Opinião

As 200 famílias (nova edição)

O regresso à infância do dr. Pacheco Pereira impeliu esse erudito e estudioso cavalheiro a fazer um desenho, que a televisão mostrou e, ao que parece, foi um “sucesso”.

O desenho tinha duas bolas em baixo, que comunicavam com uma área indeterminada, que supostamente servia para representar a “riqueza nacional”. O caminho para a “bola dos ricos”, como não podia deixar de ser, era uma “auto-estrada”; o caminho para a “bola dos pobres”, logicamente, uma viela estreita. No interesse deste realismo socialista, Pacheco Pereira encheu de dinheiro a “bola dos ricos” e pôs meia dúzia de tostões na “bola dos pobres”. O desenho pretendia explicar a distribuição do dinheiro em Portugal e sustentar a tese original de que o Governo Passos Coelho trabalha para defender os “ricos”, roubando aos “pobres”.

Esta extraordinária catequese da esquerda às vezes dura séculos. Por exemplo: em 1936, durante uma polémica sobre o estatuto do Banco de França, Daladier (um simples radical, mas ministro da “Frente Popular”) inventou a expressão “200 famílias”. Porquê 200? Porque na altura os 200 maiores “proprietários” (de facto, accionistas) do Banco de França (uma instituição privada) elegiam um conselho de regentes, que governava o banco. O salto desses “criminosos” para as “200 famílias” não custou a dar e o salto do banco para o país também não. E assim ficou estabelecido na ortodoxia da esquerda: que “200 famílias” mandavam em França. Uma ideia logo adoptada na Espanha da guerra civil, onde evidentemente se passou logo a acreditar que “200 famílias” mandavam em Espanha.

E a coisa continuou. No seu inesquecível livro Rumo à Vitória o nosso querido e falecido camarada Álvaro Cunhal voltou a lembrar os milhares de patetas, que a seguir “se inseriram” no PREC (e em 2013 já não se lembram), que Portugal não escapara à regra e que “200 famílias” mandavam em nós todos. Por mim, compreendo o embaraço do dr. Pacheco Pereira. Não querendo descer ao nível de Daladier e de Álvaro Cunhal, nem repetir um lugar-comum do folclore da esquerda, resolveu arranjar uma nova maneira de instruir as massas no complicado conceito de “exploração capitalista”. Inventou, então, o desenho das “bolas” e dos “pauzinhos”, a que só falta agora colar umas caras para promover depressa a justa excitação dos trabalhadores. De resto, gostaria de lhe garantir que se distingue sem dúvida pela subtileza e pela oportunidade, e que vai com certeza substituir as “200 famílias” de antigamente.