Opinião

Felicidade pública (8): privilégios e urgências de uma escola onde se voa

Birds born in a cage think flying is an ilness/ Os pássaros nascidos em gaiolas pensam que voar é uma doença.” Alejandro Jodorowski

Em 2014 celebram-se quatro séculos sobre a morte do pintor eternamente associado a Toledo, El Greco. Dele afirma Fernando Marías, o comissário científico da fundação que em Espanha anima as celebrações, que El Greco não pintou imagens, mas seres vivos em ação dinâmica, na comoção emotiva que os faz estar em movimento. Diz ainda que foi incompreendido na sua época por introduzir incorporalidade e diferente matéria ao que é de carne e osso, trazendo ao real componentes visuais e sensuais que inventaram novas formas, melhores do que as da terra, para pintar o invisível, deixando a todos o legado de um mundo que nunca chegou a acontecer.

Extasiada com o território de possibilidades criadas por um pintor – por tantos pintores, músicos, ensaístas, dramaturgos, cineastas, filósofos.... – leio o livro de Martha Nussbaum (2010), Not for Prophit – why democracy needs the humanities e mergulho na forma incisiva, que partilho, como analisa e critica o facto de termos vindo progressivamente a excluir as artes e humanidades dos nossos currículos escolares, arriscando-nos assim a colocar em perigo a democracia.

A escola ficou de tal forma colonizada pela educação para o emprego, e para o sucesso pessoal e tecnicista, que perdemos o rasto do verdadeiro sentido das coisas. Esta educação para os resultados e para o crescimento económico, ela mesma comercializada e tão frequentemente focada na produção económica e no lucro, uniu energias a uma ciência hiper-obcecada com a objectividade e a quantificação da experiência humana, e deixou-nos basicamente órfãos na preparação para uma competente cidadania e para uma vida coletiva de qualidade.

Ao intersectar a epidemia do capitalismo liberal com as metas educativas, fertilizámos nos alunos o silenciamento das suas vozes criticas, e compusemos um quadro de natureza-morta, com seres inanimados, despejados de futuro e de um presente sem propósito. Não nos queixamos por isso da sua apatia, desmotivação e fraco compromisso – ou do nosso próprio.

Se na educação houver a depredação de formas diferentes de pensar e atuar, apaixonadas, intensificadas – quantas vezes evitamos outras perspetivas, silenciamos críticas, relegamos e suprimimos sentimentos e emoções, depreciamos o (respeitoso) toque físico, desinvestimos em expressões artísticas e, quando as há, desejamo-las repetitivas e iguais – pomos em risco a capacidade de reflexão, o pensamento crítico e a possibilidade de sentir com o Outro.

Porque têm de ser verdes as árvores desenhadas pelas crianças do 4.º ano, de qualquer escola portuguesa? Porque é enviada ao gabinete do psicólogo a menina que pintou tudo de uma só cor (e então se for de preto, pressupomos que se avizinha, seguramente, grave patologia no horizonte)? Porque é preciso dar desalentadoras ‘secas’ moralizadoras aos alunos sobre cadeiras, carteiras, ou portas de casa de banho escrevinhadas, ou sobre copianços? Porque precisam hoje as universidades de comprar programas informáticos para identificar plágios? Porque haverá alunos a passarem a outros apontamentos das aulas com erros intencionais, para que os colegas tenham notas (mais) fracas?

Talvez se em vez de dizermos que as árvores são verdes, dissermos, como afirmava esta semana numa aula do ISCSP o nosso colega canadiano, Christopher Kinman, que estão “a esverdear” ou a “amarelar”; se em vez de darmos só estatística, trabalharmos juntos, alunos e professores, em teoria e na prática, a excelência moral; se gerarmos redes de criação, debate e pensamento livre e renovarmos o ensino artístico, literário, filosófico, lúdico, desde cedo e sempre nas escolas; e se não tivermos medo, nenhum de nós, do confronto de perspetivas bem fundamentadas, nem de outras formas de ser escola, que não apenas a instrumental... algo mude e ajude a catalisar uma democracia transformada e humanizada.

O movimento dado pelas palavras, pelos sons e pelas imagens nas artes, o estímulo ao questionamento denso e ao contraditório, a elevação humana das virtudes, as formas múltiplas de abordar a vida (cognitiva e abstrata, mas também táctil, emotiva, expressiva, relacional, moral, inventiva, diferenciadora...) permitirá uma liberdade de ação e um dinamismo mais próprio de uma “escola com vida” e de uma perspetiva crítica e igualitária sobre o estar em sociedade.

Olhar um quadro, ler uma poesia, ser espectador ou participante num teatro ou concerto, mergulhar num documentário, permite discutir significados e sentidos, desmultiplicar olhares. Leva-nos incomparavelmente mais longe que a mera contemplação de obras, ou que a assimilação tantas vezes acrítica e sonsa de conteúdos e de programas, dedicados ao estrito final objetivo de se ser avaliado – ato que tanto inquieta e perturba alunos, docentes, famílias, e as suas relações.

Essencialmente, as artes e as humanidades lançam-nos, como relembra Martha, não na busca do impossível controlo pessoal sobre a existência mas, em alternativa, no reencontro com a empática interdependência e a necessidade da mutualidade e da cooperação, sem as quais não há verdadeira e vital democracia (há um par de meses, uma mãe de uma família numerosa dos Açores, que recebe um pecaminosamente ínfimo rendimento social, e cuja vida não faz inveja a ninguém, apareceu-me com um livro escrito e desenhado por ela para ajudar as relações sociais entre os miúdos nas escolas e tentar debelar o bullying. Um dos seus filhos, com uma doença que lhe atrasa visivelmente o desenvolvimento, sofre dura e diariamente às mãos dos colegas, e ela quer acabar com o flagelo e ajudar muitos outros no caminho. Infelizmente ainda não consegui interessar nenhuma editora...).

