Morreu Albino Aroso, o "pai" do planeamento familiar

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Albino Aroso manteve-se activo e jovial praticamente até ao fim da vida PAULO RICCA

Médico tinha 90 anos e manteve-se activo até há cerca de duas semanas, quando ficou acamado. É considerado um dos principais responsáveis pela impressionante queda da mortalidade infantil no país

Albino Aroso, o médico que criou a primeira consulta de planeamento familiar e foi um dos rostos da reforma que conduziu à impressionante queda da mortalidade infantil em Portugal, morreu ontem em casa, no Porto, aos 90 anos. "Viveu uma vida muito cheia e morreu serenamente", descreveu Miguel Aroso, um dos netos.

Secretário de Estado da Saúde por duas vezes, o "pai do planeamento familiar" esteve na base da legislação que foi determinante para alterar o panorama da saúde materna e infantil em Portugal. Foi um dos principais responsáveis pela inversão da taxa de mortalidade infantil, que passou das piores para uma das melhores do mundo em poucos anos.

Nascido em Vila do Conde, em 1923, numa família de lavradores, publicou a Lei do Planeamento Familiar quando era secretário de Estado no VI Governo, com Sá Carneiro, em 1976. Mais tarde, quando voltou ao cargo a convite de Leonor Beleza, entre 1987 e 1991, liderou a Comissão Nacional de Saúde Materno-Infantil que encerrou 150 maternidades em todo o país.

"Foi o primeiro médico ginecologista português a lutar pelos direitos das mulheres em geral e pelo direito à contracepção, contra a Igreja e os colegas [de então]", recorda o pediatra Octávio Cunha, que percorreu "milhares de quilómetros" com ele, durante a primeira reorganização dos blocos de parto. Tudo para explicar a médicos, autarcas e cidadãos que fazia sentido concentrar serviços para melhorar as condições de assistência.

A mãe marcou-o profundamente - perdeu o pai aos sete anos - e foi ela quem o conquistou para "a causa" da defesa dos direitos das mulheres. Foi também por conselho do tio, que era médico, contou numa entrevista, que optou por um curso "que pudesse atenuar a vida miserável das mulheres". As mulheres, não se cansou de defender, só deviam ter os filhos que quisessem. Aroso foi pai de sete filhos, que lhe deram oito netos. Licenciado pela Faculdade de Medicina do Porto, começou a trabalhar no Hospital de Santo António, passou por sete países europeus com bolsas de estudo e, regressado a Portugal, foi um dos fundadores da Associação Portuguesa para o Planeamento Familar (APF), em 1967.

Dois anos depois, criou a primeira consulta pública de planeamento familiar, no Santo António. Numa altura em que era proibido receitar contraceptivos, a consulta foi um rotundo sucesso. Já como director do Serviço de Ginecologia do hospital, determinou que as mulheres que chegavam à urgência com complicações após um aborto teriam direito a anestesia, antes da evacuação do útero.

Mas foi após o 25 de Abril que deixou a sua marca. "Andava pelas aldeias do Norte a fazer sessões sobre contracepção, numa região e num tempo em que era difícil falar destas coisas", vincou Duarte Vilar, da APF.

Já octogenário, voltou a integrar uma comissão que fechou mais 15 blocos de partos, no tempo do ex-ministro da Saúde Correia de Campos. "Era provavelmente a nossa grande referência viva", disse ontem o ex-governante. "É uma grande perda", corroborou outro ex-ministro, Paulo Mendo.

Homem de direita, Albino Aroso foi ainda um activista da despenalização da interrupção voluntária de gravidez. Condecorado por três Presidentes da República, foi o primeiro galardoado com o Prémio Nacional de Saúde, em 2006. No ano anterior, tinha sido considerado pela Associação Médica Mundial um dos 65 clínicos "mais dedicados" às causas públicas.

O director-geral da Saúde, Francisco George, definiu-o como "o médico que mais contribuiu para a elevação do nível de saúde de Portugal" e o Presidente da República recordou-o como "um exemplo notável de médico humanista, que dedicou o seu profundo saber e grande experiência à causa pública". "A medicina portuguesa está de luto", sintetizou o Ministério da Saúde.

Albino Aroso manteve a jovialidade até ficar de cama, há cerca de 15 dias. Lia e anotava revistas como a Time e a Science, que reencaminhava para filhos, netos e amigos. "Vivia para aprender e questionar. Perguntava: "Como será o universo daqui a três milhões de anos?" Fazia sentir fossilizados muitos jovens", remata o neto.

O corpo de Albino Aroso está em câmara-ardente na Igreja da Lapa.Após missa, às 15h, o funeral sai hoje para Canidelo, Vila do Conde.