Obama admite que revelações de Snowden "identificaram algumas áreas de legítima preocupação"

Presidente dos EUA promete reforço das regras no próximo mês, no dia em que os media italianos revelam espionagem da NSA a líderes políticos e registo de chamadas telefónicas.

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Barack Obama foi entrevistado no programa Hardball, da MSNBC Kevin Lamarque/Reuters

"Depois de termos analisado o que tem sido feito, com a contribuição de defensores das liberdades cívicas e de advogados, entre outros, vou propor, ao longo do próximo mês, medidas de contenção interna na NSA e dar início a reformas que transmitam mais confiança às pessoas", disse Obama, numa entrevista ao programa Hardball, da estação MSNBC, transmitida na quinta-feira à noite.

A entrevista foi gravada e transmitida no mesmo dia em que o The Washington Post noticiou que a NSA intercepta e guarda os dados sobre a localização de centenas de milhões de telemóveis em todo o mundo. A operação, conhecida como Co-Traveler, tem como objectivo identificar colaboradores de pessoas que já estão incluídas na lista de alvos da NSA, mas regista a localização de inocentes – segundo o jornal, apenas 1% das pessoas cujos movimentos são acompanhados através dos seus telemóveis acabam por ser consideradas "pessoas de interesse".

Perante uma plateia constituída por estudantes da Universidade Americana, em Washington, o Presidente dos EUA não quis comentar a notícia do The Washington Post, mas admitiu que "os jovens são sensíveis à necessidade de manterem a sua privacidade e a liberdade na Internet".

O problema, disse, é que "as pessoas que querem causar danos" aos EUA usam os mesmos sistemas que permitem aos jovens "enviar mensagens de texto ou partilhar imagens no Instagram". "Se quisermos impedir um ataque terrorista neste país (…), temos de vigiar esses maus elementos", argumentou o Presidente norte-americano.

A declaração um pouco mais afastada do discurso oficial surgiu pouco depois. "As revelações feitas por [Edward] Snowden identificaram algumas áreas de legítima preocupação", admitiu Obama, para logo a seguir acrescentar que outras têm sido "tratadas de uma maneira altamente sensacionalista e descritas de uma forma que não é exacta".

O Presidente norte-americano voltou a afirmar que a NSA "desempenha muito bem a tarefa de não fazer espionagem doméstica, não lê os emails das pessoas, não ouve as conversas telefónicas". Mas no resto do mundo, a questão é diferente: "Fora das nossas fronteiras, a NSA é mais agressiva. Não está constrangida por leis."

Espionagem da NSA em Itália
Também na quinta-feira à noite, as edições online da revista L'Espresso e do jornal La Repubblica revelaram novos dados sobre a espionagem da NSA em Itália.

Numa notícia partilhada pelas duas publicações e co-assinada pelo jornalista norte-americano Glenn Greenwald, lê-se que as comunicações dos líderes italianos são espiadas por "uma unidade secreta e protegida por imunidade diplomática".

Esta unidade a que o La Repubblica e a L'Espresso se referem opera no âmbito do já conhecido programa Special Collection Service, responsável também pela espionagem à chanceler alemã, Angela Merkel.

Os documentos obtidos pelo analista informático Edward Snowden mostram que a NSA tem dois postos de espionagem de comunicações em Itália (ou tinha pelo menos até 2010, data dos documentos) – uma na capital, Roma, e outra em Milão, o centro económico do país.

As publicações italianas afirmam que a espionagem da NSA em Itália tem como alvo líderes políticos, mas também milhões de cidadãos italianos. Tal como em países como a Alemanha ou Espanha, a agência norte-americana recolheu metadados de quase 46 milhões de chamadas telefónicas no período de um mês – entre 10 de Dezembro de 2012 e 9 de Janeiro de 2013.

Na semana passada, o primeiro-ministro italiano, Enrico Letta, disse desconhecer a existência de qualquer actividade de espionagem internacional direccionada ao Governo e aos cidadãos italianos. "Com base na análise feita pelos nossos serviços secretos e através dos nossos contactos internacionais, não temos consciência de que a segurança das comunicações do Governo italiano e das embaixadas tenha sido comprometida, nem temos consciência de que a privacidade dos cidadãos italianos tenha sido comprometida", afirmou o primeiro-ministro, perante a Câmara de Deputados.