Opinião

Porque é que a esquerda não se une, nem se vai unir

Há uma esquerda que aceita a política possível e outra que se crê moralmente superior. Não há forma de as aproximar de forma duradoura.

A política é, por estes dias, um terreno de gente zangada. Em Portugal como na Europa. Paradoxalmente a esquerda que não está no poder parece não estar a conseguir beneficiar deste ambiente. Nem mesmo a esquerda radical. A regra, por essa Europa fora, é o crescimento de movimentos populistas mais depressa conotados com a extrema-direita. Já entre nós, que tínhamos de ser originais, o fenómeno é a multiplicação das esquerdas.

Nos últimos meses começámos por ter o LIVRE, um partido quase unipessoal que diz querer estar “no meio da esquerda” – seja lá o que isso quiser dizer – para “unir a esquerda”. Mais recentemente acrescentou-se-lhe o “Manifesto 3D”, promovido por um grupo de pessoas que diz querer mais ou menos o mesmo e que esta semana veio propor uma candidatura unitária não das esquerdas, mas daquele bocadinho das esquerdas que estava unido há cinco anos no Bloco de Esquerda e que entretanto se desentendeu e pulverizou.

No espaço de menos de um mês o grande impulso unitário reduziu-se assim à sua caricatura. De fora ficou o maior partido das esquerdas, o PS, e o único partido à esquerda com base popular e organização, o PCP. Dentro ficaram, se ficaram, as almas perdidas à procura de pouso, todos os que eternamente se dividirão em nome da unidade. É um espectáculo que nem sequer é original, pois há muito que aquilo a que se convencionou chamar “a esquerda” é um espaço de endémica guerra civil.

Ainda a esquerda se estava a habituar a ser chamada de “esquerda”, nos anos quentes da Revolução Francesa, onde tudo começou, e já Robespierre fazia guilhotinar Danton. “Matai-vos uns aos outros”, pareceu ser mesmo o lema de muita da esquerda ao longo dos séculos XIX e XX, em especial da esquerda pura, da esquerda que se reclama de princípios sagrados, da esquerda que entende que tem de ser esquerda até ao fim e até às últimas consequências, a esquerda que se assume como revolucionária.

Nessa esquerda levou-se sempre até às últimas consequências a crença de que existem leis inexoráveis que determinam o destino histórico e que elas próprias seriam o instrumento, o braço eleito, dessa História com H grande. Karl Popper denunciou este tipo de crenças como representando “a miséria do historicismo” e hoje ninguém se imagina a reviver o tempo dos tribunais revolucionários, mas isso não impede que continue a existir em muitas almas a convicção de que há uma superioridade moral da esquerda e que é ela que aponta o sentido da História.

O problema dessa herança cultural e ideológica é que ela divide e continuará a dividir as esquerdas, mesmo aquelas que rejeitam sinceramente as experiências trágicas do socialismo real. Na Europa do século XXI, como no Portugal de 2014, essas diferentes esquerdas continuam a comportar-se como as facções rivais durante a Revolução Francesa: todas sentem que são elas e só elas, mas cada uma por si, que falam em nome do povo e dos seus interesses. Isso afasta-as mais umas das outras do que alguns dos seus sectores daquilo a que se convencionou chamar direita.

O argumento eterno dos bem-intencionados é que nada justifica esta divisão das esquerdas. E o argumento português prossegue dizendo que é altura de esquecer as divisões herdadas do período revolucionário, onde o PS de Mário Soares travou uma luta sem quartel com o PCP de Álvaro Cunhal, e colocar no seu lugar uma unidade que permita à esquerda governar, até por contraponto à unidade que a direita já construiu por diversas vezes. São, contudo, argumentos que chocam com a cultura e a prática política das esquerdas e, em especial, das esquerdas portuguesas.

No idos de 1974, 1975, era fácil distinguir a esquerda democrática da não democrática e perceber como a esquerda de tradição social-democrata se encontrava muito mais perto dos outros partidos à sua direita do que de um PCP cuja bandeira política, depois das eleições de 1976, até foi a constituição de uma quimérica “maioria de esquerda”. Hoje é difícil fazer essa distinção tomando por referência a aceitação ou não das regras de democracia liberal (em 1975 Cunhal chamava-lhe “democracia burguesa” e jurava que ela nunca iria existir em Portugal), mas continua a ser fácil distinguir uma esquerda que deseja governar no respeito pela democracia pluralista e pela economia de mercado das outras esquerdas que continuam a querer “superar” o capitalismo e que não estão dispostas a aceitar as regras de uma economia aberta e concorrencial.

A clivagem ocorrida em 2011, quando uns se sentaram à mesa com a troika e os outros se recusaram a fazê-lo, não foi apenas um jogo eleitoral de curto prazo, antes traduziu a clivagem eterna entre os que estão dispostos a governar um mundo possível mesmo que imperfeito e os que só aceitam o seu mundo idealizado. Isso é claro quando pensamos no PCP, onde se continua a sonhar com uma Cuba ibérica, ou quando olhamos para os sectores mais ideológicos e assumidamente revolucionários do Bloco. Mas isso também é verdade quando pensamos em todos os que julgam que, neste quadro de crise e de políticas impopulares, é possível dar “sentido prático à resistência e ao protesto” propondo um plataforma política que é apenas uma definição de trincheiras.

O que aproxima as esquerdas reformistas das direitas moderadas – a compreensão de que o que faz a riqueza das nossas sociedades é a sua diversidade e a tensão natural entre interesses e vontades muito diversificadas, e que a acção política é sempre uma procura dos melhores compromissos – é simétrico daquilo que, mais uma vez, está a aproximar as esquerdas puras das direitas radicais. É que ambas procuram hoje as trincheiras dos homens zangados, ambas exploram o medo causado pelas incertezas de um futuro menos próspero.

Eu sei que causa a maior irritação aproximar os dois extremos do espectro político e não ignoro os abismos que os separam. Mas quando lemos o seu discurso sobre a Europa, sobre “os mercados”, sobre “os ricos”, sobre a dívida, sobre as protecções sociais, sobre a intangibilidade das empresas públicas ou sobre os deveres dos Estados nacionais, verificamos que a retórica desses extremos converge, quando não utiliza os mesmos e exactos termos. Quem tiver dúvidas que leia, por exemplo, o programa eleitoral da Frente Nacional francesa.

Na verdade tanto as direitas radicais como as esquerdas “autênticas” são profundamente iliberais e ambas procuram chegar ao povo com uma retórica antimercados que só se distingue na sua eficácia: a da direita radical parece estar a ser muito mais efectiva, e disso teremos comprovativo nas próximas eleições europeias. De certa forma isso compreende-se: quando a plataforma política é a defesa intransigente do status quo (chame-se-lhe defesa da Constituição, das pensões ou dos serviços postais), quando se exploram medos e se acicata a zanga dos eleitorados, uma direita radical que também explora os sentimentos de insegurança e a hostilidade anti-imigrante acaba por chegar ainda melhor às camadas populares do eleitorado.

Em Portugal não temos uma direita populista e radical a competir com a esquerda de protesto pelo voto do eleitorado popular, temos apenas uma esquerda que se pulveriza em nome da unidade precisamente na altura em que, depois de dois anos muito difíceis, poderia ter o seu grande momento eleitoral. Só não é de estranhar porque faz parte da sua natureza. Desde Danton e Robespierre.

Jornalista, [email protected]