Congresso do CDS esquece crise política e aponta para o pós-troika

Reunião magna dos centristas promete poucas surpresas. Paulo Portas é o único candidato assumido até agora.

Em Matosinhos, Paulo Portas voltou a aluir à “humilhação” de Portugal viver em protectorado
Foto
Portas garante que o CDS está apostado em "construir um programa para o futuro" Fernando Veludo/nFactos

A omissão da crise política de Julho e o esvaziamento de críticas à direcção do CDS liderada por Paulo Portas são alguns dos traços marcantes de quase todas as moções globais ao congresso do partido, marcado para o próximo fim-de-semana.

Alguns dos textos reflectem preocupações sociais e poucos deixam transparecer leves críticas ao Governo. A reunião magna dos centristas promete poucas surpresas. Portas é candidato a líder, mas até agora é o único assumido. E na sua moção definiu o mote do congresso: sair do programa de resgate, sublinhar o crescimento económico.

Com um congresso adiado duas vezes e cancelado em resultado da crise política de Julho, o episódio da demissão de Paulo Portas de ministro dos Negócios Estrangeiros é como se não tivesse existido em 2013. Na sua moção – que foi reciclada – o líder do CDS apenas se refere à “remodelação” do Governo e não ao que levou a essa alteração estrutural do Executivo.

Só a moção de Filipe Anacoreta Correia, do movimento Alternativa e Responsabilidade, faz referência directa à crise política de Julho – numa adenda que fez à moção apresentada para o congresso cancelado – mas para fazer um elogio ao dizer que desde então se verificou “maior coesão e maior solidariedade” do Governo para adoptar medidas difíceis.

Apesar de concordarem que a prioridade deve ser a saída do programa de assistência financeira – tal como define a moção de Paulo Portas – os elementos do Movimento defendem uma reforma do Estado mais ambiciosa e sobretudo a concretização do compromisso de reduzir os municípios. Entre as poucas discordâncias visíveis entre o movimento e a direcção de Portas está a coligação com o PSD nas eleições europeias. Filipe Anacoreta Correia defende que o CDS devia concorrer sozinho, o líder do partido confirma o compromisso com Passos Coelho de concorrer coligado com os sociais-democratas.

Já as eleições legislativas e a coligação encarada como “natural” pelo líder do PSD mereceram outras palavras de Paulo Portas. Curtas mas com outro sentido. “O normal e expectável, em eleições legislativas, é que cada partido apresentar-se autonomamente”, escreveu. Como há um governo de coligação “razões fundamentadas podem justificar a formação de alianças que podem revestir diversas fórmulas”, acrescentou.

Só uma ou outra leve crítica ao Governo PSD/CDS atravessa as moções globais. O texto da distrital de Lisboa, subscrito por Alves Pardal e por João Gonçalves Pereira (deputado), assinala que “nota-se uma fadiga quase generalizada da sociedade portuguesa pela situação económica financeira” e pelas “reformas estruturais, na medida em que os resultados expectáveis demoram a aparecer”. A moção defende que Portugal como país intervencionado precisa de um Plano de Assistência no Apoio Social, depois do programa de assistência financeira.

Uma das vozes mais críticas sobre a situação social vem da Federação dos Trabalhadores Sociais-Democratas. “Os problemas sociais são mais graves do que os proclamados”, lê-se na moção. O texto contraria a mensagem mais positiva que o Governo e a linha oficial do CDS tenta passar: “Portugal é o país mais desigual da Europa onde metade da população activa trabalha por menos de 650 euros por mês, entre a qual se encontra os que auferem o salário mínimo nacional. Com estes montantes auferidos não se é oficialmente pobre em Portugal, apenas realmente pobre (…) Ao contrário do que é anunciado Portugal é cada vez mais um país de pobres”.

Outros números – os dos sinais de recuperação económica – são salientados na moção de Paulo Portas. No texto, o líder dos centristas faz um balanço das medidas tomadas pelo Governo define as prioridades do partido: “terminar o programa com a troika no prazo previsto; consolidar a recuperação económica; incentivar a reforma do Estado, em clima de concertação social e negociação política”.

Sem nenhum ministro do CDS a subscrever qualquer moção global, o XXV Congresso do partido prepara-se para eleger o mesmo líder e a alargar os lugares da comissão política e do conselho nacional, proposta do próprio Paulo Portas. Com nomeação de João Almeida para secretário de Estado da Administração Interna, a direcção terá que designar um novo porta-voz do partido.