Purga na polícia turca em resposta a investigações de corrupção

Ministro do Interior emitiu decreto à meia-noite ordenando a demissão de 350 oficiais e agentes da polícia de Ancara.

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Erdogan tem denunciado uma conspiração para difamar o Governo e desestabilizar a Turquia Murad Sezer/Reuters

O Governo turco demitiu, através de um decreto publicado à meia-noite, 350 oficiais e agentes da polícia de Ancara, numa purga sem precedentes que põe em causa as investigações por corrupção contra altos dirigentes e aliados do partido do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan.

Esta é já a segunda vaga de demissões desde o início do escândalo político-financeiro que rebentou em Dezembro com a detenção de pessoas próximas de Erdogan, incluindo o director do banco público Halkbank e os filhos de três ministros, entretanto forçados a demitir-se. Logo depois, dezenas de oficiais dos departamentos de polícia de Ancara e Istambul foram afastados, sob acusação de terem “ultrapassado o seu poder”.

A lista é agora muito maior e, além de 80 altos graduados da polícia da capital, incluiu os comandantes e centenas de polícias das unidades de crime organizado, criminalidade financeira e de combate ao contrabando – departamentos envolvidos nas investigações que Erdogan define como uma conspiração para difamar o Governo e desestabilizar a Turquia, a três meses das eleições autárquicas e a oito das presidenciais. 

A imprensa turca noticiou que a ordem foi assinada pelo novo ministro do Interior, Efkan Ala, pouco depois da meia-noite, elevando para mais de 600 o número de polícias demitidos desde o início das investigações. Alguns dos afastados terão sido transferidos para a secção de trânsito e a maioria dos novos responsáveis vem de fora da capital, noticiou a Reuters.

A purga põe em causa a continuação das investigações – relacionadas com suspeitas de corrupção na atribuição de dezenas de obras públicas e com comércio ilegal de ouro com o Irão. Mas os procuradores responsáveis pelo processo não parecem dispostos a baixar os braços e, nesta terça-feira, detiveram mais 25 pessoas em Izmir (Oeste), incluindo oito dirigentes da empresa pública de caminhos-de-ferro.

O Alto Conselho dos Juízes e Procuradores (HSKY), uma das mais altas instâncias judiciárias da Turquia, lançou também uma nova farpa contra o Governo, ao anunciar a abertura de um inquérito contra o novo comandante da polícia de Istambul, acusado de ter bloqueado a execução de mandados de captura que tinham sido emitidos contra 30 personalidades próximas de Erdogan, noticiou a AFP. Decidiu também averiguar as circunstâncias em que foi afastado o procurador na origem destas investigações.

Estes episódios são vistos como um novo capítulo na guerra de poder entre Erdogan e o imã Fethullah Gulen, líder de um movimento com milhões de seguidores em todo o mundo e que, depois de ter sido um aliado chave do primeiro-ministro, é agora visto como o seu mais poderoso rival. Crítico da corrupção que grassa no país e descontente com a repressão dos protestos em Istambul, no Verão passado, o líder do Hizmet (Serviço) rompeu com Erdogan depois de o Governo ter anunciado, em Novembro, a intenção de fechar uma rede de escolas privadas que são uma das principais fontes de financiamento do movimento.

O imã goza de forte influência em alguns sectores da polícia e do Ministério Público e Erdogan atribuiu a este “Estado dentro do Estado” a iniciativa das investigações que atingem o seu círculo mais próximo, com o objectivo de bloquear a sua candidatura às presidenciais (uma aspiração que há muito não esconde).

Num sinal de que poderá estar à procura de novos aliados, o primeiro-ministro anunciou no domingo que apoia a repetição do julgamento de centenas de oficiais do Exército condenados nos últimos anos por envolvimento em conspirações para derrubar o Governo que lidera. Os megaprocessos foram decisivos para Erdogan afirmar o seu poder sobre o Exército, que durante anos tutelou a política turca, numa manobra em que contou com o apoio de Gulen e dos procuradores e polícias que agora denuncia.