Cientistas portugueses querem comprar um drone para usar na Antárctida e pedem a ajuda de todos

Campanha de crowdfunding foi lançada pelo Grupo Polar da Universidade de Lisboa, que gostaria de ter um veículo aéreo não tripulado para construir mapas 3D do terreno na Antárctida. Com eles, estudar-se-á a paisagem marcada pelo gelo e degelo e pelas alterações climáticas.

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Ilha do Rei Jorge, nas Shetlands do Sul: a paisagem marcada pelas manchas de neve e já sem neve no Verão antárctico Nuno Ferreira Santos
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O drone que os cientistas portugueses gostariam de comprar DR

Porquê um drone? Para que possam fazer-se levantamentos fotográficos e do relevo com grande resolução, em áreas extensas na Antárctica, em particular na Península Antárctica, uma enorme língua de terra que sai do grande continente branco e onde os cientistas portugueses têm concentrado a sua atenção. “Nas regiões em que trabalhamos não há levantamentos topográficos adequados e é extremamente caro e difícil voar com helicópteros para efectuar fotografia aérea”, diz a equipa na página em que apresenta o projecto para crowdfunding. “As restrições orçamentais recentes têm limitado muito a nossa capacidade de adquirir um veículo aéreo não tripulado”, acrescenta-se.

“Ter financiamento para este projecto seria uma lufada de ar fresco para a nossa investigação. Este tipo de ferramenta, que acaba de surgir a preços relativamente acessíveis, proporciona dados de enorme qualidade...dados de sonho para quem estuda a geografia física das regiões polares”, acrescenta no mesmo site o geógrafo Gonçalo Vieira, um dos coordenados do Grupo Polar da Universidade de Lisboa. “Infelizmente, o timing dos concursos a financiamento científico iria atrasar este projecto em pelo menos dois anos, além de que o acesso a este tipo de verbas está cada vez mais complicado por estas bandas.”

O pequeno aparelho poderá voar durante 45 minutos e a resolução das suas imagens, obtidas por câmara óptica e uma câmara de infravermelhos, será alta, entre dez a 20 centímetros. “Tem incorporado um software  que permite fazer modelos digitais do terreno – mapas tridimensionais – que não existem em alta resolução para aquela área”, diz ainda Gonçalo Vieira. (A equipa tem usado um “drone” barato, de cerca de 1500 euros, mas só voa durante dez minutos, tem limitações na carga que pode levar e a resolução é de 10 a 30 centímetros). O novo drone é capaz de cobrir áreas mais amplas, podendo fazer dez quilómetros quadrados num único voo.

Os dados recolhidos permitirão discriminar os tipos de cobertura do solo (como neve ou rochas), os diferentes tipos de vegetações (líquenes ou musgos) ou outras mudanças que ocorreram na superfície, como o movimento dos calhaus no interior do solo para a superfície devido aos ciclos de gelo-degelo e que deixam estrias no solo. Com todo este tipo de informação, a equipa pode monitorizar o que está a acontecer na Antárctida, mais precisamente ao solo que se mantém congelado durante pelo menos dois anos, ou permafrost, e que em última análise é importante para o estudo das alterações climáticas.

A Península Antárctica está a aquecer depressa: desde 1950, a temperatura média anual do ar subiu 2,5 graus Celsius. Por isso, o permafrost aproxima-se de uma situação crítica na região e, caso a temperatura atmosférica continue a subir, pode sofrer mudanças drásticas. Até há uma década nada se sabia sobre o solo congelado. Criou-se entretanto uma rede mundial de monitorização e os dados recolhidos pela equipa de Gonçalo Vieira em várias ilhas da Península Antárctica, que contribuem para essa rede, têm denotado uma tendência para o aquecimento, essencialmente no Verão, nos primeiros metros do solo, a camada que se funde e volta a ficar congelada no Inverno e abaixo da qual permanece o permafrost.

O drone não detectará directamente o permafrost, mas dará indicações nesse sentido. “A identificação de diferente vegetação e formas do relevo são indicadores, ou não, da presença de solo congelado em profundidade”, explica Gonçalo Vieira. Por exemplo, os tapetes de musgo surgem na Antárctida onde há mais humidade perto da superfície do solo. E os neveiros, as manchas de neve que costumam manter-se de ano para ano ou derreter mais tarde no Verão, têm um papel importante na distribuição do permafrost, protegendo-o do aquecimento no Verão e mantendo-o mais frio.

Todo este tipo de informação permitirá traçar a evolução de uma paisagem marcada pelas alterações climáticas e pelo degelo. Mais: a partir de uma série de observações pontuais feitas no terreno, por exemplo em perfurações no solo onde a equipa de Gonçalo Vieira tem deixado termómetros, os modelos digitais 3D permitirão extrapolar essa informação pontual para áreas mais amplas. “Os modelos digitais do terreno permitem fazer extrapolações para áreas em que não há dados de observação directa e perceber o que se passa numa região”, diz o investigador, acrescentando que também podem construir-se cenários futuros com uma série de parâmetros, incluindo por exemplo o aumento da temperatura do ar.

Um postal da Antárctida
Se a equipa conseguir comprar o drone (até esta segunda-feira de manhã tinha recolhido cerca de 500 euros), os primeiros testes ao aparelho realizar-se-ão entre meados de Fevereiro e Março, durante a campanha deste ano à Antárctida, já está em curso. Neste caso, os testes serão na ilha do Rei Jorge, arquipélago das Shetland do Sul, junto à Península Antárctica. E em 2015, além do Rei Jorge, o drone voaria nas ilhas de Livingston e Deception, também nas Shetland do Sul.

Ainda no campo das imagens, a campanha deste ano inclui o voo num helicóptero brasileiro de uma câmara com 200 bandas espectrais — depois de tentativas falhadas nos dois anos anteriores —, o que permitirá uma análise fina da paisagem, ainda que com resolução limitada.

O Diário da Campanha deste ano, que inclui 20 cientistas portugueses e estrangeiros de sete projectos e tem um financiamento de cerca de 100 mil euros, pode ser acompanhado na página do Programa Polar Português. Além do permafrost e da cartografia de alta resolução, irá estudar-se, por exemplo, o clima nos últimos sete mil anos, os poluentes que chegam até tão longe ou os polvos e as lulas que alimentam pinguins e albatrozes e como isso é afectado pelas alterações climáticas. E, tal como nos últimos dois anos, Portugal contribui para o esforço colectivo de investigação da Antárctida com o aluguer de um avião que voará para a ilha do Rei Jorge no final de Fevereiro, para levar e trazer cientistas dos programas antárcticos de Portugal e de outros países.

E se houver drone, será da Antárctida que os cientistas enviarão um postal a quem tenha contribuído com pelo menos 25 euros.