Tornados e granizo em Portugal? Conheça a supercélula

Sistemas meteorológicos que causaram estragos em Paredes e pintaram Lisboa de branco este mês são difíceis de prever em detalhe.

O tornado de Paredes e o granizo que caiu na região de Lisboa em Janeiro surpreenderam toda a gente e com razão: foram causados por sistemas meteorológicos cuja formação, localização e efeitos são praticamente impossíveis de prever com grande detalhe.

São as chamadas supercélulas, mães de tempestades fortes, tornados e saraivadas. À vista do cidadão comum, são enormes e assustadoras nuvens. Para os especialistas, são muito mais do que uma simples tempestade, constituindo sistemas complexos, dotados de circulações características do ar, que sobe e desce com grande rapidez. Normalmente têm vários quilómetros de comprimento e estendem-se por toda a troposfera — a camada mais baixa da atmosfera, que vai até aos 10.000 metros de altitude.

Animações disponibilizadas esta semana pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) mostram claramente o percurso das supercélulas que causaram os dois episódios de Janeiro. No caso de Paredes, que ocorreu dia 4, o IPMA cruzou a informação meteorológica com os relatos não só dos estragos causados pelo tornado, como da queda de granizo e saraiva ao longo do percurso da supercélula. O sistema manteve-se por cerca de três horas e o seu caminho, detectado através do radar meteorológico de Coruche, coincide com a localização dos relatos.

O granizo na região de Lisboa, dia 17 de Janeiro, teve origem num sistema semelhante. Uma supercélula formou-se cerca de 60 quilómetros a oeste da cidade. Em terra firme, produziu o que se prevê nestes casos. A forte circulação de ar ascendente leva gotículas de água de baixo para cima num curto espaço de tempo. A diferença de temperatura entre ambos os pontos é muito grande e a água congela rapidamente sob a forma de granizo (pedras com até meio centímetro de diâmetro) ou saraiva (pedras maiores). A diferença em relação à neve é que esta forma-se em sistemas onde o ar sobe mais lentamente, o que faz com que o gelo cristalize de outro modo.

As imagens do IPMA confirmam a experiência que os lisboetas viveram. Alguns pontos da cidade e dos concelhos vizinhos ficaram cobertos de branco: primeiro a Parede, entre as 7h30 e 7h45, depois a zona de Carnaxide e Benfica, cerca de 20 minutos mais tarde, e outras partes de Lisboa ainda passados mais alguns minutos.

O que contribuiu para deixar tudo branco foi a velocidade com que a supercélula passou sobre a região. “Em Lisboa progrediu muito lentamente e acabou por dar origem a quedas de granizo que duraram dez a 15 minutos”, afirma o meteorologista Nuno Moreira, do IPMA.

A formação de supercélulas não é tão comum em Portugal como, por exemplo, nalgumas zonas dos Estados Unidos, onde se registam em média cerca de 1200 tornados por ano. Mas não é extraordinária. O que é difícil é prever onde, como e quando vão ocorrer. “Com um dia de antecipação, o que é possível é identificar as condições para a sua formação”, explica Nuno Moreira.

No dia 16 de Janeiro, todo o território continental do país estava sob aviso amarelo de chuva — o segundo menos grave na escala utilizada pelo IPMA. Mas à 1h do dia 17, alguns distritos, inclusive Lisboa, foram colocados sob aviso laranja, com previsão de ventos e chuva fortes, e também queda de granizo.

A previsão cumpriu-se e com uma aleatoriedade própria à escala local. A supercélula atravessou a região de Lisboa, mas o granizo só caiu sobre algumas zonas, com mais ou menos força. No caso de uma supercélula, diz Nuno Moreira, “não é possível saber qual vai ser o tipo de severidade quer vamos ter”.

O acompanhamento mais próximo que o IPMA faz é através dos radares meteorológicos, que emitem um sinal e, pelo reflexo que recebem de volta, permitem avaliar a quantidade de água ou de gelo num sistema que se aproxima. Mas não possibilitam muito mais do que uma hora de avanço. “O radar é mais uma ferramenta de observação”, refere Moreira.

Os episódios que ocorreram este mês são diferentes do mau tempo que assolou Portugal há exactamente um ano, no dia 19 de Janeiro de 2013. O vento soprou forte em praticamente todo o país, chegando aos 140 quilómetros por hora no Cabo Carvoeiro e no Cabo Raso. As ondas ergueram-se aos 19,4 metros na Nazaré.

Neste caso, tratou-se de uma tempestade formada rapidamente, num processo em que a pressão atmosférica sofre uma queda acentuada num curto espaço de tempo. Os meteorologistas dão a este fenómeno um nome assustador: ciclogénese explosiva. Os norte-americanos chamam-lhe “bomba meteorológica”.