Fundação Champalimaud vai ter um programa para avaliar risco de cancro

Qualquer pessoa, se assim o desejar, vai poder saber se tem ou não um risco acrescido face a diversos cancros ao longo da vida e receber aconselhamento individualizado para minimizar esse risco.

A Fundação Champalimaud vai lançar um programa pioneiro na área do cancro
Foto
Centro Champalimaud Pedro Cunha

A partir do primeiro trimestre de 2014, a Fundação Champalimaud vai inaugurar um programa, único no mundo, de avaliação e gestão do risco de cancro destinado a pessoas que não estão doentes mas que querem evitar vir um dia a ter uma doença cancerosa. O anúncio foi feito na sexta-feira por Leonor Beleza, presidente do conselho de administração da fundação, em conferência de imprensa na sede em Lisboa.

“Sabemos que metade dos homens e um terço das mulheres têm ou vão ter cancro ao longo da sua vida”, disse Leonor Beleza, acrescentando que o objectivo do novo programa é precisamente ajudar cada pessoa a gerir esse problema. “Todos sentimos o cancro como uma ameaça”, salientou.

“Hoje é possível, através de vigilância, detectar o cancro” precocemente, disse ainda. “Mas é uma vigilância feita de forma fraccionada”. De facto, o cancro da mama pode ser despistado nas suas primeiras fases através de mamografias. E, para outros cancros, é mesmo possível detectar lesões precursoras, ou seja, que ainda não se transformaram em tumores malignos. É o caso do cancro colorrectal, que pode ser prevenido com a realização de colonoscopias, e do cancro do colo útero, evitável graças à realização periódica de esfregaços vaginais, ou testes de Papanicolaou.

Já existem também, por exemplo nos EUA, centros onde é possível fazer uma avaliação e gestão personalizadas do risco de cancro. Mas elas focam-se num cancro em particular – da mama, da próstata, etc. Ora, segundo salientou Leonor Beleza, não existe, em mais lado nenhum, um programa do tipo do que vai ser lançado dentro de uns meses em Lisboa.

“Aqui, a ideia é diferente”, frisou. “Consiste em considerar a pessoa como um todo para tentar perceber o seu risco perante o cancro e estabelecer um programa individualizado de vigilância para ajudar a pessoa a gerir essa situação. Não é um programa de diagnóstico precoce; é uma avaliação global.”

Como é que ela se irá processar? Qualquer pessoa, “mesmo que não tenha sintomas”, poderá entrar no programa, responde Leonor Beleza. “Um médico fará uma leitura global da situação dessa pessoa com base no que se sabe actualmente sobre o cancro do ponto de vista científico e médico.” A seguir, o médico determinará que tipo de comportamento individual essa pessoa deverá adoptar para minimizar o seu risco, em especial em termos de alterações de estilo de vida. E se ela tiver uma história familiar de um certo tipo de cancro, ser-lhe-á feito um estudo genético de forma a determinar se apresenta um risco acrescido de vir a ter esse cancro.

Leonor Beleza não quis especificar os custos envolvidos na participação no programa, respondendo contudo que esta abordagem “nunca será tão cara, nem tão violenta e dolorosa, como tratar um cancro”.

Cancro ocular em Manaus

A responsável anunciou ainda que, na semana passada, foi inaugurado em Manaus, no Brasil, o Centro Champalimaud de Oncologia Ocular do Amazonas, em colaboração com a Universidade de São Paulo. É o terceiro centro C-TRACER (Centros Champalimaud de Investigação Translacional Oftamológica), cujo objectivo é “apoiar a investigação de ponta na área da visão” e facilitar a sua “translação” para a clínica, explica a fundação em comunicado. Os outros dois centros estão localizados na Índia e em Coimbra. “Nesta primeira fase, o nosso investimento [em Manaus] foi de 100 mil dólares”, disse Leonor Beleza.

Ao dedicar-se ao cancro ocular, o novo centro irá fazer a ponte entre dois dos três principais “pilares” da fundação que são o cancro, a visão e as neurociências. Para além de “prestar cuidados de saúde gratuitos, essenciais à população” local, o centro irá realizar o diagnóstico precoce de doenças da visão e desenvolver investigação nomeadamente na área dos retinoblastomas — o cancro ocular mais comuns nas crianças, cuja incidência é mais elevada nos países em vias de desenvolvimento.

Escola de neurocientistas

A fundação também deverá abrir em breve uma escola europeia de neurociências, em Lisboa, numa iniciativa conjunta das sociedades europeias de neurociências. “Queremos formar mais cientistas, quer numa fase precoce da sua carreira, quer em fases mais avançadas”, frisou Leonor Beleza. “E fazer da fundação um local de treino para neurocientistas europeus.” A qualidade e renome dos cientistas que integram as equipas do Programa Champalimaud de Neurociências não é certamente alheia a esta iniciativa. Aliás, o montante do financiamento de que a fundação beneficia através de bolsas de investigação atribuídas a essas equipas fala por si. “Até ao final do ano de 2013, vamos receber oito milhões de euros em bolsas, que serão gastas ao longo de cinco anos”, disse Leonor Beleza.