Opinião

Cultura. Automóveis. E números

O vazio que se sente não voltará a ser ocupado com o frenesi do consumo, mas pelo primado à cultura, ao ensino, ao estímulo pelas práticas artísticas, ao enriquecimento interior.

Há uma semana foi divulgado um relatório em França, resultante do esforço entre os Ministérios da Cultura e da Economia, que conclui que a cultura contribui cerca de 3,2% para o PIB francês

O valor acrescentado do sector é de 57, 8 mil milhões de euros por ano, o que o aproxima da agricultura e indústrias alimentares (60, 4 mil milhões de euros), sendo largamente superior às telecomunicações (25, 5 mil milhões) e sete vezes mais em relação à indústria automóvel (8, 6 mil milhões). O investimento do Estado é da ordem dos 21, 1 mil milhões de euros anuais, sendo o audiovisual o sector que capta mais financiamento – 5, 5 mil milhões.

Já em Novembro a France Créative (plataforma que aglutina distintas empresas culturais), num estudo da Ernst & Young, chegou a conclusões similares, mostrando que a cultura gera mais riqueza que os automóveis, e empregando 1, 2 milhões de pessoas.

Apesar do primeiro relatório ser apresentado pela imprensa gaulesa como inédito – pelo facto de ter unido os dois ministérios – a verdade é que inúmeros estudos de carácter semelhante têm sido produzidos há mais de uma década nos mais diversos países, gerando reacções muito semelhantes às produzidas em França.

Normalmente o grande público reage com surpresa, habituado a olhar o sector cultural como fazendo parte do problema, ou seja da despesa, e não como contribuindo para o leque de soluções.

Por sua vez os sectores afectos às Indústrias Culturais e Criativas regozijam-se, aproveitando o momento para reafirmar o valor económico da cultura, enaltecendo o impacto global do sector e esgrimindo os números como prova irrefutável da sua razão.

Já os sectores tradicionais da cultura reagem com desconfiança. Mostram reticências quanto à correlação entre cultura e produtividade económica. Põem em causa a definição amplificada de actividades culturais (em França o estudo levou em conta o valor acrescentado das artes do espectáculo, património, artes visuais, imprensa, livros, audiovisual, publicidade, arquitectura, cinema ou música, bem como o acesso ao conhecimento e cultura, ou seja, bibliotecas ou arquivos). E receiam que estes relatórios em vez de propiciarem maior investimento das tutelas, produzam o efeito contrário: ou seja, mais cortes orçamentais. 

O poder político reage conforme o vento eleitoral. Nos últimos anos, especialmente depois do irromper da crise financeira global, a instrumentalização à volta das Indústrias Culturais e Criativas (o que não significa a sua aplicação reflectida, estruturada e profunda) é evidente. Até na utilização de expressões como “empreendedor” ou “inovação” se sente esse esvaziamento de contéudos.

Não porque o seu significado intrínseco se tenha perdido. É óptimo ser empreendedor, principalmente se for estabelecido um vínculo entre potencial individual e progresso social, mas o problema é o paradoxo ideológico que se vai produzindo, tentando fazer-nos acreditar que qualquer um é capaz de ser bem-sucedido por si próprio, o que resulta numa forma de demissão política. A mensagem é: se não conseguir vingar a culpa é exclusivamente sua e não existe política capaz de a reparar.

Como é evidente existe quem vislumbre neste tipo de posicionamento uma ameaça, principalmente em contextos – como o português – onde a cultura é sempre vista como matéria de pouca relevância face a problemas estruturais, como se confirma pelo orçamento para lá de exíguo do sector.

Não vale a pena romantizar: a produção cultural tem características específicas e existem áreas que dificilmente alguma vez gerarão receitas, só podendo sobreviver se as tutelas não se demitirem das suas responsabilidades de financiamento. Mas não é menos certo que outras existem que detêm valor económico.

A cultura não deve ser reduzida a números. Não tem que existir uma justificação instrumental que a legitime. Sem cultura não há PIB que nos valha, porque tudo teve que ser ensinado, aprendido ou inventado. A cultura é fonte de sociabilização, alimenta o sentimento de pertença, é essencial para reinventarmos o mundo confuso de hoje. O vazio que se sente não voltará a ser ocupado com o frenesi do consumo, mas pelo primado à cultura, ao ensino, ao estímulo pelas práticas artísticas, ao enriquecimento interior.

Mas também não é menos certo que continuar a pensar a cultura a partir de noções restritas, ainda marcadamente ideológicas, como se constituísse um microcosmos assente em velhas dicotomias (elite vs. massa, arte vs. entretenimento, alta cultura vs. baixa ou cultura vs. economia) é desfasado da realidade. O tecido cultural é cada vez menos institucional, pulverizado, informal, território complexo e imenso de pequenas manifestações que passam ao lado das lógicas mais clássicas.

Não se percebe quem demoniza as Indústrias Culturais e Criativas, discutindo apenas a forma e não as práticas. Da mesma maneira que não se entende quem consome percentagens como se fossem ansiolíticos. Os números são o que são. Meros indicadores.

Importante é olhar para as actividades culturais, independentemente de serem promovidas pelo Estado, pelo mercado, ou por outras formas, mescla de tecido público e privado, que em nenhum momento supõe a renúncia do Estado na gestão da cultura e educação. Em alguns casos faz sentido que seja o mercado a fazer provisão de actividades, noutras tem que ser o Estado. O ideal é a multiplicidade de hipóteses, existirem lógicas adaptadas e formas de governação específicas, em torno de uma visão de cultura minimamente consensual e partilhada.

De contrário, por mais números que se exibam, ou considerações filosóficas sobre a sua importância que se exponham, a cultura continuará a ser olhada como um problema e os automóveis como sendo a solução, mesmo contra todas as evidências.