Resistência terrorista no Cáucaso do Norte persiste, apesar dos milhões gastos por Moscovo para a erradicar

A insurreição rebelde deixou para trás o furor nacionalista que alimentou a guerra da Tchetchénia e converteu-se numa rebelião jihadista, que luta pelo emirado do Cáucaso. Para o International Crisis Group, é o "mais complexo e mais violento conflito armado da Europa".

Foto
Doku Umarov, numa mensagem em video de Março de 2011 AFP PHOTO/HUNAFA.COM

Por que é que o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, ainda não disse uma palavra sobre os dois atentados consecutivos na cidade de Volgogrado?, estranhava Leonid Bershidski, um escritor e comentador político russo que assina uma coluna de opinião na agência Bloomberg.

“Putin costuma reagir lenta e friamente a tragédias públicas, mas Volgogrado – antes conhecida como Estalinegrado – fica a meio caminho entre Moscovo e o recinto dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, que começam em menos de seis semanas. Seria de esperar que o Kremlin tivesse uma resposta mais contundente”, considerou.

O Presidente pode estar a adiar uma declaração pública sobre o caso precisamente por causa da proximidade dos Jogos Olímpicos, especulam alguns analistas. Ao pronunciar-se sobre matérias de segurança, Putin estaria a dar razão àqueles que apontam para eventuais falhas na operação que rodeia o evento. Sempre que foi questionado sobre o eventual “risco” vindo do Cáucaso, o líder russo, que construiu a sua reputação política esmagando os independentistas tchetchenos, desvalorizou a capacidade dos militantes islamistas para atingir Sochi.

Mas, arrisca Leonid Bershidski, além de comprovar a “total ausência de empatia” do Presidente, a reacção de aparente indiferença do Kremlin sugere que os ataques terroristas no Cáucaso do Norte se tornaram já algo de “mundano” e “banal”. “No fim do período de luto pelas vítimas, o governador e os chefes de segurança locais certamente serão substituídos. Sochi será transformada numa verdadeira fortaleza. Mas de resto será business as usual na Rússia, onde uma resistência terrorista continua a existir no Cáucaso do Norte, apesar dos milhões que já foram gastos para a erradicar”.
 
Emirado do Cáucaso
Desde o colapso da União Soviética, em 1991, foram registados 1896 ataques terroristas na Rússia, a grande maioria dos quais nas conturbadas repúblicas federadas do Cáucaso do Norte – Tchetchénia, Daguestão, Inguchétia, Kabardino-Balcária e Karatchaevo-Tcherkessia – predominantemente muçulmanas e reclamadas como território pelo grupo radical islâmico autodenominado “Emirado do Cáucaso”, liderado por Doku Umarov, um separatista tchetcheno declarado “inimigo público número um” pela Rússia.

A região é, de acordo com o International Crisis Group, palco do “mais complexo e mais violento conflito armado da Europa”. O Grupo de Helsínquia, uma organização de defesa dos direitos humanos, descreve a situação caótica nas repúblicas autónomas como “uma guerra civil em larga escala que está em curso entre as forças de segurança e a população”.

Ao fim de duas décadas de violência, a natureza do conflito no Cáucaso do Norte evoluiu de um combate em nome de causas separatistas e nacionalistas para uma resistência a Moscovo de contornos difusos, à qual se acrescenta uma rebelião jihadista: sucessivos incidentes que, segundo os líderes locais, são levados a cabo por “rebeldes islamistas que querem minar a autoridade do Kremlin”, fizeram 1225 vítimas em 2012 e mais 495 mortos nos primeiros seis meses de 2013.

A cidade de Volgogrado funciona como uma espécie de íman para os extremistas, não só pela sua situação geográfica e a rede privilegiada de transportes, como pela instabilidade política do governo local – nos últimos quatro anos, o cargo de governador mudou três vezes de mão, e o actual mandatário, Sergei Bozhenov (um aliado de Putin) é um dos políticos mais impopulares da Rússia.

“A sucessão de ataques em Volgogrado é um sinal de que os militantes podem estar a usar este centro para demonstrar a sua capacidade de atacar além das fronteiras do Cáucaso”, notava ontem a Associated Press, que tal como muitos respnsáveis russos estabelecia uma conexão entre a vaga de atentados e as ameaças feitas por Doku Umarov. Em Julho, o líder rebelde esqueceu que tinha declarado uma trégua aos ataques contra civis no Inverno de 2012 e apelou a uma insurreição “com a máxima força” contra os Jogos Olímpicos de Sochi, que comparou a “umas danças satânicas sobre as ossadas dos nossos ancestrais”.

Os analistas não conseguem estimar a verdadeira dimensão da influência de Umarov nos vários movimentos rebeldes do Cáucaso do Norte. As autoridades russas, concentradas na operação de segurança de Sochi, poderão ter subestimado a capacidade de atracção do seu movimento. “Ele é, em muitos casos, a única referência e esperança para uma população jovem, pobre e desiludida pela situação política a nível regional e federal, com a corrupção, os abusos e o uso arbitrário da força”, explicava Lilit Gevorgian, analista da HIS Global Insight, ao jornal The Moscow Times.

Resposta musculada
A reacção do Kremlin aos atentados dos separatistas do Cáucaso foi sempre musculada – em termos militares e retóricos. Em 2002, o cerco a um teatro de Moscovo tomado por rebeldes terminou quando as forças de segurança russa bombearam gás tóxico para dentro do edifício: os 40 extremistas morreram, bem como os seus 130 reféns. Em 2004, quando os militantes se apoderaram de uma escola em Beslan, as autoridades responderam a tiro, num duelo em que morreram 380 pessoas.

Em Março de 2010, depois de um ataque duplo no metropolitano de Moscovo, Putin (então primeiro-ministro) prometeu “aniquilar os terroristas”, como fizera na sequência dos atentados à bomba de militantes tchetchenos contra edifícios de habitação russos em Agosto e Setembro de 1999 – o episódio que, aliás, justificou a segunda guerra da Tchetchénia, que durou até 2005.

Sob a mão de ferro de Ramzan Kadirov, um homem da confiança de Putin, a Tchetchénia tem sido poupada nos últimos três anos. O epicentro da insurreição islamista e principal foco de instabilidade é, actualmente, o Daguestão (de onde eram provenientes os dois irmãos Tsarnaev, responsáveis pelo ataque à bomba na maratona de Boston, nos Estados Unidos), onde cenas de tiroteio entre as forças de segurança e os rebeldes ocorrem com uma periodicidade semanal.

No início de 2013, Moscovo nomeou Ramazan Abdulatipov para o governo do Daguestão, com instruções claras para recorrer a “todos os métodos” para combater o extremismo e assegurar o sucesso dos Jogos Olímpicos. O novo governador, que descreveu a república como “feudal”, começou por demitir uma série de dirigentes locais, incluindo da polícia, e mandar prender as figuras da oposição.

Segundo Tania Lokshina, da Human Rights Watch (HRW) russa, “os raptos são rotina, os espancamentos e choques eléctricos são comuns”. A comunidade muçulmana salafista é um dos alvos preferenciais de Abdulatipov, por causa da sua ligação à insurreição islamista. Mas as tácticas agressivas do governo do Daguestão estão a servir como “instrumento de propaganda e método de recrutamento para os rebeldes”, nota a responsável da HRW.
 

Sugerir correcção