Regime sírio usa "armas cada vez mais mortíferas"

Relatório da Human Rights Watch destaca a Síria, país onde se assistiram "a inúmeras atrocidades" ao longo do último ano.

Alepo é uma das cidades ontem têm sido usadas bombas de fragmentação e incendiárias
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Alepo é uma das cidades ontem têm sido usadas bombas de fragmentação e incendiárias Hosam Katan/Reuters

O conflito sírio não parou de piorar ao longo de 2013, “à medida que o Governo intensificou os seus ataques e começou a usar armas cada vez mais mortíferas e indiscriminadas, culminando no ataque químico contra os subúrbios rurais de Damasco, a 21 de Agosto”, escreve a Human Rights Watch no seu relatório anual, divulgado esta terça-feira.

A Síria "testemunhou inúmeras atrocidades" e é um dos países em destaque pelos piores motivos neste relatório. Para além do sarin, o regime de Bashar al-Assad “continuou a usar bombas de fragmentação” e a ONG identificou 152 locais onde as forças do Governo usaram pelo menos 204 destas munições. As Forças Armadas de Assad usaram ainda bombas incendiárias, com substâncias inflamáveis que provocam queimaduras e morte, em áreas residenciais “em dezenas de situações, incluindo o recreio de uma escola em Qusayr”, na região de Homs.

O mesmo aconteceu com o recurso a mísseis balísticos: a ONG investigou nove ataques com este tipo de mísseis ao longo do ano nos quais morreram pelo menos 215 pessoas, incluindo 100 crianças. Em sete dos nove ataques, a Human Rights Watch não encontrou sinais de alvos militares nas imediações e nenhum alvo militar foi atingido em qualquer dos ataques.

A ONG investigou várias operações militares em que “o Governo ou milícias pró-Governo levaram a cabo assassínios em massa”. Acontece em Bayda e Banyas, na região de Tartus, por exemplo, em Maio; pelo menos 248 pessoas, incluindo 45 mulheres e 43 crianças “foram sumariamente executadas”.

Ataques indiscriminados contra civis, execuções, raptos e tortura também foram realizados por grupos que combatem o regime, nomeadamente grupos formados por combatentes estrangeiros. Nada de comparável, apesar disso, com “as milhares de pessoas sujeitas a prisões arbitrárias, detenções ilegais e desaparecimentos forçados, maus-tratos e tortura na rede de centros de detenção” que o regime tem espalhados pela Síria, escreve a ONG.

Os sírios falam desde 2011 de dezenas de milhares de desaparecidos. A ONU confirmou em Dezembro que “os desaparecimentos forçados cometidos pelo Governo no quadro de vastos e sistemáticos ataques contra a população constituem um crime contra a humanidade”. Um novo relatório, encomendado pelo Qatar a peritos em tribunais de guerra britânicos mostra que 11 mil destes desaparecidos foram executados nas prisões da Síria.

Mesmo com falta de jornalistas e de observadores neutrais autorizados a moverem-se no país, nunca faltou informação, faltou foi sempre informação verificada. Como esta que três experientes procuradores dizem ter analisado. O relatório que escreveram fala de “provas directas” de “assassínio e tortura sistemática” por parte do regime e baseia-se na análise de milhares de fotografias de corpos de detidos e de entrevistas com o homem que as tirou, um polícia militar que desertou.

Os corpos “que ele fotografou mostram sinais de fome [detidos esqueléticos], espancamentos brutais, estrangulamentos e outras formas de tortura”, lê-se no relatório. Os procuradores e peritos forenses analisaram e autenticaram 50 mil imagens digitais que estimam corresponderem a cerca de “11 mil pessoas torturadas e mortas por agentes do actual regime sírio desde o início da revolta contra Assad, em 2011”, a esmagadora maioria homens entre os 20 e os 40 anos.