Corte nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento da FCT foi brutal

Atribuídas 298 bolsas de doutoramento e 233 bolsas de pós-doutoramento pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. A Associação dos Bolseiros de Investigação Científica já marcou protesto para 21 de Janeiro.

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Dados da FCT sobre a evolução das bolsas de doutoramento PÚBLICO
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Dados da FCT sobre a evolução das bolsas de pós-doutoramento PÚBLICO

O ano de 2014 começou com uma má notícia para a ciência, depois de se saber, nesta quarta-feira, os resultados gerais das candidaturas a bolsas de doutoramento e pós-doutoramento atribuídas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Dos 3416 candidatos para bolsas de doutoramento, só 298 receberam a bolsa. No caso dos pós-doutoramentos, só 233 cientistas receberam bolsas entre 2305 candidaturas.

Os resultados, que a Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) considera, em comunicado, "uma razia" e que mostram uma “política de desinvestimento e de abdicação de defesa dos interesses nacionais em detrimento das opções ditadas em esferas internacionais”, já fizeram a associação marcar uma concentração para 21 de Janeiro, às 15h, junto da sede da FCT, em Lisboa.

Anualmente, a FCT, a fundação estatal que gere uma parte importante do financiamento que vai para a ciência, abre concursos para bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento. Na década passada, no auge do financiamento para ciência em Portugal, chegaram a ser atribuídos 2031 bolsas de doutoramento e 914 bolsas de pós-doutoramento em 2007. Graças a este investimento, o número de doutorados em Portugal subiu para o nível europeu. No entanto, desde 2010 que o número de bolsas atribuídas tem vindo a decrescer, acompanhando a crise económica.

E os números agora publicados são avassaladores. No caso dos pós-doutoramentos, este ano que foi o que teve o maior número de candidaturas de sempre, os resultados mostram uma diminuição de 65% face a 2012.

Para as bolsas de doutoramento, a contabilização é mais complexa. Em 2013 foram atribuídas pela primeira vez 431 bolsas de doutoramento dos novos Programas de Doutoramento FCT, de acordo com a informação dada pela FCT. Estes programas doutorais são geridos pelas universidades e centros de investigação nas mais variadas áreas, que têm a responsabilidade de escolher os alunos a quem atribuem as bolsas.

Já se sabia que iria haver uma diminuição do número de bolsas individuais de doutoramento. Ainda assim, o resultado mostra um corte significativo. A soma das bolsas individuais com as que foram atribuídas nos Programas de Doutoramento FCT equivale a cerca de 729 bolsas. Se compararmos este valor com os números de 2012, onde foram atribuídas 1198 bolsas de doutoramento, há uma descida de quase 40%.

A 8 de Janeiro, a Federação Nacional de Professores (Fenprof) reuniu-se com Leonor Parreira, secretária de Estado da Ciência, e com Miguel Seabra, presidente da FCT, que disseram que o número de bolsas atribuídas “iria rondar os 10%”, lê-se no comunicado da Fenprof. No caso das bolsas de pós-doutoramento, essa percentagem foi de 10,1%, enquanto no das bolsas de doutoramento foi apenas de 8,7% (para chegar a 10%, teriam de ter sido atribuídas mais 43 bolsas). Nalguns domínios científicos, como Ciências da Comunicação e Informação, a percentagem de bolsas de doutoramento atribuídas foi de 5,48%. Já Ciências Biológicas I, a percentagem atribuída foi de 15,91%, de acordo com os dados reunidos pela ABIC.

Neste último concurso houve uma inovação na avaliação dos candidatos: as candidaturas que não estivessem já integradas em projectos científicos financiados de grupos de investigação onde estes candidatos iriam trabalhar, seriam prejudicados na avaliação. “E como é que se associa um plano de trabalhos inovador no domínio científico quando não existem projectos de investigação em curso?”, questionava no Facebook da ABIC Perpétua Santos Silva, num comentário em que dizia ter sido prejudicada na sua candidatura por causa desta questão.

“É inaceitável admitir-se simplesmente que milhares de candidatos se vejam agora sem emprego e sem forma de sustento, sendo muitos obrigados a desistir de trabalhar na investigação ou forçados a emigrar”, refere ainda a ABIC, no mesmo comunicado em que apela às instituições científicas a afixação de faixas pretas numa “campanha de protesto”.