Pete Swanson à procura de problemas

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Rejeita a ortodoxia tecno, fugiu da ortodoxia noise: o ex-Yellow Swans faz música de dança que recusa ter como função fazer dançar. A confirmar quinta-feira em Lisboa, na ZDB

Com Going Places, monumental escultura ambient em pedra noise, os Yellow Swans disseram-nos adeus. O duo de Gabriel Saloman e Pete Swanson já se tinha finado em 2008, mas Going Places só foi lançado dois anos depois. Era o magnífico testamento de um dos mais importantes projectos saídos da explosão noise do início do milénio, que revelou a um público maior grupos como os Wolf Eyes.

Gabriel Saloman continuou a trabalhar musicalmente, mas muito longe do ritmo de edições dos Yellow Swans. Pete Swanson, que actua quinta-feira, dia 9, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, alcançou maior destaque, sobretudo depois da edição de Man With Potential (2011), disco em que começou a subverter elementos da música de dança. Punk Authority, EP do ano que acaba de acabar, leva o choque entre as formas do tecno e a agressão sónica do noise às últimas consequências.

São passos curiosos para alguém que se formou na cena punk de Portland, EUA. “Interesso-me muito pela música de dança. Gosto de Cybotron, Drexciya e Basic Channel desde a adolescência, mas nunca achei interessante a cultura associada. Nunca me atraiu sair à noite para ir ver DJ”, conta, por e-mail, ao Ípsilon. A solo, tentou resolver esse “conflito” entre o amor por aquela música “incrivelmente psicadélica” e a falta de vontade de se meter em discotecas. Em Punk Authority, feito com sintetizadores modulares (máquinas complexas, personalizadas pelos músicos, que lhes podem juntar módulos com funções diversas), Swanson imagina faixas tecno escondidas por uma muralha de ruído. Não é música que imaginemos numa pista de dança. “É definitivamente música de dança, mas é também, inegavelmente, noise improvisado, e o público reage frequentemente de formas que são mais apropriadas para um concerto punk ou dos Lightning Bolt do que para uma discoteca.”

Aprimorou esta forma bastarda e brutal de tecno quando começou a transpor para concerto as ideias de Man With Potential, onde ainda se vislumbravam algumas das paisagens de Going Places. Entre a gravação daquele disco e o seu lançamento, mudou-se para Nova Iorque, onde começou a estudar para trabalhar no campo da saúde mental. Quando finalmente arranjou tempo para tocar ao vivo, já fazia algo totalmente diferente dos Yellow Swans. “Acabei por concentrar-me em jogar com as ortodoxias da música de dança e em colocá-las num contexto corrosivo que não permitia à música ser funcional como costuma ser.”

Do contra

Na cena punk, Pete Swanson encontrou guardiões de uma alegada pureza ideológica e musical. Viu “actos mais opressivos do que os empregues pela culturamainstream” que o punk diz querer combater. Eis um dos sentidos que podemos atribuir a um título tão aparentemente contraditório como Punk Authority.

Anos depois, quando era uma das figuras-chave da cena noise, começou a detectar a mesma tendência. “Houve algumas tentativas de policiamento estético depois da grande explosão do noise”, lamenta. Esse policiamento “parecia celebrar o conformismo e acodificação”, valores contrários a uma cena em que a “exploração e a inovação” devem ser os únicos guias.

Swanson, um homem “do contra por natureza”, não está sozinho neste movimento de libertação daquilo a que chama a “ortodoxia da cultura noise”. Steven Warwick, saído dos Birds of Delay, fez Heatsick, que bebe da house de Chicago. James Ferraro deixou-se encantar pelo hip-hop e pelo R&B. Dominick Fernow (Prurient) montou Vatican Shadow para diluir o noise no tecno, reflectindo sobre a guerra e a violência. “Muitos músicos que conheço dessa cena são cépticos em relação a esta crescente rigidez. Algumas pessoas estão a reagir, abraçando formas rock, movimentos pop ou olhando para a música de dança. Basicamente, as coisas tornaram-se aborrecidas na cena noise”, diz.

Em Lisboa, o ex-Yellow Swans terá a oportunidade de experimentar os sintetizadores modulares da ADDAC System, que tem entre os seus clientes David Sylvian e Martin Gore (Depeche Mode). Swanson, que já era cliente da empresa portuguesa, terá o estúdio da ADDAC à sua disposição. Trabalha com sintetizadores modulares desde os dias finais dos Yellow Swans. Habituou-se rapidamente à sua lógica e encontrou neles uma forma de tornar o processo de fazer música sozinho excitante. Quando o ouvimos, sentimos que os sons lutam entre si — e, em conjunto, com Swanson, qual David contra Golias. É como se ele andasse à procura de problemas. “São muitas vezes as únicas partes interessantes da música. Os sítios onde as coisas se despedaçam costumam ser os melhores”, defende. Por isso, prefere as ineptas Shaggs aos Beatles e os estranhos Trash Company a Prince. “É mais fácil ter este tipo de tensão quando estás a tocar com outros. Estás a improvisar e o outro músico faz algo de que tu não gostas e tens de encontrar uma forma de trabalhar com aquela ideia e de fazer dela um recurso. Esses momentos são infinitamente mais satisfatórios do que quando tudo corre na perfeição. Com o sintetizador, posso esperar momentos estranhos”, prossegue.

Swanson, que se define como um improvisador, acha “os processos de composição e de mistura extremamente chatos”. Ao vivo, mantém a atitude punk: sempre que pode, toca no meio do público, entregando-se, com o povo, ao som, que parece poder desintegrar-se a qualquer momento. 

Na residência artística que terá em Lisboa podem nascer “ideias para um próximo álbum” ou mesmo as bases sonoras desse disco. Swanson quer abrir um novo capítulo no seu percurso a solo, que tem sido uma evolução na brutalidade, com Punk Authority como pináculo. “Uma pessoa só pode levar a brutalidade e a distorção até um certo ponto. Punk Authority foi um ponto de chegada lógico”, analisa. “Penso que a brutalidade funciona muito bem ao vivo e devo manter a minha abordagem aos concertos durante uns tempos, mas, se fizer um disco, quero que o material seja um pouco mais diverso e dinâmico.”