Morreu Phil Everly, da dupla Everly Brothers

O cantor e guitarrista morreu aos 74 anos em Burbank, subúrbio de Los Angeles, Califórnia, de complicações provocadas por uma doença nos pulmões.

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Phil, à esquerda na imagem, com o irmão, Don DR
Phil Everly
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Phil Everly no dia em que inaugurou uma estrela no passeio da fama, em Hollywood REUTERS/Phil McCarten

Phil e Don Everly foram a ponte entre a country que viveram intimamente com o pai, as harmonias irresistíveis do doo-wop e o rock’n’roll que os conquistou por inevitabilidade geracional. Foram duas vozes unidas como nenhuma outra por contingência genética (eram, afinal, irmãos). Duas vozes angelicais cantando a insegurança e a dor do amor que não correu como deveria (So sad to watch good love gone bad), cantando a irrequietude da sua geração de uma forma tão perfeita, tão tocante e tão terna que não só se tornaram referência inescapável para os que vieram depois como, entre aqueles anos de 1957 e 1963 em que reinaram sobre o cenário musical, alcançaram a imortalidade com canções como Wake up little Suzie, Bye bye love, Cathy’s dream ou All I have to do is dream.

Os Everly Brothers: “Devemos tudo a estes tipos”, disse Bob Dylan um dia. Os Beatles e os Beach Boys concordariam, Simon & Garfunkel não existiriam sem eles. Nem os contemporâneos Byrds, os Crosby, Stills & Nash que se seguirem e dificilmente os recentes Fleet Foxes.

Na sexta-feira, Phil Everly, o mais novo dos irmãos, o dono da voz de tenor que seguia como sombra o barítono do irmão Don, morreu num hospital em Burbank, na Califórnia. A sua mulher, Patti, confirmou a morte ao Los Angeles Times, revelando que tal se deveu a uma doença pulmonar crónica, consequência de uma vida inteira enquanto fumador. Tinha 74 anos.

Estávamos em 1973. Durante um concerto num parque de diversões em Buena Park, na Califórnia, Phil Everly atira a guitarra para um canto e abandona o palco depois de dizer ao irmão, que uma vez mais iniciara o concerto alcoolizado, que a banda acabara naquele preciso momento – na verdade, terá pedido ao irmão que avisasse o público que a banda, de facto, terminara há muito, em 1963.

Ao ouvir a forma como aquelas duas vozes se entrelaçavam com tal harmonia, nunca suspeitaríamos do turbilhão que sempre marcou a vida dos dois irmãos. “Damos muito espaço um ao outro”, afirmou Don Everly em 1999, citado neste sábado pelo Los Angeles Times. “Cumprimentamo-nos, por vezes comemos uma refeição juntos… Tudo é diferente entre nós, excepto quando cantamos juntos. Eu sou um democrata liberal, ele é bastante conservador.” As diferenças entre ambos não eram porém suficientes para escaparem a um destino em comum: assim foi desde que, tinha Phil cinco anos, se juntou pela primeira vez à Everly Family, o grupo formado pelos irmãos, pela mãe, Margaret, e pelo pai, Ike, guitarrista e cantor country que mantinha um programa de rádio em Shenandoah, no Iowa.

Muitas décadas depois, em 2003, os Everly Brothers juntar-se-iam a dois dos seus maiores fãs, Paul Simon e Art Garfunkel, numa digressão de reunião dos autores de Sounds of Silence. A Rolling Stone recupera as memórias de Simon desse encontro: “É impressionante, porque eles não se viam há três anos. Encontraram-se no parque de estacionamento antes do primeiro concerto. Tiraram as guitarras das malas – aquelas famosas guitarras pretas – e abriram a boca e começaram a cantar. Depois de todos aqueles anos, ainda era o som pelo qual me apaixonara enquanto criança. Ainda era perfeito.”

