Vitória de candidatura geracional ou partidária?

A eleição dos arquitectos no Porto e Norte foi a única que teve duas listas candidatas. A vencedora acabou por ser a “B”, que desalojou a lista de continuidade com a anterior direcção. Há quem veja aqui a vitória de uma nova geração de arquitectos descontentes com a dinâmica da Ordem; outros falam em mobilização das bases socialistas.

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Ordem dos Arquitectos/Secção Regional do Norte, restaurado pelos arquitectos Maria Helena Rente, José Carlos Portugal e Tiago Falcão, distinguido com o Prémio João de Almada (1994). Fernando Veludo

As eleições para a Secção Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos (OA/SRN) foram muito disputadas, tendo sido a única secção onde houve duas listas. A vitória de Cláudia Costa Santos, de 35 anos, uma socialista com alguma participação activa na vida do partido, foi uma surpresa. Até porque o seu adversário, José Fernando Gonçalves, 50 anos, ia disputar o lugar pela segunda vez.

O resultado da votação – a arquitecta acabaria eleita com uma diferença de 144 votos sobre o seu opositor – espelha a vontade de mudança desta classe profissional a Norte, que quis dar uma oportunidade a uma nova geração de arquitectos, que está descontente com a falta de oportunidade de emprego no país. Mas há quem afirme que a dinâmica que se criou em torno da candidatura de Cláudia Costa Santos – que tomou posse na passada sexta-feira, na sede da OA/SRN, numa casa recuperada junto à Sé do Porto – se deve não apenas ao descontentamento de uma geração que não está conotada com a Ordem, mas também à mobilização de alguns arquitectos da área do PS que há muito pediam mudança.

Um dirigente socialista explicou ao PÚBLICO que, em relação à candidatura de Cláudia Costa Santos, o que aconteceu foi que alguns dos seus apoiantes usaram a sua experiência política e aplicaram alguns dos conceitos que conhecem nas eleições para a OA. “Fizeram o trabalho do porta-a-porta, como acontece no PS sempre que há eleições”.

Contactada pelo PÚBLICO, a nova presidente da OA/SRN nega que tivesse havido “qualquer envolvimento partidário” nas eleições, informando que “o envolvimento que houve foi através do Facebook”. A arquitecta revela que a sua candidatura, antes de avançar para as eleições, foi para o terreno no contacto directo com as pessoas. “Não quisemos descurar ninguém, andámos na região a falar com o maior número de arquitectos, para que a minha lista tivesse uma grande abrangência regional “, disse.

O ex-membro do Conselho Nacional de Delegados da OA, o arquitecto Avelino Oliveira, empenhou-se em explicar ao PÚBLICO que o que se notou nestas eleições foi que os arquitectos mais jovens entenderam juntar-se numa “candidatura com conotação geracional e mais mobilizadora para integrar um maior número de arquitectos”. Agora que os órgãos estão eleitos, o que importa – diz – “é que todos trabalhem em conjunto”.

Por seu lado, o arquitecto Daniel Fortuna do Couto, que apoiou a candidatura vencedora, afasta qualquer envolvimento do PS na campanha da nova presidente da secção regional do Norte, e fala também de uma candidatura geracional” que não se revê nos “arquitectos acomodados à dinâmica da própria Ordem”.

No dia da votação realizada no Porto, 44 boletins de voto por procuração foram entregues em mão por um membro integrante da lista B (de Cláudia Costa Santos). Este facto deu origem a uma reclamação e a uma nota crítica da Comissão Eleitoral Nacional (CEN), na acta final, ao considerar esse expediente “uma irregularidade”. Mas, porque a contagem final dos votantes tinha dado uma diferença que dificilmente alteraria o resultado final, e “porque o questionamento do acto resultaria especial e desproporcionadamente gravoso” para a OR, a CEN entendeu não questionar a validade do acto eleitoral. E a lista derrotada também não impugnou a eleição.

Fortuna do Couto desvaloriza este episódio da entrega dos votos em mão, e garante que se “trata de uma prática interna que acontece sempre que há eleições”.

Com Sérgio C. Andrade