Da garagem do CCB vê-se a vida e a arquitectura da África colonial portuguesa

Exposição resulta de investigação que pela primeira vez mostra ao público o acervo do Gabinete de Urbanização Colonial e seus sucessores. Da perspectiva do colonizador, uma viagem do “português suave” ao “tropical suave” para desfazer preconceitos.

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Fotografia de Luís Possolo enquanto arquitecto durante o Estado Novo trabalhando para os territórios portugueses ultramarinos Luís Possolo
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Fotografia de Luís Possolo enquanto arquitecto durante o Estado Novo trabalhando para os territórios portugueses Ultramarinos Luís Possolo
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Projecto da Escola Industrial para Luanda
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Hospital Central de Luanda

As fotografias, expostas em painéis ilustrados de ambos os lados, são do arquitecto Luís Possolo, os projectos são de muitos arquitectos cobertos durante décadas pelo anonimato do colectivo do organismo público criado em 1944 pelo ministro das Colónias Marcello Caetano para urbanizar os territórios ultramarinos portugueses – um “desenvolvimento a que Portugal está obrigado para justificar a manutenção da sua administração colonial”, contextualiza Ana Vaz Milheiro. Com África – Visões do Gabinete de Urbanização Colonial (1944-1974), é a primeira vez que muitos destes documentos são mostrados ao público e a investigação que lhes deu origem, financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, é um projecto inédito focado em cinco países africanos que pôs em parceria arquitectos, historiadores, arquivistas, geógrafos, sociólogos do ISCTE, do Arquivo Histórico Ultramarino do Instituto de Investigação Científica Tropical (AHU/IICT) e do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU).

O resultado é uma viagem visual, “África vista por estes homens que trabalham em Lisboa”, resume Ana Vaz Milheiro, que partilha a curadoria com Ana Cannas, directora do AHU, e João Vieira, coordenador do Departamento de Informação, Biblioteca e Arquivos do IHRU. “Propositadamente não isolámos a exposição por países, quisemos mostrar que, por mais que nos custe e que seja politicamente incorrecto dizê-lo, isto é a visão do colonizador – que tende a homogeneizar o território africano.”

África “nossa”, uma amálgama com vista sobre os habitantes e sobre as cidades que os executores desta “arquitectura burocrática”, como categoriza Vaz Milheiro – equipamentos públicos como hospitais, liceus ou espaços administrativos – criavam em torno deles. Depois, tentariam passar à arquitectura de proximidade, até à “casa africana”. Eram funcionários públicos, como o próprio Luís Possolo, empregados de um gabinete que foi mudando de nome ao longo das décadas, conforme o termo “colonial” era cada vez menos bem visto e “ultramar” era a versão mais aceitável perante a comunidade internacional.

A exposição faz-se em múltiplos de três. São três comissários, três períodos em que se divide a actividade destes planos e três ideias feitas sobre o que foi o trabalho destes arquitectos que Ana Vaz Milheiro quer deitar por terra. Falemos de épocas, para fazer terraplenagem de preconceitos mais à frente. Entre 1944 e 1951, os arquitectos tentaram adaptar a arquitectura tradicional portuguesa, neste caso a alentejana, aos trópicos. “É o tempo dos hospitais, das casas dos funcionários públicos”, descreve a especialista.

Depois, entre 1952 e 1957, o mandante passa a chamar-se Gabinete de Urbanização do Ultramar (GUU) e nascem projectos ambiciosos como o Plano Geral de Urbanização de Lourenço Marques, coordenado pelo subdirector do GUU, João Aguiar. “Entra uma arquitectura monumental e historicista, igual à da Alta de Coimbra, mas onde é desenvolvido um edifício tipo, o português suave”, mas aqui “trópico suave” – “é o tempo dos grandes liceus, dos grandes hospitais, dos museus e equipamentos públicos de grande visibilidade”, prossegue Ana Vaz Milheiro na visita para a imprensa. E, por fim, nos últimos anos do Estado Novo, “há uma focalização dos arquitectos para o estudo dos habitats locais” e fazem “projectos de pequena escala”, ao mesmo tempo que se lança o debate sobre “o que é a casa africana”, lembra a investigadora. “Para o Estado Novo, a casa é o agente civilizacional.”

Ao longo da Garagem Sul, passamos entre painéis com desenhos e fotos e por maquetes feitas por alunos do ISCTE. “É como a romanização”, compara Ana Vaz Milheiro sobre estes 30 anos que pairam no CCB, sobre a “grande diversidade de programas” aplicados por arquitectos que agora têm nome, “heresia” de individualização num projecto que era colectivo.   

O momento é agora

E este era o momento. O momento de ocupar esta garagem com ideias para desfazer outras, de gerar perguntas. “É um trabalho que tinha de ser feito agora”, sublinha Ana Vaz Milheiro. Não só porque Portugal fez “uma experiência única no mundo colonial da época”, porque estes gabinetes existiam, mas localmente, não centralizados na capital – coisa “de país pobre, centralizar para maximizar a aprendizagem”, explica a investigadora. Mas também porque, tendo as fontes concentradas em Lisboa no AHU, “este é o momento exacto” para que “alguns arquitectos ainda pudessem dar os seus testemunhos” e para que “as pessoas ainda se reconhecessem nestes edifícios”.

