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2014, uma odisseia na Vuraca

A ideia preconcebida de que é duro morar numa residência é, normalmente, completamente errada. Os receios vão desde a higiene pessoal do colega de quarto até ao roubo da comida da despensa

Já dizia o poeta: «primeiro estranha-se, depois entranha-se». Não sei se Fernando Pessoa alguma vez viveu numa residência universitária, mas este chavão é o resumo mais fiel de que me lembro para resumir essa experiência. A ideia preconcebida de que é duro morar numa residência é, normalmente, completamente errada. Os receios vão desde a higiene pessoal do colega de quarto até ao roubo da comida da despensa, passando ainda pelas tarefas domésticas, o monopólio da TV ou o mau gosto musical que os outros “inquilinos” possam ter (sendo eu fã de heavy metal…). A verdade é que estes supostos problemas são uma espécie de “faca de dois legumes”, como diria Jaime Pacheco. É indubitável que estes são atritos que existem lá em casa, mas ainda mais inegável é o facto de que no final de contas nenhuma destas coisas interessa muito.

A chave são sempre as pessoas e as do segundo esquerdo são uma espécie de chave mestra. Não sei o que se passa nos outros pisos, mas na “Vuraca” — nome pelo qual é conhecido o nosso piso — sucedem-se as brincadeiras e as partidas entre moradores. É certo que o tempo passado em casa é sempre pouco (excepto em altura de exames) mas quando estamos lá somos uma família, que funciona só entre Setembro e Junho. A piada é que somos todos imensamente diferentes, mas esse rodízio de personalidades, princípios e valores acaba por se misturar quase naturalmente, sem conflitos ou quezílias.

Sendo a vinda para a universidade um período vivido com intensidade máxima, a superação de problemas é uma constante durante o ciclo académico. Viver numa residência universitária é o epítome do que é superar dificuldades em modo “expert”. Primeiro, porque são as dificuldades financeiras que nos levam para a residência. Ninguém vai morar para lá para “ver como é que é”. Depois, porque as condições são básicas. Na residência de S.António os luxos são tomar banho sem pagar água e ter o quarto sempre quentinho. Este exercício de “desenrascanço” — um termo tão português — faz da malta da residência, pessoas mais aptas a lidar com as contrariedades que o futuro está neste momento a magicar. Por último, existem regras que temos de cumprir sob pena de sermos expulsos do nosso covil, como por exemplo, a ausência de barulho entre as 23h e as 8h ou a entrada proibida de raparigas durante a noite (esta ninguém cumpre).

O resto das regras somos nós que as fazemos: jantaradas bem regadas às quintas-feiras, com ressaca incluída no menu; avisar sempre o “roommate” da presença fêmeas no espaço partilhado, para evitar momentos “susceptíveis de ferir a sensibilidade” do estimado colega de quarto; ou a regra do “roubo de comida”, que consiste em avisar o acometido e repor o “stock” furtado, assim que seja possível. O mais certo é o lesado dizer: “deixa lá” e nós… deixamos.


Sei que daqui a uns anos estarei longe da Covilhã. Talvez emigrado no Cambodja ou noutro país onde se comem coisas esquisitas. Mas também sei que a malta do segundo esquerdo será, ainda nessa altura, um daqueles episódios bem marados da série burlesca que é a minha vida. Quanto à “Vuraca”, comigo ou sem mim, será sempre a “Vuraca”…