Luto, celebração da vida e medo pelo futuro na África do Sul

Sul-africanos reagem à morte do herói da independência prestando homenagem a Mandela mas mostrando temor por possibilidade de divisões.

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“Mandela, trouxeste-nos a paz”, era uma das músicas da noite em Vilakazi Street, Soweto, onde Mandela viveu e que agora é um museu.

Velas e lágrimas nos olhos, mas também músicas e vuvuzelas, pessoas que saíram de casa com o que tinham vestido na altura em que ouviram que tinha morrido Nelson Mandela, de pijama, até à frente da sua casa, em Joanesburgo.

Susan Radebe, 46 anos, era uma delas. Com os seus dois filhos, foi para a frente da casa de Mandela, e descreveu como chorou mas ao mesmo tempo aceitou que “era altura” – “tenho de aceitar e deixá-lo ir”. Ao Los Angeles Times, explicou ainda o seu sentimento de gratidão: “Fico feliz por ele ter conseguido que os meus filhos tivessem aquilo de que eu fui privada e de que os meus pais foram privados: educação, saúde, liberdade”.

Com a manhã, no entanto, muitos sul-africanos expressaram algum temor de divisão no país depois da morte da sua figura unificadora. “Não vai ser bom”, comentava Sharon Qubeka, 28 anos, do bairro de Tembisa, enquanto ia para o trabalho, em Joanesburgo. “Mandela era o único que mantinha as coisas unidas. Acho que este vai ser um país mais racista. As pessoas vão virar-se umas contra as outras e tentar expulsar os estrangeiros”, comentou.

“Deixem-nos dar-lhe o presente de uma África do Sul unida”, disse Desmond Tutu numa missa na catedral anglicana da Cidade do Cabo. “Sugerir que a África do Sul vai acabar em chamas é não dar crédito aos sul-africanos e ao legado de Madiba”, disse. “O sol vai nascer amanhã, e no dia seguinte, e no seguinte. Pode não parecer tão brilhante como ontem, mas a vida vai continuar”, declarou.
 
"Se não fosse por ele, estaria a esfregar o chão"
“Sinto que perdi o meu pai, alguém que cuidaria de mim”, disse Joseph Nkosi, 36 anos, segurança de uma township de Joanesburgo. “Um negro sem ligações já está em desvantagem. Sem Madiba, sinto que não tenho hipótese”, comentou. “Os ricos vão ficar mais ricos e esquecer-nos. Olhem para os nossos políticos, não têm nada a ver com Madiba”.

“Como sociedade, ainda estamos agarrados a esta ideia romântica do ANC ser liderado por pessoas altruístas”, comentou Zwelethu Jolobe, professor de ciência política na Universidade da Cidade do Cabo, ao Wall Street Journal. “Ainda não nos habituámos à ideia de que a maioria dos líderes do ANC são agora políticos de carreira”.

A chamada “geração Mandela”, os sul-africanos que nasceram depois de 1994, numa África do Sul democrática, também prestou tributo ao prémio Nobel da Paz. “Mandela é como o pai da nossa nação”, reagiu Jonathan Sibandi em declarações à Rádio Voz da América. “Se não fosse por ele, ainda estaríamos longe, onde eu estaria a esfregar o chão."

Mais, com Mandela, Sibandi diz que aprendeu que o mais importante é perdoar: “É incrível como ele saiu da prisão e ainda gostava das pessoas que o puseram lá."

Phumelele Mothadi, do cimo dos seus doze anos, afirma: “Sinto uma enorme responsabilidade sobre os meus ombros, porque sinto que tenho de fazer tudo o que possa para que a África do Sul não volte ao que era, antes de 1994”, contou. Mas a grande parte da missão já foi cumprida. “Sinto-me aliviado por não ter de lutar como nas lutas do apartheid e isso tudo. Sinto-me… livre”.

Mas a África do Sul mudou. Vários escândalos de corrupção têm marcado a presidência de Jacob Zuma, e o país tem vivo vários episódios de revoltas laborais (e a sua repressão), protestos cada vez maiores por serviços insuficientes, pobreza, crime e desemprego.

A notícia não terá apanhado muitos de surpresa – há já cerca de um ano que Mandela estava doente, com vários problemas de pulmões, com origem nas más condições das celas em que passou 27 anos preso pelo regime do apartheid. Desde Setembro que estava a ser tratado em casa, mas ainda em estado considerado grave.

A bolsa de Joanesburgo anunciou que iria fazer uma pausa de apenas cinco minutos pelas 11 da manhã, diz a Reuters, notando o sinal de normalidade e “business as usual”.

Espera-se para segunda-feira uma cerimónia de luto nacional num estádio de 95 mil lugares nos arredores de Joanesburgo. O corpo de Mandela ficará então durante três dias na capital, Pretória, antes de ser levado para um funeral de Estado em Qunu, onde cresceu, e onde sempre disse que queria ser enterrado.