Miguel Sousa Tavares abandonou grupo Leya, que não considera "vocacionado para a edição de livros"

"A Leya matou a identidade das editoras" que agregou, diz um dos best-sellers literários do país, cujo nome se junta ao de Saramago, João Tordo e outros autores prestigiados que abandonaram o grupo.

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Foi já há dois meses que o escritor Miguel Sousa Tavares abandonou o grupo editorial Leya. No entanto, só esta quinta-feira o autor confirmou ao PÚBLICO a sua saída, um dia depois de se tornar pública a quebra de contrato do mesmo grupo com as herdeiras do Nobel José Saramago. Sousa Tavares fala de “descontentamento” quanto ao trabalho do grupo. Na sua opinião, este “matou a identidade das editoras” que agregou desde a sua fundação, em 2008. “Não creio que o grupo Leya esteja vocacionado para a edição de livros.” Também há dois meses, João Tordo começou a ponderar a sua saída da Leya, que confirmou esta quinta-feira ao PÚBLICO.

Sousa Tavares, um dos autores que mais livros vende em Portugal, diz achar que "a Leya partiu do princípio que juntando várias editoras faziam sinergias e conseguiam fazer melhor, mas isto não é como juntar as salsichas Nobre com as salsichas Aveirense”.

O último romance do escritor, Madrugada Suja, já foi editado em 2013 pelo Clube do Autor, a pequena editora de que é sócio com Margarida Rebelo Pinto e que foi criada em 2010 por vários ex-membros da Oficina do Livro, a chancela que o editava na Leya, após ter sido comprada pelo grupo. O Clube do Autor reeditou, aliás, Equador. Sousa Tavares “não tinha contrato global com a Leya, tinha contrato livro a livro e feito só quando os livros saíam”, explicou. “Não nos entendemos e resolvi acabar [a relação com o grupo]. À medida que os livros vão acabando o prazo de cada contrato, eu saio”, pormenoriza, explicando que foi o que permitiu a reedição de Equador no Clube do Autor.

Também no ano passado o catálogo da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen, mãe de Sousa Tavares, saíra da Leya para o outro grande grupo português, a Porto Editora. Aquando do lançamento de Madrugada Suja, em Maio,o autor disse ao PÚBLICO que iria publicar na Leya o livro em que está ainda a trabalhar e que a sua relação contratual com o grupo se mantinha. Agora, a edição do próximo romance de Sousa Tavares, em fase de pesquisa, está de novo no mercado, mas o escritor só pensará no seu destino quando o completar.

“Sempre funcionei com um livro à vista”, explica. “Nunca aceitei propostas para ficar avençado e publicar um romance todos os anos, como não aceitei a última proposta da Leya que foi pagar-me à cabeça um adiantamento muito substancial por conta do meu eventual e futuro romance.” A Leya foi contactada ao final da tarde pelo PÚBLICO, que aguarda uma reacção do grupo.

Neste momento, Sousa Tavares, que aponta também como motivação para a saída “um desentendimento a nível do que [considera] dever ser uma relação de cavalheiros”, terá oito ou nove obras ainda sob contrato com a Leya. “Mas provavelmente chegaremos a acordo para eu sair [com] tudo de uma vez”, acredita. Dois dos seus livros infantis já estão novamente nas suas mãos, mas ainda em fase de definição de destino editorial.

Descontente com a falta de sensibilidade do grupo para as especificidades da actividade editorial e do cultivo da relação com os escritores, Sousa Tavares diz ainda que a edição das suas obras no Brasil se deveu ao seu próprio esforço. "Quando compraram a Oficina do Livro, falaram de coisas fantásticas que iam fazer e nunca aconteceram, como o agenciamento no estrangeiro, no mercado angolano ou brasileiro.”

O grupo Leya, que em 2007 afirmou querer ser “o maior grupo de língua portuguesa”, perdeu nos últimos anos alguns dos seus autores de expressão portuguesa de maior prestígio – Saramago e Sophia juntaram-se a Mário de Carvalho (que deixou a Caminho, da Leya, em 2012 rumo à Porto Editora), José Eduardo Agualusa (desde o início de 2013 na Quetzal, do grupo Porto Editora), Richard Zimler (na Porto Editora desde 2013), Pedro Rosa Mendes (transferiu-se para a Tinta da China em 2012), Almeida Faria (que chegou a ser editado pela Leya e cujas reedições passaram para a Assírio & Alvim, também parte da Porto Editora, em 2013) e, agora, João Tordo.

Este último, vencedor do Prémio José Saramago em 2009, disse ao PÚBLICO que não há problemas com a Leya na origem da sua decisão de publicar o seu próximo romance numa editora cujo nome ainda não quis revelar. “Nada de quezílias, nem incumprimentos; nem motivos financeiros”, disse Tordo, satisfeito com o “óptimo trabalho de divulgação e venda” da sua obra.

Na próxima semana, a Fundação José Saramago anunciará quem acolherá e distribuirá a obra do Nobel português

no futuro, estando em cima da mesa a possibilidade de ser a própria fundação a assumir a tarefa. Ainda assim, no sector fala-se da possibilidade de ser também a Porto Editora, uma das mais bem posicionadas para suceder à Leya ou, pelo menos, para assegurar a distribuição de um catálogo com o peso do de Saramago. Contactada pelo PÚBLICO, a Porto Editora não fez comentários.

Miguel Sousa Tavares estreou-se no romance com Equador em 2003, seguindo-se Rio das Flores (2007) e No Teu Deserto (2009). É também autor das crónicas e contos de Não Te Deixarei Morrer, David Crockett (2001) e dos relatos de viagens Ukuhamba – Manhã de África (2010), co-assinado com o seu filho, Martim Sousa Tavares, e Sul (2004,) mas também do livro Cozinha d'Amigos (2011) e dos livros infantis Ismael e Chopin (2010, com ilustração de Fernanda Fragateiro), O Planeta Branco (2005, ilustrações de Rui Sousa), ambos recomendados no Plano Nacional de Leitura, e ainda O Segredo do Rio (2004). Além destes títulos, editados pela Oficina do Livro, Sousa Tavares publicou também o livro de reportagem Sahara, A República da Areia (1985) e a colecção de crónicas Anos Perdidos (2001).