Assim era o clima na terra dos hobbits

Por ocasião da estreia esta semana, em quase toda a Europa (e nesta quinta-feira em Portugal), de O Hobbit – A Desolação de Smaug, o segundo filme da nova trilogia cinematográfica inspirada na célebre obra de J.R.R. Tolkien, um especialista britânico das alterações climáticas simulou o clima da Terra Média.

O mundo de Arda, do qual faz parte a Terra Média (situada no interior do rectângulo vermelho)
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Mapa simulado por computador do mundo de Arda, do qual faz parte a Terra Média (situada no interior do rectângulo vermelho) Cortesia de Dan Lunt

Como terá sido o clima no continente imaginário onde viviam, em tempos de fantasia, os hobbits, elfos, anões, orcs, dragões e outras criaturas inventadas nos anos 1930 pelo escritor britânico John Ronald Reuel Tolkien? Está lá tudo num artigo publicado há dias por um eminente ambientalista da Terra Média, o grande feiticeiro Radagast, o Castanho, na revista…Journal of Hobbitlore.

Bom, não é bem assim. A revista em causa não existe e Radagast é, na realidade, o nom de plume de Dan Lunt, climatólogo da Universidade de Bristol, no Reino Unido. Mas o artigo é, quanto a ele, bem real – para além de perfeitamente científico – e está acessível online no site daquela universidade.

Lunt, que disse ao PÚBLICO ser fã de Tolkien e nem sequer se conseguir lembrar exactamente de quantas vezes leu O Hobbit e O Senhor dos Anéis, teve a ideia de aplicar àquele mundo imaginário os modelos matemáticos habitualmente utilizados, graças a poderosos supercomputadores, para simular a meteorologia e o clima da Terra.

“Este trabalho foi divertido, mas também tem um lado sério”, diz Lund em comunicado. “Uma parte central do nosso trabalho aqui em Bristol envolve a utilização dos mais avançados modelos para simular e compreender o clima da nossa Terra. E ao compararmos os resultados das nossas simulações com dados de observação relacionados com as alterações climáticas do passado – como, por exemplo, anéis de crescimento das árvores, amostras de gelo ou fósseis antigos de animais e de plantas – podemos validar os modelos climáticos e aumentar a nossa confiança na precisão das suas previsões para o clima no futuro.” Dito por outras palavras, as simulações das alterações do clima no passado são úteis porque é possível observar hoje o que efectivamente aconteceu para saber se os modelos climáticos estão ou não a prever correctamente o que nos espera daqui para a frente.

No seu artigo, Lunt/Radagast apresenta simulações da Terra Média e compara-as com simulações da Terra nos tempos pré-industriais e da Terra de há 65 milhões de anos – antes de os dinossauros, que na altura reinavam no nosso planeta, terem sido arrasados pela queda de um meteorito na península do Iucatão, no território do México actual. Pode, de facto, parecer uma brincadeira, mas as suas conclusões sobre a Terra Média são, no fundo, tão válidas do ponto de vista científico como as que dizem respeito à Terra.

Topografia tolkieniana
“Como os modelos do clima se baseiam em processos científicos fundamentais, conseguem simular não só o clima da Terra dos dias de hoje, como podem também ser adaptados para simular qualquer planeta, real ou imaginário, desde que sejam conhecidas a posição e altura dos continentes e a profundidade dos oceanos”, salienta a este propósito, no mesmo comunicado, Richard Pancost, director do instituto da Universidade de Bristol onde trabalha Lunt. A partir dessas condições iniciais e tendo em conta uma série de parâmetros adicionais, torna-se possível fazer evoluir o clima ao longo de séculos – e mesmo de milénios – dentro do computador.

Foram esses parâmetros, entre outros, que foi preciso determinar em relação à Terra Média, explica detalhadamente Lunt – ou melhor, Radagast – no seu artigo, frisando que utilizou para isso “os mapas e manuscritos conservados nos arquivos de Rivendell” (cidade habitada pelos elfos). Leia-se, os mapas e documentos da autoria do próprio Tolkien.

