Alegado intérprete de língua gestual no funeral de Mandela já tinha sido acusado de vários crimes

Não foi a primeira vez que Thamsanqa Jantjie fez de tradutor no funeral de um activista anti-apartheid. Homem insiste que é um intérprete certificado por uma universidade que não existe.

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Thamsanqa Jantjie ao lado de Obama Kevin Lamarque/Reuters

Homicídio, violação, assaltos a residências e sequestros. O alegado intérprete de língua gestual que acompanhou as cerimónias fúnebres de Nelson Mandela na terça-feira enfrentou no passado uma mão cheia de acusações criminais. E esta foi a segunda vez que inventou gestos no funeral de uma importante figura da luta anti-apartheid na África do Sul.

Segundo avança nesta sexta-feira o canal de televisão sul-africano eNCA, que teve acesso a documentos judiciais, Thamsanqa Jantjie, de 34 anos, foi acusado de homicídio, tentativa de homicídio e sequestro em 2003, juntamente com outras pessoas. O processo foi remetido para o Tribunal Superior de Gauteng em 2004 e concluído em Novembro de 2006, mas desconhece-se o resultado.

Já antes tinha sido acusado de violação, em 1994, crime do qual foi absolvido. Em 1995 e 1997 foi acusado de roubos e assaltos a residências, pelo que foi condenado a três anos de prisão. Não se sabe se cumpriu a sentença.

O suposto intérprete, que a Federação de Surdos Sul-africana diz ser “falso”, disse nesta quinta-feira ao jornal Star de Joanesburgo que sofre de esquizofrenia e que teve um ataque durante o evento. Jantjie disse que começou a ouvir vozes e a alucinar enquanto estava em palco, ao lado de figuras como o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que esteve presente no funeral de Mandela – o líder histórico da África do Sul morreu a 5 de Dezembro. Foi por isso, garante, que os gestos que fez não correspondiam ao discurso dos oradores.

Segundo a eNCA, muitas das acusações criminais contra Jantjie foram retiradas precisamente devido aos problemas mentais que o homem diz ter e que o impediam de ser julgado. Jantjie recusou comentar estas acusações e as autoridades não confirmaram nem negaram a existência das mesmas, indica a televisão sul-africana.

Homem já tinha sido denunciado
Esta não foi a primeira vez que a comunidade surda viu Thamsanqa Jantjie no lugar de intérprete num funeral oficial: foi também ele quem traduziu os discursos de homenagem a Albertina Sisulo, que morreu a 2 de Junho de 2011, conhecida como “Mama Sisulu”, activista sul-africana contra o regime do apartheid e viúva de Walter Sisulu, ex-secretário-geral do Congresso Nacional Africano (ANC).

Nessa altura, um assistente gravou o alegado intérprete, escreve o El País. No vídeo pode ver-se o homem a fazer gestos que também parecem não fazer sentido. Segundo este jornal espanhol, a Federação de Surdos da África do Sul denunciou a situação ao ANC, mas não obteve resposta.

O homem garantiu ao Star que é intérprete de língua gestual qualificado por uma universidade britânica, a Universidade de Tecturers, a qual frequentou durante dois anos. No entanto, numa busca na Internet, não existe qualquer referência a esta instituição.

O jornalista pediu-lhe que mostrasse os seus certificados de habilitação, mas Jantjie alegou ter deixado os documentos numa pasta dentro de um carro desde que recebeu um telefonema do gabinete da presidência da África do Sul, a questioná-lo sobre as suas habilitações e detalhes sobre quem procurou os seus serviços. O carro não estava em casa no momento da entrevista, acrescentou.

Jantjie disse ainda que no dia da cerimónia tinha uma consulta marcada no Hospital Psiquiátrico de Sterkfontein para receber tratamento para a esquizofrenia. No entanto, adiou a consulta para poder estar presente naquele momento histórico.

Empresa não existe
O Star acrescenta que teve acesso a documentos que atestam que Jantjie trabalha para uma empresa chamada SA Interpreters e que já prestou vários serviços ao ANC no passado – um deles em Junho passado, pelo qual o ANC terá pago 6000 rands (439 euros). Mas, tal como a universidade, também a empresa parece não existir.

Khusela Sangoni, do ANC, argumentou que Jantjie foi escolhido para acompanhar as cerimónias fúnebres de Mandela porque se ofereceu como voluntário, dizendo que era um intérprete habilitado e com acreditações. Nestas condições, a organização nem sequer confirmou se a empresa na qual ele trabalha existe ou não. “Quando uma pessoa chega e oferece os seus serviços como voluntário, não acho que nesse processo tenhamos de verificar se a empresa é falsa ou não”, afirmou.

O caso levantou questões sobre como é que Jantjie, que esteve lado a lado com Obama e com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, entre outros líderes mundiais, conseguiu passar em todos os procedimentos de segurança. O Governo diz que a segurança nunca esteve em causa, mas está a averiguar como é que o homem obteve autorização para participar na cerimónia.

Já nesta sexta-feira, o ministro de Arte e Cultura sul-africano, Paul Mashatile, disse que o Governo vai regular a profissão de intérprete com uma nova lei, a aprovar no próximo ano. "Pedimos desculpa aos surdos e a todos os sul-africanos por qualquer ofensa que tenham sofrido", disse o Governo, em comunicado. "Esperamos começar a regular a profissão no início de 2014, através da lei do conselho de intérpretes da África do Sul, para que este incidente nunca mais se repita", acrescentou.