Três anos depois, o Egipto tem um novo faraó no poder

A Praça Tahrir não deverá voltar a encher-se de gente este sábado. Os egípcios já derrubaram dois presidentes e votaram sete vezes mas a revolução está longe de terminar

Manifestação de apoio ao general Abdel Fattah al-Sissi, o homem que hoje manda no Egipto
Foto
Manifestação de apoio ao general Abdel Fattah al-Sissi, o homem que hoje manda no Egipto Mohamed Abd El Ghany/Reuters

Foi, desde sempre, a revolução de 25 de Janeiro, dia da primeira concentração na Tahrir do Cairo. Ainda é, mas a Constituição em vigor, aprovada com 97,7% dos votos – já houve três revisões desde a queda de Hosni Mubarak – deixou cair as palavras “Praça Tahrir”. Agora, o termo oficial é “Revolução 25 de Janeiro – 30 de Junho”. A nova data é a da grande manifestação contra Mohamed Morsi, o pretexto que os generais aproveitaram para derrubar o primeiro líder democraticamente eleito da história do Egipto e lançar uma perseguição sem tréguas aos islamistas.

É pouco provável que volte a haver um mar de gente este sábado na Tahrir. O Movimento 6 de Abril, jovens revolucionários laicos responsáveis por algumas das primeiras manifestações contra Mubarak, ainda pré-revolta, que tem vários dos seus líderes detidos (um já condenado por ter protestado contra uma lei que limita o direito às manifestações), chegou a marcar uma manifestação mas tem-se mantido em silêncio.

Os apoiantes da Irmandade Muçulmana, entretanto considerada uma organização terrorista, apelaram a 18 dias de protesto, tantos dias quantos os das manifestações que em 2011 levaram os militares a deixarem cair Mubarak. Mas a Irmandade dificilmente mantém capacidade para organizar uma demonstração de força. A maior parte da liderança está na prisão e centenas de membros do movimento foram mortos, a maioria quando as forças de segurança dispersaram à força uma concentração, em Julho. Os militares estão preparados. Não só deram às forças de segurança poderes renovados como marcaram eles próprios a sua manifestação, para contrariar “o plano da Irmandade para semear o caos”.

Os egípcios já votaram sete vezes desde Fevereiro de 2011. E, no entanto, nem um só político eleito está em funções. O Presidente foi deposto, o Parlamento dissolvido. Os militares, que asseguraram o poder entre a queda de Mubarak e as presidenciais do Verão de 2012, estão de volta ao leme no maior dos países árabes. Na prática, foi sempre assim: desde a independência que todos os líderes egípcios saem da hierarquia militar.

É cedo para declarar falhada a revolução egípcia, mas os que ousaram gritar contra Mubarak não o fizeram para ter militares não eleitos a mandar. A Irmandade Muçulmana teve a sua oportunidade e falhou. Cometeu erros, foi pouco inclusiva e não muito competente. Mas também pagou o preço da instabilidade e um ano no poder num período de transição não é quase nada. Agora, está de regresso à clandestinidade. Assim viveu durante Mubarak e não foi por isso que desapareceu.

“Um amigo meu tem a foto do general Abdel Fattah al-Sissi no fundo de ecrã do seu telemóvel, para se algum polícia o tentar confiscar”, contou a AFP Shaimaa Awad, islamista de uma família de membros da Irmandade. Sissi é chefe do Exército, vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa. É quem manda hoje no Egipto.

Shaimaa, que já passou alguns dias na prisão durante o Verão, instalou uma aplicação no seu smartphone para passar a mensagem se voltar a ser detida. “Para além disso, dei a pessoas diferentes as minhas palavras passe no Twitter, Facebook e Gmail: se for apanhada, eles fecham as contas todas.”

Instinto de purga
Quando os militares anunciaram a demissão de Mubarak, os egípcios nas ruas e nas praças festejaram e gritaram “uma só mão”, um “todos juntos” que se tornou numa das palavras de ordem desta revolta. Passado uns meses, jovens revolucionários e islamistas gritavam o mesmo contra os militares. Este ano, voltaram a fazê-lo, desta vez contra os islamistas. Há sempre um inimigo do povo e esse inimigo tem sido quem está no poder.

