Miguel Vidal/Reuters
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Megafone

Não estás a pensar o que estás a pensar

É verdade, e talvez sempre o tenha sido, mas a originalidade não está na apropriação, mas no questionamento, subversão, recombinação, revisão daquilo que se recebe, em busca de novas formas de olhar o que já existe

Shia LaBeouf anunciou que vai abandonar vida pública. O actor norte-americano foi acusado de ter copiado, na sua curta-metragem "Howard Cantour", o enredo, cenas e texto da banda desenhada "Justin M. Damiano", de Daniel Clowes. Descobriu-se depois que o projecto do seu novo filme, "Daniel Boring", copiava outra BD de Clowes, "David Boring", que as bandas desenhadas de LaBeouf copiavam passagens do poeta norte-americano Charles Bukowski e do romancista francês Benoît Duteutre, e que uma carta aberta sua a Alex Baldwin copiava um artigo publicado na revista "Esquire". Os pedidos de desculpas que apresentou no seguimento do escândalo foram copiados de Kanye West, Tiger Woods e Robert McNamara e as suas justificações para o seu comportamento foram tiradas do site Yahoo Answers, tendo ficado muitos a perguntar-se se o conhecido actor de "Transformers" alguma vez teria tido uma única ideia original na cabeça.

Platão teve a mesma dúvida em "Fedro", ao perguntar-se se os nossos pensamentos são mesmo nossos e íntimos, ou se são recebidos de outros lugares, como bilhas a receber água de muitas fontes, ou vírus a passar subrepticiamente de corpo em corpo. E em nenhuma actividade tal dúvida é tão dolorosa como na criatividade artística, em que um criador tem de duvidar sempre se as suas ideias geniais são mesmo suas, ou lembranças vagas de algo que já conheceu. Passou-se isso com Helen Keller, que aos 12 anos, invisual, surda e com um domínio muito recente da linguagem, foi acusada de ter plagiado uma história de outra autora. Ou com um amigo meu de infância, que trauteava uma música do compositor Serguei Prokofiev, apesar de não conhecer Prokofiev, não gostar de música clássica e julgar que estava a improvisar. E o YouTube é uma torrente de acusações de que muitas músicas de sucesso são apenas roubos ou inspirações de outras músicas: que Robin Thicke copiou Marvin Gaye, os Metallica copiaram os Excel, os Radiohead copiaram os The Hollies, Madonna copiou os Public Enemy, os Led Zeppelin copiaram os Spirit, os Beatles copiaram Chuck Berry e Bobby Parker...

Shia LaBeouf, copiando uma afirmação do poeta Kenneth Goldsmith, justificou-se afirmando que hoje a originalidade já não era um génio isolado do mundo, mas alguém a apropriar-se do que estava à sua volta. É verdade, e talvez sempre o tenha sido, mas a originalidade não está na apropriação, mas no questionamento, subversão, recombinação, revisão daquilo que se recebe, em busca de novas formas de olhar o que já existe. E essa foi a parte que o actor de "Ninfomaníaca" parece não ter entendido: que a originalidade não é uma questão de inspiração, é uma questão de método e de muita transpiração. Infelizmente, tenho a forte suspeita de que não fui eu que pensei este último pensamento.

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