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Em defesa do trabalho intelectual

O estímulo, desenvolvimento e aproveitamento do pensamento humano é o responsável por termos saído da idade da pedra e termos chegado ao mundo desenvolvido do nosso tempo

Portugal é um dos países da OCDE com mais baixo nível de escolaridade. Para além de outras, isso tem duas consequências muito notórias e nefastas: a baixa produtividade do nosso país e uma desvalorização mesquinha do trabalho intelectual.

São demais aqueles que dizem que os intelectuais não trabalham (limitam-se a pensar) por contraposição aos trabalhadores que carregam batatas, montam tijolos ou vendem automóveis, esses sim, os que verdadeiramente labutam. Pois que do suor do corpo sai o pão nosso de cada dia e do pensamento, apenas frivolidades.

Esse desprezo pela função intelectual é inquietante. É que sem essas funções intelectuais continuaríamos a ser apenas o Homo erectus, e nunca o Homo sapiens sapiens. Ser o “humano sabedor sabedor” significa que somos o primata que se distingue dos outros por pensar mais, ter uma cultura complexa, um pensamento crítico e criativo e uma consciência alargada.

O estímulo, desenvolvimento e aproveitamento do pensamento humano é o responsável por termos saído da idade da pedra e termos chegado ao mundo desenvolvido do nosso tempo.

Sem o árduo trabalho intelectual dos cientistas não teríamos medicamentos, hospitais, aviões, computadores, Internet, telemóveis, televisão, carros, prédios, o aproveitamento da electricidade ou a energia nuclear. Bem que podíamos apelar à nossa força braçal que jamais construiríamos uma ponte sobre o Tejo sem os cálculos provindos do pensamento dos engenheiros e dos físicos.

Note-se que o mal não está em se valorizar o trabalho braçal ou não intelectual. Esse trabalho é valoroso e, mesmo que cada vez mais as máquinas (inventadas pelo pensamento humano) o façam com vantagem, ainda falta muito para que possamos dispensar todo o trabalho humano não intelectual. O mal está na desvalorização do intelectual. De resto, e como sempre, há bons e maus trabalhadores. Há bons e maus trolhas como há bons e maus filósofos. Mas ambos devem ser respeitados e valorizados quando são bons.

O trabalho dos professores, médicos, juízes, filósofos, cientistas e criadores artísticos é definidor de civilização. É graças a eles que temos o bem-estar material e imaterial próprio da modernidade. Não perceber isso, e desvalorizar esse mesmo trabalho, é perigoso. Se abalarmos as condições institucionais e culturais para que esse trabalho floresça (desvalorizando-o ou cortando-lhe os fundos financeiros), estamos a condenar o futuro.

Ser humano é ser pensador. Colher os frutos do pensamento é um sinal de inteligência. De resto, e como dizia o psicólogo alemão Kurt Lewin, não há nada mais prático do que uma boa teoria…