Reportagem

Oitocentas pessoas para contar, um por um, os sem-abrigo de Lisboa

As sete mil ruas de Lisboa foram percorridas por centenas de voluntários da Santa Casa durante a noite de quinta-feira com o objectivo de contabilizar os sem-abrigo da capital. O número final é conhecido em Janeiro.

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Sem-abrigo procuram oportunidade para reintegração Tiago Machado/Público

João Manuel Lourenço. Assim mesmo, sem receio de revelar o nome completo. Há quatro anos trabalhava na construção civil. Não esconde o orgulho que tem no seu currículo, que inclui a Ponte Vasco da Gama. Esteve também nas obras do viaduto de Santa Apolónia. “Trabalhei neste viaduto”, diz e aponta para cima. “Quem diria que seria a minha casa.”

Na rua desde 2009, o PÚBLICO encontrou-o a arrumar o colchão e a preparar-se para dormir. Carrega nos r quando fala, mas o pior que lhe podem fazer é duvidar da sua origem. “Sempre a perguntar se sou de Lisboa! Claro que sou de Lisboa. Não é só em Setúbal que se fala assim.” Durante a conversa, João raramente desvia o olhar do viaduto que também é seu. Se as coisas tivessem corrido bem, o que gostaria de ter feito? “Não me importava de continuar com o meu trabalho.”

A mesma resposta será repetida durante a noite por outros sem-abrigo, como ele. Não é o impossível que pedem. Não é dinheiro, nem sequer comida o que mais desejam, mas apenas abandonar a estatística da exclusão. O objectivo final da acção que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) tem levado a cabo nos últimos meses é justamente esse: tirar as pessoas da rua. Mas, para isso, é preciso saber quantas são, numa altura em que se calcula que a crise económica e o empobrecimento levem cada vez mais gente a viver nas ruas.

Durante a noite desta quinta-feira, mais de 800 voluntários – um número que excedeu em larga escala as expectativas mais optimistas dos organizadores – bateram a pé as 24 freguesias da capital para contar todos os sem-abrigo na cidade, um por um. João Marrana, coordenador do projecto Intergerações da SCML, era um homem contente. “A grande vantagem é tentar que este dia nos dê a credibilidade dos números”, explica. Com uma contagem feita numa única noite e em sete mil ruas em simultâneo, pretende-se evitar duplicações ou omissões criadas pela mobilidade própria desta população. Esta noite, os voluntários não foram aconselhados a interagir, apenas registam o número, a idade aproximada e o sexo – algo que muitas vezes é mais difícil do que se possa pensar.

Os resultados finais são conhecidos em Janeiro e, a partir daí, a Santa Casa vai adaptar a sua política de intervenção. O levantamento de quinta-feira é “o último exercício de um trabalho desenvolvido nos últimos nove meses”, explica Marrana. A interacção com os sem-abrigo foi feita noutras ocasiões. “Até os levámos ao teatro e à bola”, conta.

Os únicos dados sistematizados sobre a população de sem-abrigo em Portugal são do Instituto Nacional de Estatística (INE), que, pela primeira vez, os contabilizou no Censos de 2011. A contagem apontou para 696 pessoas em todo o território, 241 só em Lisboa. O número parece baixo, pelo menos para quem faça à noite um pequeno passeio pela cidade. A Santa Casa quer um número rigoroso e utilizou pela primeira vez um método especificamente criado para contabilizar esta população.

O valor de um prato de sopa
Às 21h, começa a reunir-se a equipa de voluntários que vai percorrer as ruas da Freguesia da Misericórdia. O ambiente é de descontracção, até de brincadeira. É gente dali, que se conhece há anos, e muitos são veteranos nestas andanças. A um canto, um jovem destaca-se pela timidez e sorriso constante. Fala como um voluntário e conta que soube da iniciativa no site do Intergerações da Santa Casa. Mas quando lhe perguntamos se é a primeira vez que trabalha com sem-abrigo, Carlos (nome fictício) pede com gentileza para sair do edifício da junta e falar lá fora. Não é fácil responder. Há quatro meses, vivia, ele próprio, na rua. Costumava dormir perto de Santa Apolónia, provavelmente não longe do viaduto.

