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Sopa de barbatana de tubarão sai do menu nos jantares oficiais chineses

Governo quer cortar custos nos banquetes organizados por entidades públicas. Novo regulamento agrada aos ambientalistas.

Barbatanas sob o sol: milhões de tubarões mortos todos os anos
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Milhares de barbatanas de tubarão são postas a secar nos telhados dos edifícios, denunciam os ambientalistas Antony Dickson/AFP
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Organizações de ambiente têm pressionado o governo para banir a captura de barbatana de tubarão Antony Dickson/AFP

As autoridades chinesas proibiram o consumo de produtos derivados de espécies selvagens nos banquetes oficiais. Do menu saem pratos como sopa de barbatana de tubarão e ninhos de andorinha. Organizações ambientalistas aplaudem a medida e esperam agora que o sector privado siga o mesmo caminho.

A intenção de banir estes produtos muito apreciados na gastronomia chinesa já tinha sido anunciada no ano passado, mas a directiva assinada pelo Conselho de Assuntos do Estado e pelo comité central do Partido Comunista Chinês só foi publicada este domingo.

Os grandes banquetes habitualmente organizados pelas autoridades locais e pelas empresas estatais têm como objectivo mostrar a riqueza do país. Os hóspedes são normalmente recebidos com pratos exóticos e caros – como a sopa de barbatana de tubarão. A partir de agora é proibido até oferecer cigarros e licores aos convidados.

Segundo a imprensa chinesa, as novas regras obrigam os organizadores de visitas oficiais ou de negócios a preparar as refeições “observando normas de despesas pertinentes”. Tudo para “promover a diligência, lutar contra a extravagância e construir um governo limpo”, refere a directiva, aplicável aos partidos políticos, departamentos do Governo e conselheiros políticos, autoridades judiciais, empresas do Estado e organizações que recebam verbas públicas.

Medida mostra "coragem"
Seja em nome da contenção de custos ou do ambiente, a medida agrada aos ambientalistas. “Terá um enorme impacto na sociedade, porque quando o Governo mostra liderança na sociedade, o sector corporativo vai rapidamente seguir o mesmo caminho”, afirma Alex Hofford, director executivo da associação de conservação marinha MyOcean, baseada em Hong Kong. Em declarações à agência France Press, Hofford considera que a decisão tem um “significado enorme” e mostra “coragem” do Governo. “Não importa se é por razões ambientais ou para conter a extravagância estatal, desde que o trabalho seja feito”, declarou.

A medida terá um “impacto massivo” nos restaurantes chineses que servem barbatana de tubarão, acredita Gary Stokes, coordenador em Hong Kong do grupo Sea Shepherd, que luta pela conservação das espécies marinhas.

A sopa de barbatana de tubarão é considerada há séculos uma iguaria na China. O preço da barbatana atinge valores exorbitantes nos mercados, particularmente de Hong Kong, líder mundial no comércio deste produto. Ali chegam cerca de 10 mil toneladas de tubarões todos os anos. E apesar da pressão das associações de protecção do ambiente e dos animais - que levou já alguns restaurantes de luxo chineses a abolir este prato do menu - a prática mantém-se.

No início deste ano, Gary Stokes denunciou que as coberturas de alguns edifícios da cidade estavam a ser utilizadas para secar milhares de barbatanas de tubarão, longe da vista pública. A retirada das barbatanas e posterior rejeição das carcaças dos animais no mar (prática conhecida como finning) tem vindo a aumentar desde a década de 1980, segundo os cientistas.

Um estudo publicado em Março na revista Marine Policy refere que em 2000 foram capturadas 1638 milhões de toneladas de tubarões, dos quais 1135 milhões de toneladas foram rejeitadas no mar - na sua maioria animais aos quais foram arrancadas as barbatanas (908 mil toneladas).

Segundo a Lista Vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, 28% das espécies conhecidas de tubarão estão em risco de extinção. As estimativas dos cientistas apontam para quase 100 milhões de tubarões mortos todos os anos.
 

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