e Irving saíram da esquadra. Ao lado havia um terreno usado por uma empresa de electricidade. Luz viu a carrinha de Israel estacionada lá dentro e perguntou ao homem que estava no portão quem a tinha trazido. “Os polícias”, respondeu.

Luz voltou à esquadra no dia seguinte bem cedo, com uma muda de roupas para Israel, feijão e tortilhas — para o caso de ele não ter comido. Sentou-se à frente da recepção. Depois de horas à espera, dirigiu-se à recepcionista — que nunca tinha visto — e perguntou quando é que o filho seria libertado. A recepcionista olhou para os registos e disse-lhe que não estava lá ninguém com esse nome. Quando Luz insistiu, ela foi chamar um superior.
Luz voltou a contar a sua história, desta vez a outro agente. O homem disse que, de acordo com os registos da prisão, nunca tinha lá estado ninguém chamado Israel. Mas então as garantias do polícia que estava vestido à civil, perguntou Luz, descrevendo o homem. “Não faço ideia de quem está a falar”, afirmou o agente. Nesse momento, diz Luz, sentiu o filho escapar-lhe entre os dedos.

Zetas, um cartel de Nuevo León

Nos dias seguintes, as ligações da polícia à detenção de Israel começaram a desvanecer-se peça por peça. A carrinha de Israel desapareceu. O polícia que Irving vira a levar o irmão para dentro do carro — e que viu na esquadra quando lá foi com Luz — não voltou a aparecer nas visitas seguintes. O mesmo aconteceu com o agente à paisana.

Quase uma semana depois, o pai de Israel ia a conduzir na estrada onde ele tinha sido detido quando passou uma carrinha que parecia ser a do filho. Ele seguiu-a até a um bairro residencial e chamou a polícia. Quando as autoridades chegaram, apontou para a carrinha e para a casa onde o condutor tinha entrado. Foi com eles até à porta. O homem que abriu, saberiam mais tarde os investigadores, era um antigo polícia de um estado vizinho. Tinha sido despedido um ano antes depois de ter chumbado num teste de polígrafo usado para detectar agentes corruptos. Desde aí, admitiria mais tarde, começou a trabalhar a tempo inteiro para o Zetas, um cartel em crescimento em Nuevo León.

O Zetas começou por ser o braço armado de outro cartel poderoso, mas tornou-se independente em 2010. Sem acesso imediato ao fornecimento de droga, dedicou-se a outros comércios: sequestros, tráfico de imigrantes sem documentos, tráfico de mulheres. Um dos seus negócios mais rentáveis é a extorsão.

Nas cidades controladas pelos zetas, praticamente todo o comércio — desde restaurantes finos a tascas da esquina — tinha de pagar uma quota para continuar aberto. As lojas que não pagavam eram incendiadas, os seus proprietários assassinados com espalhafato, às vezes com um “z” marcado na carne. Parte do dinheiro que os zetas conseguiam angariar era para pagar a polícias e políticos locais.

Em Nuevo León, um dos muitos bares que os zetas geriam era aquele onde tinham ido Israel e os amigos na noite em que desapareceram. Pouco tempo depois de Israel telefonar ao irmão, teve uma discussão com a gerente por causa da conta, pagou aquilo que achava que era justo e saiu, admitiu mais tarde a gerente num depoimento. Ela achou que Israel a tinha humilhado e ligou ao patrão dos zetas para contar o que acontecera. O patrão ligou depois à polícia e disse-lhes para pararem a carrinha de Israel. Mas o ex-polícia que agora a tinha disse que não fazia a mínima ideia de quem era Israel ou o que lhe tinha acontecido. Afirmou que um dos seus chefes dos zetas lha tinha oferecido.

Depois da história da carrinha, os investigadores responsáveis pelo caso de Israel foram finalmente interrogar o polícia encarregue do carro de patrulha 131. Também ele admitia ter trabalhado para o Zetas. No seu depoimento, disse ter mandado parar a carrinha de Israel por ordens do cartel e que depois lhes entregou Israel e os amigos. Mas não fazia ideia por que é que os zetas queriam os homens ou o que lhes tinham feito.

