Filha do rei de Espanha recusa renunciar à sucessão

Rei esteve com o primeiro-ministro, Mariano Rajoy, mas nenhum dos dois comentou a decisão do juiz do caso Nóos indiciar a infanta Cristina.

A infanta nunca mais participou em actos oficiais
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A infanta nunca mais participou em actos oficiais Marcelo del Pozo/Reuters

A infanta Cristina “quer que se faça justiça”, disse esta quarta-feira o seu advogado, depois de ter discutido com a filha do rei de Espanha o seu indiciamento por corrupção e o recurso que agora preparam. Cristina, escreve o jornal El País, continua decidida a manter o seu casamento e a não abdicar dos seus direitos dinásticos.

“Suponho que não estará contente. O que ela quer é que se faça justiça”, disse aos jornalistas em Barcelona Miquel Roca, o advogado da infanta, depois de ter falado ao telefone com ela. Cristina mudou-se no Verão passado para Genebra com os quatro filhos, que quis afastar do escândalo.

Um inquérito conhecido como "caso Nóos" foi aberto em Julho de 2010; fez em Dezembro três anos que a investigação se aproximou de Iñaki Urdangarín, marido da infanta, levando o rei Juan Carlos a afastá-lo das actividades oficiais e a declarar que o seu comportamento “não parecia exemplar”.

O caso depressa começou a aproximar-se de Cristina. Terça-feira, o juiz José Castro decidiu indiciá-la, pela segunda vez, agora por suspeitas de envolvimento de branqueamento de capitais e fraude fiscal ligados ao Instituto Nóos, a fundação de promoção do desporto do marido que terá sido usada para desviar dinheiros obtido em contratos com municípios.

A Zarzuela, dizem fontes ouvidas pelo El País, há muito que gostava de ter visto Cristina renunciar à sucessão – uma decisão simbólica e sem efeitos práticos, já que a filha do meio dos reis é apenas sétima na linha de sucessão; os seus filhos, aliás, subiriam um lugar.

O problema, escreve o jornal, é que o casal tem vivido este caso como se se tratasse de uma grande conspiração, ao mesmo tempo que não entende as consequências para a monarquia. Só assim se explicaria que Cristina tenha decidido visitar o pai no hospital acompanhada pelo marido, em Novembro de 2012.

Na altura, a solução encontrada passou por fazer entrar a infanta, o marido e um dos seus filhos num carro onde também estava a rainha Sofía, enquanto Felipe, o sucessor, chegou para visitar o pai noutra viatura. Se a monarquia espanhola tem futuro esse chama-se Felipe e, por isso, o príncipe nunca mais foi visto em público com a irmã ou com o genro.

Mais do que isso: segundo o El País, o casal Felipe e Letizia deixou mesmo de conviver com Cristina e Iñaki, quando antes eram bastante próximos. Na noite de Natal, por exemplo, os reis jantaram com a infanta e com o marido, os príncipes não se lhes juntaram.

Com Cristina decidida a manter tudo, o casamento, os títulos e os direitos dinásticos (o rei nunca lhe pediu que desistisse dos seus direitos), a Casa Real foi mudando a sua atitude em relação à infanta. Em Abril do ano passado, quando o juiz do "caso Nóos" a tentou indiciar pela primeira vez, a Zarzuela manifestou a sua “surpresa” e defendeu-a; esta terça-feira limitou-se a afirmar que respeita as decisões judiciais.

Comentar os escândalos da monarquia é sempre algo sensível para os maiores partidos políticos espanhóis. O tabu caiu, mas foi há pouco tempo. O Governo do PP – o primeiro-ministro, Mariano Rajoy, esteve com o rei horas depois de ser conhecida a notícia, no encontro semanal que mantêm – e o PSOE evitaram entrar na polémica.

O líder socialista, Alfredo Pérez Rubalcaba, limitou-se a mostrar “respeito e acatamento” pela decisão do juiz, mas o secretário-geral do PSOE de Madrid foi mais longe. “Com o segundo indiciamento, a conduta e o comportamento das instituições judiciais e da Casa Real devem ser impecáveis”, disse Tomás Gomez.

Já o líder da coligação ICV-EUiA (Iniciativa para a Catalunha, Verdes e Esquerda Unida), Joan Herrera, descreveu este desenvolvimento como “um acto de normalidade e uma boa notícia”. Para Herrera, “isto demonstra que chegou a hora de abrir um debate sobre a profunda crise que sofre uma instituição tão anacrónica e sem sentido como é a monarquia, de novo debaixo de suspeita”.