ONU pede milhões para travar atraso de 35 anos que a guerra já provocou na Síria

Ban Ki-moon estima que metade da população esteja na pobreza e apela à generosidade internacional para assistência humanitária.

Em Aleppo, à procura de comida no lixo
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Em Alepo, à procura de comida no lixo MOHAMMED WESAM/AFP

Estimando que pelo menos metade da população da Síria esteja, neste momento, a precisar de ajuda urgente, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas apelou à comunidade internacional para reforçar a sua contribuição financeira para os programas que apoiam as vítimas civis daquela guerra civil.

Na abertura de uma conferência de doadores patrocinada pela ONU, no Kuwait, Ban Ki-moon estabeleceu como objectivo a recolha de 6,5 mil milhões de dólares (4,75 mil milhões de euros) para o socorro da população síria. Trata-se do maior apelo de sempre feito pelas agências das Nações Unidas, organização que se tornou o último recurso para a sobrevivência de mais de 13 milhões de pessoas.

A gravidade da situação humanitária na Síria ficou patente nas palavras do secretário-geral, que apresentou estudos da organização que projectam um recuo de 35 anos no desenvolvimento humano do país em função da guerra. As necessidades são prementes. “Cerca de 9,3 milhões de indivíduos na Síria necessitam de ajuda humanitária urgente”: água, rações alimentares, medicamentos, roupas e abrigo. Essas são também as necessidades mais imediatas dos 2,3 milhões de refugiados que estão instalados em campos dirigidos pela ONU em vários países vizinhos: a organização estima que o número de deslocados venha a crescer para mais de quatro milhões durante 2014.

No fim-de-semana, antes de chegar ao Kuwait, a vice-secretária-geral das Nações Unidas para as questões humanitárias, Valerie Amos, esteve em Damasco para contactos directos com responsáveis do regime do Presidente Bashar al-Assad, que tem sido acusado de manter uma “campanha” paralela às ofensivas militares para matar os seus opositores à fome. Amos censurou os dois lados do conflito pelos cercos de meses consecutivos a que estão a sujeitos os residentes de diversos bairros urbanos, incluindo da capital.

As Nações Unidas e o Observatório Sírio para os Direitos Humanos destacaram a situação especialmente catastrófica que se vive no campo de refugiados palestinianos de Yarmuk, no Sul de Damasco, onde nos últimos três meses mais de 40 pessoas morreram de fome. Uma caravana de seis veículos da agência humanitária da ONU que levava comida, vacinas e outros mantimentos para Yarmuk foi impedida esta quarta-feira pelo Exército sírio de chegar ao local. Os automóveis foram desviados para uma estrada que atravessa áreas de intenso combate de forças jihadistas, e forçados a voltar para trás por causa do intenso tiroteio.

Em resposta ao apelo da ONU, o xeque do Kuwait, Sabah Al-Ahmad Al-Sabah – anfitrião da conferência –, comprometeu-se com a doação de 500 milhões de dólares “em fundos públicos e privados” e apelou à generosidade dos restantes participantes no encontro: “O nosso objectivo é salvar crianças, mulheres e a juventude da Síria.” O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, disse que o seu país estava preparado para “desbloquear” uma parcela adicional de 380 milhões de dólares à ajuda humanitária dos EUA à Síria, cujo total em três anos ascenderá a 1,7 mil milhões de dólares.

Em 2013, a ONU apenas conseguiu obter 1,5 mil milhões de dólares para o apoio à população afectada pelo conflito na Síria (e desse montante existe ainda uma parcela de 20% que não foi paga). Mais de 60 países, dos Estados árabes à Europa e América, participam na conferência no Kuwait, e no primeiro dia do encontro já tinham sido disponibilizados 2,4 mil milhões de dólares. “É vital para esta região e para o mundo que esta tarefa seja partilhada”, sublinhou Ban Ki-moon, que, porém, reconheceu: “Nem nas melhores circunstâncias, conseguiremos travar o atraso de anos, talvez décadas, que a guerra provocou na Síria.”

O secretário-geral das Nações Unidas manifestou esperança nos restantes esforços da comunidade internacional para responder à crise da Síria, nomeadamente no sucesso das negociações marcadas para 22 de Janeiro na Suíça. “Espero que se possa iniciar o processo político para o estabelecimento de um governo de transição com competências executivas e, mais importante, que se concorde com o fim da violência”, declarou.

No entanto, a presença dos representantes da oposição da Coligação Nacional Síria nas conversações de Genebra ainda não foi confirmada.