Autoridades falham investigação

Quando as notícias dos desaparecimentos começaram a emergir, nos primeiros anos da guerra à droga de Calderón, o Governo argumentava que as pessoas desapareciam por si próprias. Jovens mulheres fugiam com os namorados ou escapavam de pais controladores; homens jovens fugiam para se juntarem a gangues ou escondiam-se de crimes que tinham cometido. Quando surgiram provas irrefutáveis de que as pessoas tinham sido levadas contra a sua vontade, tornando estas explicações inaceitáveis, o Governo começou a dizer que os crimes eram consequência da batalha entre cartéis rivais: criminosos faziam criminosos desaparecer. Mas tal como muitas das respostas de Calderón sobre a violência ligada à droga, a teoria não tinha fundamento — e servia só para se encaixar na outra narrativa maior, de que as vítimas, cada vez mais numerosas, agiam por si.

Sem dúvida que alguns dos desaparecimentos eram o resultado de ajustes de contas entre os cartéis. Mas em entrevistas com agentes policiais, procuradores, testemunhas, familiares das vítimas e activistas dos direitos humanos, juntamente com a análise aprofundada a milhares de páginas de processos, relatórios policiais e outros documentos do Governo, as provas que encontrei sugerem que a maioria não eram criminosos, mas homens jovens, de classe trabalhadora, com família. Mais: as provas sugerem que as autoridades não só falharam na investigação dos desaparecimentos, como, em muitos casos, soldados e polícias ajudaram a executá-los.

Numa única noite de Junho de 2011, por exemplo, foram detidos seis homens em rusgas diferentes na cidade de Nuevo Laredo, no Norte. As famílias deles, que não se conheciam entre si até àquela noite, fizeram relatos idênticos: uma coluna com mais de dez veículos, a maioria com a insígnia da Marinha, parou às suas portas de casa. Homens armados, com a farda da Marinha, entraram sem mandados e detiveram-nos. Vários familiares tiraram fotografias, que mais tarde me mostraram, às tropas e aos seus veículos oficiais.

No início, a Marinha negou o envolvimento. Depois, alegou que deteve brevemente os homens para serem interrogados. Mais tarde, disse que os levaram para os proteger dos zetas e que depois os deixaram numa paragem de autocarro a 150 quilómetros de distância. Nenhum dos seis voltou a ser visto desde então.
 

98% dos crimes não são punidos

As famílias das vítimas que encontrei diziam-me frequentemente que os sequestros eram para obrigar os jovens a trabalhar para os cartéis — como assassinos, prostitutas ou nas fábricas de processamento de droga. Apesar de poucas famílias terem provas destas acusações, elas são plausíveis. Os pais de um revisor de autocarro de 17 anos, que em 2011 foi raptado com uma arma em Escobedo, uma cidade perto de Benito Juárez, disseram-me que o viram a conduzir um carro dos zetas que fazia as rondas para a extorsão de pagamentos. Pouco depois do seu sequestro, telefonou para casa e disse-lhes que os zetas tinham ameaçado matar toda a família se ele escapasse. “Não vão à polícia”, disse aos pais. “Eles trabalham para o cartel.”

De facto, muitas famílias das vítimas optaram por não apresentar queixa sobre os desaparecimentos dos seus familiares. Isto explica-se em parte porque, num país onde 98% dos crimes não são punidos, é frequente não haver confiança nas autoridades. Outros têm um medo justificável de que se o fizerem haverá represálias.

Pessoas que foram à polícia perceberam que muitas vezes as autoridades culpam as vítimas pelos desaparecimentos — uma justificação que era várias vezes usada para não abrir as investigações. Uma mulher contou-me que quando informou o chefe da polícia da sua cidade, no estado de Coahuila, de que o seu filho tinha sido raptado, a primeira pergunta dele foi: “O que é que ele terá feito para lhe acontecer uma coisa dessas?”

