Poluição provocada pela fábrica da Cimpor volta a afectar Alhandra

Poeira de cimento voltou a atingir um grande número de carros e casas. Empresa diz que foi um acidente pontual. Junta de freguesia está preocupada.

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Pedro Cunha/Arquivo

Quase 10 anos depois dos protestos causados pela instalação da co-incineração e das melhorias ambientais produzidas pela montagem de filtros de mangas, a vila de Alhandra voltou, nos últimos dias, a ser afectada pela poluição originada pela fábrica de cimento ali existente, a maior do grupo Cimpor em Portugal.

Moradores e autarcas dizem que durante o último fim-de-semana se verificou uma descarga com uma gravidade que há muito não se via, mas que os problemas derivados do aumento de partículas poluentes no ar já se vinham a verificar há alguns meses. A Cimpor admite que houve uma rotura pontual no dia 6, que levou, inclusivamente, ao desligar de um dos fornos da fábrica, mas rejeita qualquer ideia de degradação dos seus sistemas de protecção ambiental ou de agravamento das suas emissões nos últimos meses.

A Junta da União de Freguesias de Alhandra, S. João dos Montes e Calhandriz reagiu, em comunicado, onde afirma que os episódios dos últimos meses "põem em causa a saúde pública e recordam tempos idos onde as descargas de clínquer faziam parte do quotidiano do alhandrenses". Na manhã de segunda-feira foram muitos os moradores que levaram os seus carros às instalações fabris para serem lavados e limpos das partículas poluentes.

A Cimpor assume há vários anos a responsabilidade da lavagem dos veículos, sempre que a fábrica os suja, e segundo o presidente da junta, Mário Cantiga, terão sido "mais de 100 as viaturas que se aglomeraram à porta da fábrica para serem lavadas", incluindo uma da própria junta. "A descarga foi uma coisa como há muitos anos não se sentia", afirma o autarca da CDU, acrescentando que até alguns moradores do bairro da cooperativa Chabital (localizado a cerca de 500 metros da fábrica) vieram queixar-se à junta.

Também José Rodrigues, residente em Alhandra e antigo membro do executivo da autarquia eleito pelo PS, manifesta o seu "profundo desagrado por mais uma autêntica descarga de cimento efectuada pela Cimpor, prejudicando de um modo geral a saúde, a vida e os bens dos alhandrenses".

Para o ex-autarca, os habitantes da freguesia e arredores "merecem mais respeito e, sobretudo, responsabilidade de uma entidade que, apesar de já ter dado muito a Alhandra, de vez em quando resolve lembrar a todos, em redor, que continuamos a viver debaixo de um manto de cimento que a todos prejudica".

Mário Cantiga disse ao PÚBLICO que o novo executivo da junta reuniu a 6 de Novembro com a direcção da fábrica da Cimpor, mas que muitas das questões que colocou ficaram sem resposta. O autarca da CDU diz que, com a quebra do consumo nacional, boa parte da produção da fábrica alhandrense segue para exportação e é carregada para barcaças que descem o Tejo até ao Porto de Lisboa.

"A Cimpor não está a vender em saco, vende a granel, entra uma manga nos batelões que larga o clínquer, mas que faz uma poeira enorme. Quando o vento está de sudoeste vem tudo parar à vila de Alhandra", sustenta o autarca, que julga que essa será uma das causas principais do agravamento da situação que tem sido sentido nos últimos meses com poeira acumulada nos carros, na roupa e nas casas.

O presidente da junta afirma que nos últimos anos só havia problemas desta dimensão quando se registava alguma avaria nos filtros de mangas. Por isso, receia que haja, agora, problemas sérios de degradação desses sistemas que estejam a originar mais emissões poluentes.

"Não acredito que sejam só as cargas de clínquer (material produzido nos fornos que, misturado com cerca de 5% de gesso, forma o cimento). Pode haver algum problema de filtros rotos, de mangas rotas ou de electrofiltros desligados", admite, frisando que a junta "não tem nada contra a Cimpor e muito menos contra os trabalhadores" da empresa.

"Sabemos do valor que esta empresa trouxe para a nossa terra, mas isso não lhe dá o direito de violar as normas", acrescenta Mário Cantiga, que duvida dos resultados das estações de medição de qualidade do ar que a Cimpor instalou, considerando que há contradições evidentes entre os resultados que elas apresentam e "o senso comum dos habitantes da freguesia".

O autarca diz que a Comissão Ambiental da Freguesia vai reunir muito em breve para analisar este problema e sublinha que, nos dias de hoje, "existem imensas soluções técnicas que impedem que episódios como os sentidos nos últimos tempos, designadamente o deste fim-de-semana, possam ocorrer. Descargas para a atmosfera não se coadunam com sociedades desenvolvidas", conclui.

Cimpor diz que foi fuga pontual
Já a Cimpor afiança que este "não foi um acidente grave" e que não se regista qualquer situação de rotura em filtros ou mangas de carga da fábrica de Alhandra. Um porta-voz da empresa afirmou, no entanto, que na madrugada de segunda-feira "houve uma fuga num dos satélites [tubos de aço que rodam juntamente com o forno e permitem o arrefecimento do clinquer] do forno 6".

Segundo a mesma fonte, tratou-se de "um acidente pontual, circunscrito, que levou à paragem do forno 6, que está parado e vai ser reparado". O porta-voz referiu que a fuga foi detectada rapidamente e que foram accionadas as medidas normais de paragem do forno. A Cimpor assume que algumas pessoas se dirigiram às suas instalações para que as suas viaturas fossem lavadas, mas não consegue quantificar quantos foram esses casos.

Já sobre as mangas de descarga, a empresa garante que nesta altura não há nenhum tipo de problema, mas reconhece que, em Dezembro, "uma dessas mangas sofreu uma reparação durante cerca de 3 semanas".

Presentemente, acrescenta, "já está tudo absolutamente normal com ela, tinha uma ligeira fuga, mas foi reparada". O porta-voz da Cimpor garante também que a empresa não tem conhecimento de mais nenhum problema deste tipo e que já foram dados todos os esclarecimentos ao presidente da Junta de Alhandra.