Onde está o euro do troika?

A Troika está a cavar um poço para o Euro.

Quando se trabalha com ajuda externa, o primeiro estudo é econométrico para definir, por região e para o país todo, onde cada milhão investido trará mais crescimento económico e competitividade a longo prazo. O objectivo da ajuda é apoiar aquele país e não a economia global, as exportações daquele país e não para o país, que é o foco da banca dos países que comandam, não só o FMI.

O estudo que fazemos é para cada sub-nicho, o quanto custa um posto de trabalho e o quanto um milhão gera em cada região no primeiro round do seu uso, como empregos num estaleiro naval. Depois o quanto os recursos ali usados são reinvestidos pelos fornecedores locais para atender a maior procura do tal estaleiro. Depois o quanto o comércio local, ao ter mais vendas, investe na expansão do seu negócio, em construção, etc.

Feito isto para cada subsetor da economia, não das finanças, é que se decide quais são as prioridades por região e para o país. A economia baseia-se em serviços e produtos do mundo real e não numa abstração, que é o euro. Pois não se os euros não se comem.

Por que é que isto não se aplica em Portugal? Por que é que se dá prioridade a megaprojetos, onde um milhão gera apenas um posto de trabalho e dois terços do material é importado? Isso em vez de apoiar PME, como as metalomecânicas locais, têxteis, mobiliário, onde um posto de trabalho custa 30 mil em investimentos, e o material local ou regional chega a três quartos do total.

O tecido empresarial está cada vez mais ténue e as reformas estruturais listadas, que fariam aumentar a competitividade, não foram realizadas. Nem a reformado aparelho judicial e da burocracia, que traria investimentos diretos. Os 72 mil milhões entram e saem para pagar juros, supérfluos ou a especulação? Como mostrei num seminário da Protecção Civil, ao não prevenir fogos rurais Portugal perdeu 55 mil milhões de euros em dez anos. Como o Nobel Joe Stiglitz escreveu, com previsões superotimistas, a Troika está a cavar um poço para o Euro. Ela ignora os ciclos tecnológicos e climáticos que nos afetarão em 2014.

Consultor internacional, trabalhou em doze países para o Interamerican Development Bank