Elite política da China oculta milhões em paraísos fiscais

Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação revela que pelo menos 13 parentes de dirigentes máximos do regime guardam o seu dinheiro nas Ilhas Virgens britânicas.

Nas últimas décadas um pequena elite ligada ao PC chinês acomulou fortunas desmesuradas
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Nas últimas décadas um pequena elite ligada ao PC chinês acumulou fortunas desmesuradas Mark RALSTON/AFP

Na China há uma “nobreza de ouro” que enriqueceu graças aos cargos políticos que ocupou e à corrupção. Familiares de pelo menos cinco dirigentes comunistas (actuais ou passados e entre eles do Presidente Xi Jinping) foram esta quarta-feira acusados de terem reunido grandes fortunas e de terem ocultado parte delas em contas offshore, nas Ilhas Virgem britânicas.

As revelações estão contidas nos dados obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, que juntou 2,5 milhões de documentos sobre cerca de 22 mil clientes de offshores com moradas na China continental e em Hong Kong e 16 mil em Taiwan. Desse grupo, há pelo menos 13 famílias de líderes chineses.

“A China tornou-se no maior mercado para os paraísos fiscais”, diz o relatório do Consórcio, que passou as suas conclusões e muitos dados a um grupo de jornais que esta quarta-feira fizeram manchete com a notícia — El País, Le Monde, The Guardian, Süddeutsche Zeitung e o japonês Asahi Shimbun. “Todos os sectores da economia chinesa, do petróleo à energia renovável, da mineração ao comércio de armas, surgem na documentação”.

Quarta-feira é dia de conferência de imprensa no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Pequim e os jornalistas questionaram o porta-voz, Qin Gang, que desvalorizou a notícia: “Do ponto de vista do leitor este artigo não é pertinente. O que nos faz questionar se não terá outros motivos”. Sobre a presença do nome de Xi Jinping nos documentos, Qin disse que o Presidente “é inocente”. Se não fosse, se houvesse qualquer ilegalidade no seu comportamento, explicou o porta-voz, isso já teria sido descoberto.

As contas em paraísos fiscais não preconizam um crime por si só. E fontes do Governo chinês ouvidas pelo El País — depois de um contacto oficial sem resposta — explicam isso mesmo, que não há ilegalidade e que não se tratam de empresas ou contas dos líderes, mas de familiares seus. Mas o relatório diz que há provas que permitem concluir que “muitos chineses e empresas usaram entidades offshore para se envolverem em comportamentos ilícitos ou ilegais”.

A guerra de Xi
Estes dados surgem num momento crucial do debate em curso na China sobre o combate à corrupção no aparelho comunista e o regresso à ética. Xi Jinping apresentou-se como o grande paladino dessa guerra e as revelações de que a sua família acumulou uma grande fortuna enquanto foi vice-presidente (2008-13) mancham a sua reputação e levantam dúvidas sobre o tratamento igual que prometeu para os infractores.

Compromete também a credibilidade da sua grande proposta social — a construção de uma nova China com mais igualdade e ancorada numa classe média sólida. Uma parcela significativa dos chineses saiu na última década da pobreza, mas a China tornou-se no mesmo período de tempo num dos países com maior desigualdade do mundo. “Através da evasão fiscal os ricos estão a ficar cada vez mais ricos e a classe média, a classe trabalhadora, é que sofre os efeitos”, disse Clark Gascoigne, do Think Tank Global Financial Integrity.

Em dez anos, o número de multimilionários chineses passou de zero para 315 e destes 135 são membros da Assembleia Nacional — 20 membros desta assembleia tinham, em 2012, um património avaliado em 62.200 milhões de dólares, 46 vezes mais do que os 20 congressistas americanos mais ricos, segundo um centro de informação de Washington citado pelo El País.

Para agravar o embaraço de Xi Jinping, as revelações coincidem com o início do julgamento, em Pequim, de Xu Zhiyong, o fundador do Movimento dos Novos Cidadãos, grupo que denunciava precisamente crimes de corrupção e esquemas de enriquecimento dentro do aparelho do partido único chinês. Xu foi acusado de “incitamento à perturbação da ordem pública” e pode ser condenado a uma pena de prisão.

Investigações anteriores do jornal The New York Times e da Bloomberg já tinham começado a desvendar a teia de ligações de familiares de Xi Jinping e Wen Jiabao (antigo primeiro-ministro) a empresas com negócios obscuros e milionários em paraísos fiscais. Num texto chamado “O parente de ouro”, o El País explica que o cunhado de Xi, Deng Jiagui, se tornou um magnata do imobiliário em Hong Kong. Se a principal empresa do cunhado registada nas Ilhas Virgens britânicas foi criada quando Xi ainda era vice-presidente, a de imobiliário apareceu nas vésperas de Xi Jinping ser nomeado Presidente, em Março do ano passado.

Um fenómeno em crescimento
Analistas ouvidos pelo diário independente de Hong Kong South China Morning Post tentaram explicar o fenómeno das offshores do ponto de vista económico. Dali Yang, da Universidade de Chicago (EUA), disse que a fuga do capital que foi parar às mãos das famílias politicamente influentes se pode dever ao receio de que a economia não seja sustentável e que possa haver uma erosão (desvalorização) dos bens. “A guerra contra a corrupção que está em curso na China também pode ter acelerado este fenómeno”, disse Dali.

Do ponto de vista dos negócios, explicam outros, o offshore apareceu como recurso para pagar menos impostos na China: as empresas com sede no estrangeiro são vistas pela China como estrangeiras e, por isso, beneficiam de grandes benefícios fiscais. A mulher mais rica da China, Yang Huiyan, o homem mais rico do mundo, Pony Ma Huateng, e o empresário do ramo imobiliário Zhang Xin têm todos registos em paraísos fiscais. Assim como Li Xiaolin (filha de Li Peng, o primeiro-ministro da repressão em Tiananmen), que é conhecida por "Rainha da Energia" e é uma das empresárias mais influentes no mundo; Wu Jianchang (neto de Deng Xiaoping, o Presidente que encerrou o capítulo da planificação da economia e começou a caminhar para o sistema de mercado); e os Wang (os três filhos do general Wang Zhen, vice-presidente entre 1988 e 1993).

Não se sabe quem passou os documentos que revelam como são ricas as famílias dos homens mais importantes do aparelho comunista chinês. O site do Consórcio de Jornalistas ficou esta quarta-feira inacessível na China, assim como as edições online dos jornais que divulgaram o trabalho de investigação.