“O medo de um conflito generalizado ou de um derrube do sistema parece estar na origem de um instinto colectivo de purga: a sociedade partilha a necessidade de se desembraçar de um ou de outro dos seus componentes, percepcionado como ameaçando o todo”, interpretam num artigo recente Peter Harling, e Yasser El Shimy, do think tank International Crisis Group. Este “inimigo” é sempre visto como estrangeiro: a Irmandade foi acusada de conspirar com grupos como o Hamas palestiniano e o Hezbollah libanês e ao seu derrube seguiu-se a diabolização dos refugiados palestinianos e sírios.

É um ciclo vicioso, concluem, alimentado por “campanhas de ódio orquestradas pelos media”, que impede os egípcios de dar um sentido aos acontecimentos e os leva a saltar de angústia em angústia, de mito em mito. Ao da Irmandade, “o islão é a solução”, segue-se agora um “estranho discurso pseudo-nasserista, que pretende ressuscitar o espírito original da República fundada pelo Exército”. Como o anterior, antecipam, “não resistirá aos testes da realidade”.

A romancista egípcia Ahdaf Soueif tem outra leitura. Num artigo de opinião publicado no Guardian, concorda que o país está polarizado entre “generais, governo interino, burocracia, agentes de poder e da economia do regime de Mubarak”, por um lado, e, por outro, a Irmandade e a Aliança de Defesa da Legitimidade, grupo criado para contestar o golpe. Mas diz que “os outros” são os revolucionários que rejeitam essa polarização. “São as pessoas que os dois lados gostariam de ganhar – ou destruir. São a ‘quinta coluna’, as ‘células adormecidas’, os ‘agentes pagos por poderosos inimigos’, os ‘activistas mercenários’”.

Sissi, Mubarak, Mentuhotep II
Na narrativa dos militares, agora, sim, começou a transição. Ao referendo constitucional vão seguir-se, este ano, eleições presidenciais e legislativas e tudo vai correr bem. O país espera pelo anúncio da candidatura à presidência do general Sissi, já por várias vezes antecipada pelos media estatais.

É pouco credível que outras candidaturas fortes possam surgir. Até agora, nenhum dos muitos candidatos às presidenciais de 2012 disse o que pretende fazer; só o partido salafista (islamistas ultra-ortodoxos) anunciou que não vai apresentar candidato. Afinal, quem se opõe aos militares pode acabar preso.

Sissi tem sido comparado a Mubarak. Isso é pouco, pelo menos para Zahi Hawass, que foi ministro das Antiguidades do ditador. “Na minha opinião, Sissi é realmente Mentuhotep II”, disse ao Guardian, referindo-se ao faraó que restaurou a ordem em 2046 a.C., depois de um século de caos. “Precisamos de um responsável eleito, um homem forte, para controlar o país. E na minha opinião, esse homem é Sissi”, diz Hawass, que já foi acusado de corrupção, hoje trabalha para o Ministério do Turismo e admite voltar a ser ministro quando o governo deixar de ser temporário.

“Notícia do ano 2022: Presidente Sissi decide concorrer por uma terceira vez para estabelecer a paz e a segurança. O ex-general anuncia sucessos extraordinários na luta contra o terrorismo, depois dos militares e polícias terem capturado os netos do derrubado Presidente Mohamed Morsi.” O exercício de ficção é de Abdel Halim Abdallah, um jovem egípcio que esteve na Tahrir desde o primeiro dia e apoiou durante muito tempo o ex-chefe da Liga Árabe, Mohammed ElBaradei, que regressou ao Egipto para se opor a Mubarak e que no Verão passado defendeu a necessidade de retirar Morsi do poder.

Os analistas do International Crisis Group avisam: “A ideia de que a multiplicação de detenções de dissidentes e a organização de algumas eleições vai permitir virar a página, realizar a transição e avançar é perigosa e ilusória”. Para isso é preciso juntar “competência económica” ao “bom senso político”, algo que ainda ninguém demonstrou ter nos últimos três anos.