Quando as autoridades abriram investigações, fizeram-no atabalhoadamente: ignorando as pesquisas aos telemóveis das vítimas (que por rotina ficavam ligados durante semanas depois dos sequestros), não entrevistando testemunhas, nem analisando imagens de câmaras de segurança. Se esta negligência é motivada pela incompetência ou pelo medo de escavar demasiado fundo em locais onde o conluio entre o crime organizado e as autoridades é comum, depende do caso. É verdade que polícia e procuradores enfrentam riscos reais. No estado de Chihuahua, o chefe do gabinete do Ministério Público disse-me que, dos seis chefes das equipas de investigação como a sua, três tinham sido mortos nos últimos anos.

Os progressos feitos nas investigações têm vindo maioritariamente das famílias, algumas das quais formaram grupos ou trabalham com organizações locais de direitos humanos. Localizaram testemunhas-chave e convenceram-nas a falar. Foram a prisões, hospitais, morgues, bases militares, esquadras policiais e controlos fronteiriços à procura dos desaparecidos. Confrontaram membros de cartéis conhecidos com polícias corruptos. Improvisaram perante os obstáculos: quando as empresas telefónicas se recusaram a dar os registos de telemóvel das vítimas, por exemplo, as famílias compravam-nos a empregados corruptos. Durante vários anos, estes grupos e organizações locais trabalhavam isolados uns dos outros e, apesar de alguns avanços nas investigações, ninguém conseguia encontrar os seus parentes.

Carta aberta ao Governo

Durante todo este tempo, os crescentes desaparecimentos e os apelos das famílias afectadas eram invisíveis para a maioria dos mexicanos — raramente eram cobertos pelos media e eram amplamente ignorados pelo Governo.
Isso começou a mudar em Março de 2011, quando sete cadáveres foram encontrados na mala de um carro no estado de Morelos. O incidente não teria sido notícia, dada a falta de cobertura da violência no México, se não fosse dar-se o caso de um dos mortos ser filho de um respeitado poeta mexicano, Javier Sicilia.

Na semana seguinte, Sicilia publicou uma carta aberta dirigida aos políticos e cartéis do país. “Já tivemos que chegue”, escreveu. Disse que o Governo “não só permite que os nossos filhos sejam assassinados, como depois os apresenta como delinquentes, criminalizando-os falsamente para satisfazer a sua limitada imaginação”.

A carta foi o catalisador de marchas a favor das vítimas em todo o país, levando o sofrimento das famílias para a vista de todos. Sicilia liderou uma caravana de famílias até à Cidade do México, onde Calderón as recebeu. Apesar de ter mantido inabalável a sua perspectiva de que a guerra à droga era necessária, Calderón expressou empatia pelo sofrimento das famílias e garantiu que o seu Governo iria fazer mais para as ajudar.

Mas, depois do encontro, Calderón pouco fez para cumprir a sua promessa. Em Novembro de 2011, poucos meses depois da reunião com Sicilia, mostrei a Calderón um relatório que escrevi sobre os abusos de soldados e polícias, incluindo desaparecimentos, na guerra à droga. Ainda assim, Calderón insistiu que os casos eram isolados e que tanto os perpetradores como as vítimas trabalhavam na maioria das vezes para os cartéis. Manteria esta posição até ao seu último ano no poder, mesmo quando o seu Governo começara a juntar uma lista com milhares de nomes de desaparecidos — a mesma que acabaria por ser passada ao Washington Post.

Relatório da Human Rights Watch

Apesar da promessa eleitoral de acabar com a guerra à droga de Calderón, a estratégia de Peña Neto depois de tomar posse era francamente semelhante à do seu antecessor, confiando quase exclusivamente nas forças de segurança mal treinadas e dadas a abusos para combater os cartéis. Passado pouco tempo de governação, por exemplo, Peña Neto enviou milhares de soldados a Michoacán para restabelecer a ordem face à violência que eclodira relacionada com a droga. (Foi o primeiro local para onde Calderón enviara o Exército depois de anunciar o início da sua guerra à droga seis anos antes.)

