A montanha

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Como Fernando Guerreiro recordou recentemente em O Cristal da Montanha, um artigo sobre a imagem alpina no cinema, na pintura e na literatura (disponível em linha em lyracompoetics), os Alpes suíços foram durante muito tempo a última região “por descobrir” do Ocidente europeu, fonte de terror, espanto e fascínio. A criação do nome “Monte Branco” para substituir “montanhas malditas” ou designações afins só ocorreu em meados do século XVIII. A tela de Verhaecht é muito eloquente deste ponto de vista, além de muito bela.


O sol irrompe por entre as nuvens e a paisagem brilha na luz ou mergulha na escuridão do fim do dia. O primeiro plano, em tons de terra, é o nosso lugar, de onde olhamos assombrados a incomensurável distância que, à medida que se perde no horizonte, nas nuvens e na luz, adquire tons de gelo, um azul-branco que queima os olhos. O pintor negoceia cuidadosamente a transição entre o mundo dos homens e a montanha selvagem e mortal. Figuras de pessoas e animais, casas, pontes, embarcações, uma cidade longínqua à beira de um grande lago, localizam-se cada vez mais longe e, à medida que entretêm o olhar do observador com as histórias que talvez narrem, vão também perdendo os tons da terra e sendo absorvidos pela abstracção fria do gelo.


Nas partes mais sombrias da pintura, em cima, o mistério da montanha é suavizado por um bando de aves brancas que voam em formação ou pelas cores liquefeitas do espectro solar que ilumina as nuvens. Todavia, e paradoxalmente, estes sinais de transição são reversíveis: de cada vez que deles nos desprendemos, a montanha gelada e o silêncio obstinado dos sítios onde não há vida parecem crescer do fundo e descer dos altos sobre a loquacidade pitoresca das figurinhas humanas e das suas histórias.

 

Crónica publicada na Revista 2 de 15 de Dezembro de 2013

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