Crítica

Burmester: músico

Pedro Burmester, piano, Porto, Casa da Música – Sala Suggia, domingo, 8 de Dezembro, 18h. Obras de Lopes Graça, Ligeti, Bach e Liszt. Sala cheia. 4,5 estrelas

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Cabe aqui a ingrata tarefa de discorrer sobre um concerto que encheu a Sala Suggia: além da plateia, camarotes e coro, havia cadeiras colocadas no palco: tudo cheio.

Ingrata porque se sabe que Pedro Burmester não é um Sokolov, mas, apesar de Portugal não ter assim tão grande tradição na sobrevalorização da “prata da casa”, o já crescido menino-prodígio continua a atrair um público muito heterogéneo, sendo o seu nome  familiar mesmo para quem nunca assistiu um recital de música erudita.

O menino-prodígio cresceu. Talvez pudesse ter crescido mais, enquanto pianista. Talvez o seu enorme talento (ou facilidade, como refere em entrevista ao PÚBLICO de 2 de Dezembro) continue a manifestar os seus efeitos enquanto “obstáculo e não como vantagem”. Certo é que cresceu. E o artista que este fim-de-semana pisou a Sala Suggia não se veste com a inocência da criança que toca sem o peso da própria arte (que liberta, mas também pesa), representando antes a maturidade, com tudo o que tem de cristalino e de imperfeito. No que à imperfeição respeita, o que menos graça pode trazer ao resultado final é o pouco cuidado que, ao longo do tempo, Burmester tem revelado com a qualidade do som, para que contribui também um ocasional trabalho de pedal menos perfeito.

O programa com que põe fim ao longo silêncio com que se manteve afastado dos palcos portuenses revela tanto de astúcia como de boa vontade: o grande Bach e Liszt (obrigatórios para pianistas) partilham o alinhamento com música portuguesa (Lopes Graça, do mais simples: Variações sobre um tema popular português) e música pós-1945 (Ligeti, do menos complexo: Musica Ricercata). Não serão poucos os dedos a apontar a preguiça do intérprete que, para dizer que não foge à música contemporânea, toca a Musica Ricercata; mas do mesmo modo se pode elogiar a sua coragem, já que o mais simples raramente é o menos arriscado.

É inegável que Pedro Burmester se apresentou como artista com voz própria, sobretudo na Partita BWV 830 (J. S. Bach) e na Bênção de Deus na solidão (Liszt). A sua leitura da Partita, um tanto livre e de que sobressaiu inteligentemente o que é importante, constituiu uma agradável surpresa, com uma Allemande que contrariou a menos cuidada preocupação com o som atrás referida, uma Courante um tanto enigmática no tratamento rítmico, uma lindíssima Sarabande e uma Gigue que ganhou em energia e determinação aquilo que perdeu em qualidade sonora.  

Em Liszt, tal como em Bach, Burmester revelou uma enorme sensibilidade – a sensibilidade avisada do homem maduro suportada por uma óptima gestão do tempo.

Sem dúvida, o regresso do artista à Casa, onde não antes havia tocado, contribuiu para o ambiente especial que se fez sentir ao longo do todo o recital e que fez o público erguer-se numa convicta salva de palmas, entre emocionados “bravos”, a que se seguiu uma não menos especial sessão de três números extra programa.

Uma leve Serenata de Schubert fez lembrar o menino pequenino, o pianista que cresceu e que humildemente se apresenta ao público, quase sem perceber de onde vem todo o entusiasmo que o público manifesta por essa inevitabilidade que é a música na sua própria vida. Essa voz própria serve-lhe de veículo para enaltecer o idealismo, reforçando a sua persistência, com um símbolo do país de que não abdicou: Pedro Burmester comoveu a sala inteira na sua maneira peculiar de cantar, com uma harmonização muito simples, A Portuguesa... ao piano, claro.