Sem surpresas, a estratégia não produziu resultados. Enquanto os assassínios caíram entre 8 e 13% no primeiro ano de Peña Neto, a redução ficou muito longe dos 50% que ele tinha prometido: quase 20 mil pessoas foram mortas entre Dezembro de 2012 e Dezembro de 2013. Talvez ainda mais perturbador, a violência alastrou. Nos últimos seis meses de governação de Calderón, registaram-se execuções relacionadas com a droga em 217 municípios; nos primeiros seis meses de Peña Neto, ocorreram em 236. Raptos e extorsões também aumentaram com Peña Neto para o seu nível mais elevado em mais de 15 anos.

Quanto aos desaparecimentos, os primeiros resultados de Peña Neto foram igualmente decepcionantes. A 20 de Fevereiro de 2013, quase três meses depois de ser empossado, a Human Rights Watch publicou um relatório que eu redigi documentando os desaparecimentos generalizados cometidos durante a governação de Calderón. No mesmo dia, a presidência reconheceu publicamente pela primeira vez que havia realmente uma lista de mais de 26 mil pessoas desaparecidas. (O tamanho da lista aumentou desde que foi divulgada pela primeira vez.) O Governo prometeu criar uma unidade especial no Ministério Público para investigar o problema, que apelidou de “crise humanitária”.

Apesar de ser uma medida prometedora, o Governo esperou depois até ao final de Maio para formar a tal unidade especial, anunciando-a apenas depois de mais de uma dezena de pais de desaparecidos ter entrado em greve de fome à porta da procuradoria. A unidade recebeu apenas 12 investigadores, ou seja, um por cada 2170 indivíduos dados como desaparecidos, e sem um mandato claro. (Vários meses depois, recebeu mais dez procuradores.)

Para além disso, Peña Neto tem andado a arrastar os pés na criação de uma base de dados sobre corpos não identificados. Mais de 16 mil cadáveres nestas circunstâncias foram encontrados nos últimos anos, muitos em valas comuns. Se existisse um registo nacional de resquícios humanos, semelhante aos da Argentina e dos Balcãs (entre outros), poderia cruzar-se a informação com outra base de dados nacional sobre os desaparecidos, formada a partir da actual lista de mais de 26 mil nomes. Assim, o destino de pelo menos alguns dos desaparecidos poderia ser pelo menos conhecido.

Informações contraditórias

Entretanto, os desaparecimentos continuaram durante o mandato de Peña Neto. Em Nuevo Laredo, por exemplo, foi relatada uma vaga de novos sequestros em Junho e Julho de 2013. Tal como com o desaparecimento de seis homens na cidade em 2011, quase todos foram atribuídos à Marinha.

Um caso envolveu um casal cujo carro foi parado num checkpoint da Marinha no início da manhã de 29 de Julho. Foi-lhes ordenado que saíssem do carro, entrassem num veículo militar e fossem até uma base da Marinha ali próxima, de acordo com um amigo que seguia no carro atrás deles. Continuam desaparecidos.

Num relatório de Outubro sobre o caso que foi enviado às Nações Unidas, o Governo mexicano afirma que a Marinha não faz operações stop em zonas urbanas. Mas três delegados do Ministério Público com quem falei em Nuevo Laredo disseram-me que a Marinha as faz regulamente na cidade.

Em Maio de 2013, quase dois anos depois do desaparecimento de Israel Arenas Durán, a comissão de direitos humanos de Nuevo León divulgou um relatório concluindo que a polícia tinha participado no rapto. As conclusões não produziam quaisquer consequências legais, mas esta era a primeira vez que a comissão estatal determinava que agentes estatais eram responsáveis por um desaparecimento. O gabinete do presidente da câmara em Benito Juárez concordou em preparar uma cerimónia pública para se desculpar, tal como a comissão recomendara.

No dia do evento, os pais e irmãos de Israel chegaram à câmara municipal e foram levados para uma sala sem janelas, onde mal cabiam eles e os poucos oficiais que participaram. Luz insistiu para que fossem para outro local onde pudessem recebê-los, juntamente com as dezenas de outros familiares das vítimas que os apoiaram. Perante a relutância dos responsáveis, Luz fez um ultimato: ou mudavam a cerimónia para um local onde todas as famílias pudessem participar ou a sua família não participaria também. Os responsáveis desistiram, mudando-se para uma sala maior no mesmo edifício.