“Ao sopé das regiões montanhosas foi atribuída uma altitude de 2000 metros acima do nível do mar, às montanhas uma altitude de 4000 metros, aos rios de 100 metros e a todas as outras regiões continentais uma altitude de 300 metros”, escreve o feiticeiro-climatólogo. “Além disso, foi introduzida uma ligeira variação aleatória para representar pequenas características topográficas que não foram desenhadas nos mapas originais.” Quanto aos oceanos que rodeiam a Terra Média, a sua profundidade “foi aumentada progressivamente a partir da costa, até a um valor máximo de 4000 metros”.

Uma das escolhas que o autor teve de fazer para conseguir transpor o célebre mundo imaginário de Tolkien para o modelo matemático do clima, que utiliza como base um planeta esférico, consistiu justamente em mapear a Terra Média sobre uma bola. A decisão foi “difícil”, salienta Radagast, porque a Terra Média “é aparentemente plana e circular”. Aliás, faz notar a certa altura que o seu chefe, o feiticeiro Saruman, o Branco (ou será Richard Pancost?), acha essa opção “disparatada”… Mas adiante.  

Já agora, Radagast também optou por considerar que a inclinação do eixo do planeta onde fica a Terra Média e a sua taxa de rotação eram semelhantes aos do planeta Terra. Em termos de vegetação (um outro parâmetro que foi preciso definir), o grande feiticeiro cobriu inicialmente toda superfície da Terra Média de arbustos. Diversos habitats viriam, porém, a evoluir mais tarde, devido às demais condições ambientais.

Faltava especificar um último ingrediente antes de lançar a simulação: a concentração de dióxido de carbono na atmosfera do planeta imaginário. Radagast decidiu que o ar da Terra Média continha tanto CO2 como a Terra do tempo dos dinossauros, “algo que poderia ser interpretado como o efeito das emissões de gases de estufa vindas do Monte da Condenação”, escreve, referindo-se a um grande vulcão da Terra Média, situado na tenebrosa região de Mordor, antro do maldoso Sauron.

Lunt (é ele que tem acesso a um supercomputador) simulou o clima da Terra Média durante apenas 70 anos, razão pela qual pensa que talvez os resultados não sejam definitivos, uma vez que o clima não teve tempo suficiente para estabilizar. Quando lhe perguntámos por que é não deixou o software "correr" durante mais tempo, respondeu-nos que não lhe teria sido possível justificar uma utilização mais prolongada do supercomputador para este trabalho. Aliás, fez questão de notar, inclusive nos agradecimentos do artigo, que tinha realizado esta simulação “durante os seus tempos livres”, sem qualquer tipo de financiamento da sua instituição.

Seja como for, obteve vários resultados interessantes. Por um lado, mostrou que, em primeira análise, o clima da Terra Média é semelhante ao “da Europa Ocidental e da África do Norte” actuais. E também que Mordor tem “um clima inóspito, mesmo sem ter em conta os efeitos de Sauron – quente e seco com escassa vegetação". A maior parte da Terra Média, contudo, estaria povoada por florestas, “se a paisagem não tivesse sido alterada pelos dragões, orcs, feiticeiros, etc.”

E se quiséssemos comparar o clima das diversas regiões da Terra Média com o de regiões conhecidas da Terra? – interroga-se no fim o autor. Então concluir-se-ia que, com temperaturas médias anuais que rondam os sete graus Celsius e uma pluviosidade de 61 milímetros por ano, o clima da região do Shire, a oeste, onde vivem os hobbits, é parecido com o da Bielorrússia (curiosamente, também é parecido com o clima de certas regiões do “meio” da Inglaterra...). Pelo seu lado, o clima da região de Mordor, mais a sul, é mais parecido com o do Oeste do Texas e com o de Los Angeles, nos EUA.

Radagast também disponibilizou no site da universidade transcrições do seu artigo para o alfabeto élfico e para as runas dos anões (infelizmente, os seus conhecimentos das línguas destes dois povos da Terra Média parecem ter sido insuficientes para garantir uma verdadeira tradução). Quando fizemos notar ao seu alter ego Lunt que o título da versão rúnica continha várias gralhas, respondeu-nos tratar-se, provavelmente, de um erro de software que outros leitores também já lhe tinham feito notar. Porém, acrescentou: “Até agora, não recebi nenhuma queixa dos anões!"
 
 
 
 

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