Opinião

Os dias da pinha

Hoje aproveitam-se não só os pinhões como as madeiras e as resinas, para rebuçados e perfumes.

A segunda-feira passada foi Dia da Pinha aqui em Colares. Os pinhais do Mucifal e do Banzão estavam cheios de apanhadores de pinhas verdes. Demos com um amigo nosso com uma saca cheia. "Isto é um vício!", disse, com um sorriso viciante.

Mostrou-nos duas pinhas, bonitas, pegajosas e fragrantes de resina fresca. Tinha aberto a época da apanha da pinha. Havia camionetas de compradores a oferecer 60 euros por quilo.

Muitos dos apanhadores também andam no mexilhão, no percebe e no polvo. Mas é uma pesca mais difícil, que rende menos do que as pinhas. Diz-se que, neste ano de 2013, os pinhais de Alcácer do Sal e do Pinhal Novo andam parcos de pinhas e que os de Colares tiveram a honra de os substituir.

Lembro-me do maravilhoso António Saraiva, que morreu este ano, a explicar-nos, no maravilhoso restaurante da família dele, em Nafarros, que todos estes pinhais foram plantados na terra onde apenas havia vinhas, quando Colares deixou de ser a região vinícola mais importante do centro e do Sul do país.

"Raios partam os cimentos, os pinheiros e os passarinhos", dizia ele, lamentando o declínio do Ramisco e da Malvasia.

Os pinheiros podem ser novos, mas os hábitos modernizaram-se. Dantes vinha gente de Abrantes que assava as pinhas, cobertas por mantas de caruma, só para vender os pinhões. Viviam um mês inteiro nos pinhais.

Hoje aproveitam-se não só os pinhões, como as madeiras e as resinas, para rebuçados e perfumes. Nada se perde: tudo se ganha.