Eusébio dançava no relvado, Eusébio inspirava música

Os Sheiks de Carlos Mendes e Paulo de Carvalho celebraram-no em yé-yé, o Conjunto sem Nome cantou O joelho do Eusébio, o guitarrista Filho da Mãe imaginou-o no deserto. Música para Eusébio.

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Eusébio estilizado em modo psicadélico na capa de Portuguese Nuggets, compilação dedicada às bandas rock'n'roll portuguesas da década de 1960 DR
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No mesmo ano em que lançaram o sucesso Missing you, os Sheiks gravariam Eusébio para celebrar a participação portuguesa no Mundial de Futebol de 1966 DR
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Filho da Mãe, nome artístico do guitarrista Rui Carvalho, gravou Eusébio no deserto no seu álbum de estreia, Palácio Leonor Fonseca

Como defendia o jornalista da Emissora Nacional na reportagem da recepção portuguesa aos Magriços, depois da brilhante prestação em Inglaterra, a selecção portuguesa pode não ter conseguido vencer o Mundial de Futebol de 1966, mas aquele terceiro lugar representou o mesmo que trazer para casa o título de campeão. E se alguém mereceu que assim fosse, esse alguém, numa equipa onde jogavam homens do quilate de Mário Coluna, Hilário, Torres ou José Augusto, foi obviamente Eusébio, autor de sete dos nove golos portugueses da fase de qualificação, melhor marcador do Mundial, com nove, e figura máxima do torneio.

Pouco depois de a selecção ser recebida em êxtase pelos portugueses que a haviam acompanhado pela rádio e televisão, o Pantera Negra era celebrado de uma forma moderna, moderníssima, eléctrica, bluesy, yé-yé. Os Sheiks de Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Edmundo Silva e Fernando Chaby, a banda pop de maior sucesso à época, os Beatles portugueses que haviam irrompido no início do ano com Tell me birdMissing you, lançavam Eusébio, canção tributo à selecção e à sua maior figura.

“Foi uma proposta da [editora] Valentim de Carvalho”, recorda Carlos Mendes. “Tudo feito no estúdio, improvisado.” Guitarras e harmónica unidas em rhythm & blues de batida certeira e, enquanto o ritmo comanda a acção, canta-se sobre a selecção que “abriu o livro”, fala-se de “Eusébio e companhia”, que “deram tratado e do bom” com “futebol afinadinho e no tom”. São dois minutos de canção. Uma celebração instantânea: “Como o grupo estava bastante entrosado, construíamos as letras e a música directamente no estúdio”, diz Carlos Mendes.

Eis então Eusébio, futebolista maior, imortalizado em canção pela mais famosa banda rock portuguesa da década de 1960. Com letra a acentuar o que disse o repórter na reportagem supracitada: “Só não ficámos com a taça / mas fica tudo contente.” Letra que diz algo mais: “Lá ninguém nos conhecia nem dava nada pela gente.” Carlos Mendes, sportinguista mas homem pouco fervoroso nas questões do futebol, recorda como, principalmente após o Mundial de 1966, Eusébio passou a ser o verdadeiro embaixador português. “Teve uma importância muito grande como fenómeno, o que deu uma divulgação muito grande do país pelo mundo. Nessa altura ia muitas vezes ao estrangeiro e sempre que se falava de Portugal tinha como resposta: ‘Portugal? Eusébio!’.”

Do jogador, recorda uma história que corria os cafés e que dá conta da dimensão heróica, mítica, do jogador do Benfica. “Era uma força da natureza. Dizia-se que, quando chutava a bola, o fazia com uma força tal que ela ficava oval – apanhava-se isso nas fotografias a baixa velocidade. E estamos a falar das bolas da época, pesadíssimas, que se apanhassem com água da chuva podiam fazer desmaiar quem as cabeceasse. Não sei se era verdade, mas era isso que se contava nos cafés: ‘Imagina que ele tem um chuto tal que a bola fica oval.’”

A celebração musical de Eusébio não se ficaria pelos Sheiks. Três anos depois, o Conjunto sem Nome editaria O joelho do Eusébio, marcha sambada que faz força da fraqueza do Rei, ou seja, as inúmeras lesões sofridas, fruto das marcações impediosas num futebol mais violento: “O joelho do Eusébio fez o mundo estremecer / Mas o Eusébio, tem joelho ‘inda' para dar e vender” – e até “o menisco do Eusébio” era, na canção do Conjunto sem Nome, “o menisco da saúde”.

Mais à frente, os Salada de Frutas incluiriam o King na letra do clássico de 1981 Se cá nevasse... (“Se o Eusébio ainda jogasse / Ai que fintas ele faria um dia”), e duas décadas depois, em 2007, quando foi editado o segundo volume da série Portuguese Nuggets, compilação dedicada à cena rock’n’roll portuguesa da década de 1960, não só surgia no alinhamento Eusébio, o dos Sheiks, como Eusébio, ele mesmo, figurava na capa do LP estilizado em colorido psicadélico. Não demoraríamos a encontrá-lo novamente em forma de música.

Em 2011, o guitarrista Rui Carvalho, que assina como Filho da Mãe e cujo segundo álbum, Cabeça, foi considerado pelo Ípsilon um dos melhores álbuns de 2013, lançava o seu disco de estreia, Palácio. Música número 4: Eusébio no deserto. Título que Rui Carvalho explica rapidamente. “Quis reflectir o que o Eusébio tem do ser português.” Um português atípico, porque nasceu em Moçambique, “mas provavelmente mais português que qualquer português de que me possa lembrar”. A música reflecte precisamente isso. “Coloquei-o no deserto, um deserto que será mais próximo do imaginário cowboy. O tema é um blues acelerado, mas tem ali umas fintas pelo meio e qualquer coisa que o liga a Portugal.".

O título chegou depois da música. “Foi a forma que encontrei para a descrever. Ouvi-a e pensei: ‘Isto lembra-me Eusébio no deserto.’” Faz sentido? Claro que sim. Eusébio fica bem em todo o lado. Senão, vejamos. Em 2007 surgiu do nada uma banda galesa de vida breve. Editou nesse ano o álbum Beth yw Hyn. O seu nome? Eusebio (naturalmente). 

 
 

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