O presidente da câmara chegou atrasado, parecendo irritado pela quantidade de famílias presentes. Um assessor entregou-lhe um papel, do qual leu directamente. “Apresento as minhas sinceras desculpas”, disse no final do seu curto discurso, “a todos os familiares pelos actos e omissões que possam ter sido cometidos”.

Ligações à polícia

Em Junho, não muito depois da cerimónia, visitei a família de Israel em Benito Juárez, onde nos tínhamos conhecido há quase dois anos. Apesar das desculpas oficiais, a investigação ao caso de Israel prosseguia intermitentemente. As autoridades, ao que parecia, tinham ficado sem pistas.

A família vive no fim de uma estrada suja, que atravessa as linhas impecáveis de árvores dos seus viveiros e os montes de terra e de fertilizante. A sua casa de madeira, construída pelo pai de Israel, dá para uma clareira de relva. Quando cheguei, Luz estava a polir um tacho cá fora. Convidou-me a entrar. Numa pequena prateleira por cima da cama que ainda é de Israel estava uma fotografia dele, ao lado da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe numa moldura dourada.

Quando lhe perguntamos quem pode saber o que aconteceu ao seu filho, Luz tira uma capa de plástico de debaixo de uma das camas. Abre-a e remexe em recortes de notícias de jornais e documentos oficiais sobre o caso do filho, até chegar a uma fotografia a preto e branco. O homem que nela aparece tem uma figura intimidante, com um pescoço largo e um olhar desafiador. “Este homem sabe”, diz Luz.

O homem era Fernando Lecea González, que dá pela alcunha de “El Lanchas” (O Lancha) e que dirigia o Zetas em Benito Juárez na altura em que Israel desapareceu. A primeira vez que Luz viu a sua fotografia foi em Fevereiro de 2012, quando “El Lanchas” foi preso por outras acusações. Reconheceu-o imediatamente como o agente à paisana da esquadra policial, aquele que lhe disse que Israel estava preso e que avisara Irving para ficar de boca calada.

“O chefe local dos zetas”, disse ela, olhando para a fotografia, “a trabalhar na recepção da esquadra da polícia”.
Depois de ter sido preso, “Lanchas” admitiu ter ordenado o sequestro e execução de Israel, tal como uma dezena de outras mortes, disseram os procuradores. Mas não quis dizer onde estava o corpo de Israel. Com muitos crimes imputados e sem esperança de perdão, “Lanchas” não via razões para cooperar. E por isso Luz e as outras famílias continuaram a sofrer, sem saber se a história de “Lanchas” é verdade, ou se é apenas a última de uma série de pistas falsas no caso de Israel.

Perguntei a Luz se o pedido de desculpas do presidente de câmara tinha sido importante, uma vez que Israel continuava desaparecido e os polícias envolvidos ainda estavam por punir. Respondeu que era importante para ela ter tido a oportunidade de se dirigir ao presidente à frente das famílias das outras vítimas. “Disse-lhe que deveria treinar melhor a polícia, para que mais ninguém tivesse de passar aquilo por que nós passámos.”

Luz também lhe disse que, se o polícia que deteve Israel fosse condenado, o Governo deveria colocar uma placa à entrada da esquadra policial. “A dizer que os polícias que trabalhavam ali foram condenados pelo desaparecimento de Israel Arenas Durán”, explicou Luz. “Quero que todos os polícias que entrem por aquela porta leiam essas palavras.”

Em Agosto, o agente que deteve Israel foi considerado culpado de participar no sequestro e condenado a 60 anos de prisão. (Depois de inicialmente ter admitido o crime, afirmou mais tarde ter feito uma confissão falsa sob tortura — uma alegação que o juiz considerou sem fundamento.) Foi a primeira vez na história de Nuevo León, um estado onde mais de duas mil pessoas desapareceram nos últimos anos, que um responsável oficial foi condenado por um desaparecimento. Mas ainda não foi colocada uma placa na esquadra da polícia onde ele trabalhava.
Ainda hoje não se conhece o paradeiro de Israel.

Nik Steinberg é investigador da Human Rights Watch.

Exclusivo PÚBLICO/Foreign Policy