Veja-se a realidade como se vir, olhe-se do ponto de vista que se olhar, a física ou a química são sempre as mesmas; sinta-se a realidade de uma perspetiva humana e própria, e de um ângulo artístico, e cada música, cada texto literário, cada pintura, frutificará diferente e exclusiva.

As artes e as humanidades não podem continuar a ser elitistas. Sublinhe-se: as produções culturais não são meros passatempos para intelectuais; permitem inaugurar debates, elaborar ativismos, pensar a existência coletiva, desconstruir (Veja-se o caso da sida e do HIV, em que a plataforma artística tem permitido um debate social irreverente, e uma visibilidade silenciada por outros meios, ou o poder dos filmes experimentais, dos graffiti ou dos cartoons humorísticos na imaginativa censura social).

Ao esvaziarmos a escola de conteúdo artístico e humanístico (e à medida que se avança nos níveis de ensino, esse esvaziar é cada vez mais óbvio, e a competição por resultados cada vez mais dramática, numa espécie de carnificina moral e relacional), convidamos a ter alunos e professores de pedra, e a uma educação frouxa, onde se espera que cada um se abstenha, ou se fixe, não nas ideias, reflexões, expressões, debates, possibilidades, poesias, relações, sentires, mas num power point longínquo que nos afasta – no olhar que assim já não cruzamos, na distância que por isso se impõe (ainda há dias pedi aos meus alunos, a quem admiro, que se chegassem à frente e povoassem as vazias cadeiras das posições mais próximas para nos sentirmos um grupo, e ouvi como resposta: “Professora, aqui vêem-se melhor os slides”).

A nossa maior indisciplina na escola é dicotomizar o seu mundo interno: os bons e os maus alunos; os criativos e os desinteressantes professores; os motivados e os desligados; os com futuro e os sem; os que aprendem e os que ensinam; os docentes e os encarregados de educação; os hiperativos e os calmos; os disléxicos e os bons leitores, os que educam e os que ensinam.... Estampamos nomes. Abrimos valas. Tatuamos destinos. Desviamo-nos do essencial. E perdemos a arte de uma vida digna em comum.

A comunidade intelectual tem de deixar de ser este lugar segmentado, estropiado, onde muitas vezes já nem se provoca o pensamento, quanto menos a imaginação, e onde separamos a ciência e a técnica da forma artística e humanística de representar e compreender o mundo.

A tirania dos bens materiais fez-nos deixar de ensinar (co-construir) o combate pela justiça; o verdadeiro estimulo à diferença; o apelo à empatia; o vibrar com as emoções (dou um outro exemplo: nas minhas aulas pode-se partilhar comida. Receosos, alguns alunos alegam contra, ao referir que já noutras instituições educativas foram alvo de queixas ao conselho pedagógico por docentes que se chocaram com o ato deles comerem nas aulas. Concluo: como a comida nos iguala e aproxima, cria comunidade – o cum–unus – virou subversiva, tal como o riso, e ambos se transformaram hoje, em muitas escolas, em atos políticos).

É claro que menos pensantes somos mais controláveis; que mais incapazes de ver e idealizar mundos onde ainda não existem, ou mais limitados em responder com diferentes e fundamentadas perspetivas, seremos mais submissos.

Viveremos por isso uma democracia de baixa intensidade, reduzida a uma espécie de arbitragem dos insensíveis egoísmos individuais ou da tremenda luta pela sobrevivência.

Não se trata, naturalmente, de objetar contra uma boa educação técnica e científica, mas de a troco dela não perder outros bens essenciais, que Martha nos relembra estarem em perigo de extinção: pensamento crítico, capacidade de transcender as lealdades locais e individuais; arriscar imaginar; compreensão empática; capacitar pelas artes e pela filosofia.

Sem este retorno, a escola arrisca-se a ser um instrumento de construção de lugares-comuns, a mera morfologia de coisas acidentais. Confio que em breve deixaremos de estar subjugados ao mesmo monocórdico senhor, o poder económico, e voltaremos a perceber a urgência de investir nessas extravagâncias que são as artes e as humanidades.

Sou testemunha de um afã já pressentido em tantos atores escolares desinstalados, e convertidos em criadores de realidades policromáticas, capazes de coadjuvar outros na compreensão das essências. Assim teremos diversos e modernos El Grecos, que nos ajudarão a pressentir novas formas, bem melhores do que as que agora vemos, para pintar, cantar, poetizar, esculpir, documentar a bela realidade que é (ainda) invisível, mas depressa se abrirá, florindo, aos nossos olhos. O prazer visual, o êxtase musical, as palavras divinas andarão de mãos dadas com a ciência e a tecnologia, e voltarão a ser inequivocamente socializadas e socializadoras, numa escola que permite voar.

Helena Marujo é professora universitária no ISCSP/UTL. A autora escreve ao abrigo do acordo ortográfico.

PS: Este texto é uma homenagem a todos os professores, educadores e gestores escolares que diariamente promovem e defendem as artes e humanidades na sua formação e na dos mais jovens.

Referências:
Marías, F. (2013), El pintor de las mil caras, Babélia, Jornal El País, 14 de Dezembro, pp. 4-5.
Nussbaum, M. C. (2010), Not for profit – Why democracy needs the humanities, Princeton: Princeton University Press.