Não esquece a ajuda que teve e é isso que quer retribuir. “Aquele prato de sopa valeu…” Não termina a frase, mas a sua emoção diz o resto. Durante dois anos, Carlos viveu na rua. Sabe o que isso é e por isso está aqui. “Tudo o que possa fazer para os ajudar [os sem-abrigo] não vai chegar.” Neste momento, está a tirar um curso profissional de logística no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e tem a certeza de que não vai regressar à rua.

Durante uma hora, a equipa percorre várias ruas da zona do Cais do Sodré sem avistar um único sem-abrigo que inaugure o registo. Ainda era cedo e a noite estava amena.

Às 23h, em Xabregas, Silvana Gordo é claramente a líder do grupo de voluntários do bairro. Não é por acaso. É uma autêntica campeã da sociedade civil, colabora com a Junta de Freguesia do Beato e com uma quantidade imensa de grupos e associações. Conhece muitos sem-abrigo, sabe por onde costumam parar. A certa altura, aponta para um morro com casas em ruínas. Silvana tem um colete da Protecção Civil, mas mesmo assim não quer entrar. Não é a sua freguesia e um sem-abrigo que ali mora tem acessos de violência.

Na Rua Gualdim Pais, em frente ao Mercado de Xabregas, um palacete outrora grandioso, hoje em ruínas e coberto de folhagem, parece oferecer a oportunidade perfeita para encontrar o “alvo” da noite. O registo, também aqui, está praticamente em branco. Para conseguir entrar, o grupo trava uma luta entre os galhos das árvores e os dejectos deixados ao acaso. Lá dentro, as paredes destruídas separam as divisões cobertas de colchões, jornais, bacias e blocos de pedras. “Há indícios de que alguém mora aqui”, notam, talvez seis, mas não se vê vivalma. “Tem sido assim a noite toda”, diz Silvana.

A falta de sem-abrigo à vista desarmada não compromete o levantamento em curso. Para além das observações directas, as equipas têm instruções para registar os indícios de permanência de pessoas, como colchões, almofadas ou cobertores. Na verdade, aquela equipa viu apenas um sem-abrigo durante toda a noite. “É por ser cedo, estão a arrumar carros”, diz Silvana Gordo. “Mas sei que eles vêm para aqui.”

“Na rua tens a liberdade toda”
Debaixo do viaduto de Santa Apolónia, Luís, 34 anos, arruma um saco com comida. Aceita falar, mas nada de fotografias. Conheceu a rua pela primeira vez aos 14. Mais tarde conseguiu um trabalho como pintor da construção civil, mas tudo mudou quando foi condenado a uma pena de prisão de 15 anos. Por roubo, diz. Não é demasiado tempo para roubo? “Também houve agressão.”

Mal saiu da prisão, ao fim de dez anos, Luís apercebeu-se de que iria voltar à rua. O frio é o que lhe custa menos. O pior é a falta de banho, que o impede, diz, de conseguir trabalho. “É a higiene como todo o ser humano tem direito.” Entre a vida nas ruas e a vida na prisão não encontra grandes diferenças, à excepção de uma. “A liberdade. Na rua tens a liberdade toda.” Agora, Luís quer endireitar a vida. “Nada de porcaria, já chega.” Vai fazendo uns biscates para juntar dinheiro para uma renda, mas às vezes o desespero é grande. “Já me apeteceu [voltar ao crime]. Estou a ver que não se consegue nada aqui, neste país, porra!”

Aos 53 anos, João Manuel Lourenço também não tem esperança. “Já não digo nada. O Governo é uma merda”, diz o ex-operário, sempre de olhos no “seu” viaduto. Não lhe resta muito mais para onde olhar.
 
 

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