Phil Everly nasceu a 19 de Janeiro de 1939 em Chicago, praticamente dois anos depois de Don (1 de Fevereiro de 1937, Brownie, Kentucky). Depois de integrar a banda familiar, emancipar-se-ia com o irmão em meados da década de 1950. A Everly Family reduzia-se então a Everly Brothers. Com o apoio do guitarrista Chet Atkins, que reconheceu o seu potencial enquanto cantores e guitarristas, e beneficiando das canções compostas pela dupla Felice e Boudleaux Bryant, o duo irrompe pelo cenário musical em 1957, com Bye bye love. Nos anos seguintes, Wake up little Susie (a história de um casal de namorados que passa a noite num drive-in e que, por atentória à moral, acabaria censurada em alguns estados americanos), All I have to do is dream ou Bird dog, compostas pelos Bryant, ou Cathy’s clown, assinada por Phil e Don, garantiram-lhes um imenso sucesso nos dois lados do Atlântico e mostraram-se influência determinante para a revolução pop que se seguiria à explosão rock’n’roll desencadeada por Elvis Presley, Little Richard ou Buddy Holly, companheiro de digressão e amigo próximo dos Everly.

O segredo para o sucesso? As vozes, naturalmente. Mas também a forma como conjugaram a country com um sentido pop apurado e com o entusiasmo pela energia do rock’n’roll e o ritmo primitivo do blues. A partir de 1963 deixaram de surgir regularmente nas tabelas de vendas, mas a sua presença continuou a fazer-se sentir. Porque nunca deixaram de ser uma admirável banda de palco e porque os que lhes seguiram no encalço continuaram a prestar-lhe tributo sempre que possível. Neil Young disse certo dia que qualquer banda que harmonize vozes está a tentar aproximar-se dos Everly Brothers – Young é, claramente, um compositor sobre a influência do duo: ouvimos Walk right back, editada em 1960, e descobrimos aquilo que viria a ser essa doce Harvest moon que deu título ao seu álbum de 1992.

Ainda que o sucesso dos singles e de álbuns como Everly Brothers, o primeiro (1957), ou It’s Everly Time, provavelmente o mais célebre, editado em 1960, não fosse repetido, Phil e Don continuaram a deixar a sua marca. Roots, lançado em 1968, surgiu quando os irmãos começavam a voltar-se novamente para as suas raízes musicais e é considerado um dos grandes álbuns do então nascente country-rock. Curiosamente, por essa altura, a vida dos dois parecia replicar aquela de excessos de outro herói da country, Johnny Cash – e eis os irmãos, tão diferentes em personalidade, tão complementares musicalmente, unidos na dependência de anfetaminas. Manter-se-iam juntos até ao supracitado concerto de 1973, prosseguindo carreiras a solo após a separação.

Em 1983, ano em que se reúne novamente ao irmão, Phil Everly voltaria à ribalta em Inglaterra, quando de um álbum homónimo, gravado com admiradores como Mark Knopfler ou Cliff Richard, foi extraído o single She means nothing to me. Tal, porém, é hoje pouco significativo. No momento da morte de Phil Everly, recorda-se uma voz, inseparável da do seu irmão, que abriu novas portas ao rock’n’roll e à nascente música pop. “O impacto dos Everly Brothers ultrapassa até a sua fama”, escreveu Paul Simon em 2004. Billie Joe Armstrong, dos Green Day, que se juntou a Norah Jones para gravar um álbum tributo aos Everly Brothers, Foreverly, editado no final de 2013, explicou desta forma o fascínio por aquela música. “Existe tanta escuridão naquelas velhas canções. Penso que era simplesmente a forma como as pessoas comunicavam o luto e a perda. Mas depois com os Everly Brothers soa como dois anjos que cantam.”

Phil Everly deixa dois filhos, Jason e Chris, também eles músicos, e duas netas. Don não comentou ainda a perda do irmão. Um seu representante afirmou à imprensa que está demasiado perturbado para dizer o que quer que seja.