Essa é uma das esperanças da comissária, e também da administradora do CCB e historiadora Dalila Rodrigues: que esta exposição na Garagem que se dedica às mostras de arquitectura – e que neste primeiro ano de existência atraiu 20 mil visitantes – traga novos públicos. “Esta é uma exposição emblemática, porque abre a programação para uma dimensão histórica e investigativa”, disse Dalila Rodrigues na apresentação à imprensa, mas também porque quem viveu na época em Cabo Verde, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe é convidado a ver as matrizes a partir das quais se fizeram as maternidades onde alguns nasceram, as escolas onde outros estudaram. E o tempo urge: o progresso, a vida, a guerra, tudo isso faz com que alguns destes edifícios já não resistam e que outros estejam transformados – envoltos por novas camadas da engenharia chinesa, dando um exemplo de Luanda.

Até 28 de Fevereiro de 2014, África – Visões do Gabinete de Urbanização Colonial está na Garagem, onde também estão armazenados alguns afectos. Esta arquitectura de programa político visa criar espaços onde reconheçamos no país colonizado o país colonizador e, no caso destes cinco países, “à medida que os arquitectos se envolvem com o conhecimento do habitat local, ao olharem para aquelas casas africanas, para os celeiros, para as estruturas agrárias, essa dimensão afectiva vai crescendo”, confirma Vaz Milheiro.

Sendo esta uma exposição de arquitectura que Ana Vaz Milheiro foi desafiada a não fazer de forma “chata”, os desenhos são os menos técnicos, as fotografias as do quotidiano e sem qualquer edifício em primeiro plano. Nem imagens actuais de edificado, nem passadas. A ideia é desmistificar, dar ferramentas com conhecimento consolidado para se começar a debater este período – Vaz Milheiro desafia-nos a pensar, no meio de tanta modernidade e cosmopolitismo planeado para as então colónias, “o que é Portugal em 1957, quando está a ser construído o Liceu Feminino D. Guiomar, que hoje é a Escola Secundária Rainha Ginga, em Luanda; o que era o país em 1962, quando está a ser construída a Capitania do Mindelo? O que eram o Minho, as Beiras, as cidades de média dimensão portuguesas?”

Sentada no banco onde os visitantes poderão ver entrevistas-vídeo ao antigo ministro do Ultramar Adriano Moreira e aos arquitectos António Saragga Seabra e Francisco Schiappa de Campos, alguns dos executantes destes trabalhos, Ana Vaz Milheiro dispara: “Esses arquitectos foram muito mal tratados.” Estando alguma da história sobre a arquitectura deste período feita, ela está contaminada, defende. Feita no pós-25 de Abril, ela “é política, como toda a história”. “Olhou para os edifícios que eram mais fáceis de ver, os modernos, porque não são comprometidos com o poder colonial de uma forma tão directa – mas que muitas vezes são encomendas do poder colonial.”

O resultado desse enviesamento é que o trabalho destes gabinetes ficou reduzido a uma ideia geral: “Que era mais historicista, mais monumental, a Alta de Coimbra, mas nos trópicos.” E não era só isso, ou preto e ou branco, ou bom ou mau. “O que me interessava aqui era essa faixa cinzenta, uma arquitectura menos amada, mais contaminada, que na verdade são os edifícios que estão a ser usados hoje”, diz a curadora. Agora também esses edifícios estão mapeados e descritos no AHU. Os arquitectos eram mal tratados, porque se achava que não tinham conhecimento do território e “esta investigação prova que os arquitectos conheciam” o terreno, diz Vaz Milheiro, e que estavam formados para trabalhar no clima tropical. A última das três ideias erradas que quer desfazer é a de que “estes edifícios seriam projectados numa perspectiva de representação do poder colonial e não teriam uma abordagem à população africana” – a fase final da actividade destes gabinetes é exactamente de aproximação a essa realidade, frisa.

O resultado de cerca de cinco anos de trabalho chega ao CCB e deixa lastro. No AHU, por exemplo, ficaram agora descritos documentos que até aqui não estavam catalogados. Contas feitas, são 14 mil registos a partir de 35 mil desenhos e de 14.500 fotografias – algo que “só os arquivistas, os autores e alguns ministros” viram até aqui, diz Ana Cannas. O Sistema de Informação para o Património Arquitectónico (SIPA, em www.monumentos.pt) digitalizou o espólio As Áfricas de Possolo e criou a ferramenta, disponível na exposição e no site do SIPA que permite a georreferenciação, através do Google Earth, de todos os edifícios inventariados neste projecto (cerca de 150), que integram agora as cerca de mil fichas do sistema sobre monumentos e edificação pública portuguesa em África.  

Este projecto está em parte em aberto. Ficaram de fora outros territórios, como Macau, ou Timor, e levantaram-se pistas. “Começamos a desconfiar, mas ainda só surgiram algumas provas de que há estruturas coloniais [de outros países, como Itália ou França] a aprender com a nossa experiência – é uma face que agora vamos começar a estudar”, revela Ana Vaz Milheiro.