O renascimento dos Dealema

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Dezassete anos depois do seu nascimento, criam, com Alvorada da Alma, um clássico instantâneo.

À primeira vista podem parecer preguiçosos: do disco de estreia, de 2003, ao segundo, V Império, foram cinco anos; o terceiro, A Grande Tribulação, apareceu em 2011: em 14 anos de existência, um trio de discos. Mas olhe-se com atenção e o cenário altera-se: pelo meio lançaram EPs, andaram em digressão, editaram a solo, tocaram com projectos paralelos, numa actividade incessante que lhes vale um culto nada negligenciável. E agora, 700 e tal dias após A Grande Tribulação, surge Alvorada da Alma, o quarto disco da carreira deste grupo nortenho – e um álbum tremendo. É raro que um grupo atinja o pico de forma ao fim de 17 anos, e que seja nessa altura que se torne mais prolífica e que se reinvente com a classe demonstrada em Alvorada da Alma. “Somos cinco, temos gostos diferentes, é mais fácil reinventarmo-nos”, diz Maze, que com Mundo, DJ Guze, Ex-Peão e Fuse compõe os Dealema. Foi com ele, com Ex-Peão e com Fuse que o Ípsilon falou acerca do portento que é Alvorada da Alma, disco que apresenta um elenco de convidados admirável, que inclui Ace (Mind da Gap), Nbc, Marta Ren, Dino de Santiago, Sam The Kid, Manuel Cruz (dos Ornatos Violeta, que está em grande forma aqui), Woyza e Nach (ambos de Espanha), Emicida (Brasil) e Kid Mc (Angola).

“Vimos de lugares diferentes”, diz Ex-Peão, corroborando a tese de Maze de que é mais fácil quando há muita gente na banda e de origens diversas. “Uns de Gaia, outros do Porto. A minha infância ou do Fuse em Ramalde não se compara com a do Maze no Porto. Somos tão diferentes que algo de novo surge sempre”. No passado, recorda Fuse, passaram pelo metal, hard-core, pela electrónica experimental. Mas em Alvorada da Alma estão longe desses géneros: o álbum vai do hip-hop mais clássico ao r’n’b, está repleto de rimas e melodias memoráveis e em todas as esquinas líricas apresenta uma mensagem de esperança inusual no hip-hop de hoje. É um clássico imediato, cheio de classe e savoir faire.



Algo de positivo para o mundo

Esta maturidade não é fruto do acaso. Maze, o mais meticuloso dos três, assinala que aos 17 anos de existência da banda chegaram “ao fim da adolescência”. “Agora somos finalmente adultos”. Fuse, o mais relaxado, sempre escondido atrás dos óculos escuros, considera que esta viragem “tem a ver com a idade”: “Chegas aos trinta e tal e lembras-te do que gostavas quando eras miúdo e quando te apaixonaste por esta cultura”. O que se passou ainda não é claro para eles: A Grande Tribulação era o seu disco “mais negro e menos comercial”, mas por alguma razão pegou e “estes dois últimos anos têm sido incríveis”. “Temos tocado em locais que não lembram a ninguém e toda a gente sabe as letras. É surreal”.

A estrada é algo a que dão importância: “Entre os dois primeiros discos há um intervalo de cinco anos. Nessa fase fizemos muita estrada e foi importante, porque ganhámos muitos fãs”. Nos últimos dois anos, aliás, notaram que o culto aumentara: “Há os irmãos mais novos, os filhos que vêm com os pais, toda uma nova geração que está mais preparada para o hip-hop”, assinala Fuse.

Não são estrelas – aliás, Ex-Peão, com o humor mais seco dos três, diz que são “os SantaMaria sem o cash”, tanto é o alcatrão que papam. O MC assinala que “o Mundo é o único que vive exclusivamente da música”. E depois com sarcasmo atira: “Dedicamo-nos à venda de drogas e armas”. Está a gozar com aquele tipo de MC que glorifica a violência. O negócio dos Dealema não é esse. Eles querem, sem pedagogias fáceis, trazer algo de positivo para quem os ouve. “Queremos fazer uma geração acreditar. Não precisamos de falar de vendas de armas e drogas”, diz Ex-Peão.

Isso é claro num disco em que a cada par de rimas se fala de luta e esperança: “Isso sempre esteve presente nas nossas vidas. Se soubesses o que cada um de nós já passou... Agora: depois disso como é que se pode fazer uma música como o Bom dia [deste disco]? Só podes”, afirma Ex-Peão. Todos corroboram a ideia do MC. Exemplos:

Maze: “Essa mensagem de luta, queremos ter sempre um lado positivo, de as pessoas lutarem por elas”.

Fuse: “Já nem consigo ouvir música negativa. Se a música puder contribuir para a vida de alguém, melhor”.

Dão o exemplo de Common: um rapper que não precisa de falar de armas e drogas e tornar-se uma caricatura para fazer grande música. Não é por acaso que este cavalheiro do hip-hop é mencionado. Quando saíram do mundo negro de A Grande Tribulação, os Dealema, segundo Ex-Peão, decidiram que queriam “o oposto do disco anterior: mais melódico, mais soul, mais clássico”. Evocaram, conta Fuse, “Alicia Keys e John Legend, que nos primeiros discos eram clássicos e depois a soul desvaneceu-se; queríamos o oposto: caminhar para o clássico”. Maze acredita que “este disco pode levar [os Dealema] a mais gente. O sampling anda à volta dos metais. Os samples de funk e soul facilitam”. A maior parte dos instrumentais é de Mundo, havendo ainda produções de Sam The Kid, Ex-Peão (que produz a música com Manuel Cruz) e Maze. A onda dos Dealema está a ganhar corpo, e agora sonham com a internacionalização: Brasil, Angola, Moçambique, locais onde têm fãs que através das redes sociais lhes dão retorno do seu amor. E têm toda a razão para acreditar neste renascimento: Alvorada da Alma é um disco quase imaculado. Já depois da entrevista dizemos isto aos rapazes. Ex-Peão não vacila: “Podemos fazer muito mais. Estamos apenas no início”.