Balões no céu e flores no mar do Meco em homenagem aos seis estudantes que morreram

Os pais dos seis jovens que morreram na praia do Moinho de Baixo, no Meco, vão aguardar que o único sobrevivente da tragédia seja ouvido para decidir futuras acções. Mas prometem não ficar “de braços cruzados” enquanto o mistério não for resolvido.

Fotogaleria
Enric Vives-Rubio
Fotogaleria
Enric Vives-Rubio
Fotogaleria
Enric Vives-Rubio
Fotogaleria
Enric Vives-Rubio
Fotogaleria
Enric Vives-Rubio (arquivo)

O céu da praia do Meco, que estava carregado de nuvens espessas e escuras, encheu-se neste sábado à tarde de balões, numa homenagem aos jovens que, em Dezembro do ano passado, foram colhidos por uma onda. Seis minutos de silêncio por cada uma das vítimas, palavras comovidas de quem os conheceu de perto e flores deixadas na espuma do mar foram outros momentos que pontuaram a cerimónia.

Centenas de pessoas marcaram presença. Familiares, amigos, colegas vestidos com trajes académicos. Houve uma missa na parte mais elevada do areal  e não lá em baixo, junto ao mar  e foi aí que se entoaram cânticos e ouviram as tunas da Universidade Lusófona, instituição onde os jovens estudavam. Fizeram-se seis minutos de silêncio e largaram-se balões.

Apesar de antes do início da cerimónia ter chovido, ninguém arredou pé. Se depois a chuva acabaria por dar tréguas, o frio não. Mesmo assim, e apesar do vento gelado, familiares e amigos foram, acompanhados pela Polícia Marítima, depositar flores no areal molhado, junto ao mar.

A cerimónia foi organizada pela Câmara Municipal de Sesimbra, pelos familiares e ainda pela Universidade Lusófona. O ambiente era de pesar e, mesmo sem insistência de perguntas, o simples rodopio das máquinas fotográficas e dos tripés dos jornalistas causou, por vezes, alguma tensão.

Apesar de as palavras de conforto que dirigiu aos familiares, o vigário que celebrou a missa, começou por dizer que continuam a existir “muitas inquietações, à volta deste acidente doloroso, que importa desvendar”. Até agora, o único sobrevivente do acidente, João Gouveia, ainda não revelou o que se terá passado naquela madrugada.

Relato do sobrevivente
Antes da cerimónia, os pais dos seis jovens reuniram-se apressadamente e decidiram não prestar mais declarações até que João Gouveia seja ouvido pela Polícia Marítima de Setúbal, a quem o Ministério Público (MP) delegou a audição. Só depois desse relato, que deverá acontecer em breve, é que dizem se, entre outras acções, avançarão ou não com uma queixa-crime, ressalvaram ao PÚBLICO os familiares de Pedro Tito Negrão e Joana Barroso, dois dos estudantes que morreram. Fátima Negrão, mãe de Pedro Tito Negrão, escusou-se a responder a mais perguntas, garantindo apenas que não vão “ficar de braços cruzados”.

Já Carla Rocheta, prima de Joana Barroso, disse aos jornalistas, no fim da cerimónia, que os familiares das vítimas vão constituir-se assistentes no processo de inquérito que está a correr no MP do Tribunal de Sesimbra. “Quando há mortes é sempre aberto um inquérito, independentemente da vontade dos pais. Alguns pais já se constituíram como assistentes, outros ainda não. Mas vão fazê-lo.”

Querem respostas: “Gostaríamos que houvesse uma comunicação da parte do sobrevivente, no sentido de sabermos exactamente o que se passou naquela noite porque, até agora, nós não sabemos de nada”, disse Carla Rocheta. “Compreendo que ele possa estar psicologicamente afectado, mas gostaríamos que ele, através de um psicólogo, de um advogado, ou através da comunicação social, ou de qualquer forma em que se sentisse mais confortável, viesse dizer alguma coisa às famílias, para, de certa forma, atenuar a dor e poderem perceber o que se passou naquela noite”, acrescentou.

Até agora, os familiares sabem que os jovens estavam na praia do Moinho de Baixo, no Meco, na madrugada de 15 de Dezembro. Mas porquê? Que percorreram a pé sete quilómetros, entre a casa que arrendaram para passar o fim-de-semana, e a praia. Que iam trajados e que todos pertenciam à Comissão Oficial de Praxe Académica, da Universidade Lusófona. João Gouveia era o dux, a figura com mais poder na hierarquia da praxe académica.

Mas os pais querem saber mais. Entre outras interrogações, querem saber por que não terão os jovens levado o telemóvel para a praia, nem pijamas para a casa. Querem saber que praxe foram fazer e o que diz o Código da Praxe. Não querem especular, querem saber. Resolver o mistério.