Cavaco assinala os 40 anos do 25 de Abril com conferência sobre o desenvolvimento

Edição dos Roteiros do Futuro de 2014 será dedicada às “Rotas de Abril”, para debater o espírito da democracia, a cultura de compromisso e os desafios do desenvolvimento.

Democracia, compromisso e economia para o pós-troika têm sido temas caros ao Presidente da República.
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Democracia, compromisso e economia para o pós-troika têm sido temas caros ao Presidente da República. Daniel Rocha

A Presidência da República vai assinalar os 40 anos do 25 de Abril com uma conferência internacional do ciclo Roteiros do Futuro subordinada ao tema Rotas de Abril, centrando-se no “espírito da democracia, a cultura de compromisso e os desafios do desenvolvimento”.

A iniciativa, apresentada esta quinta-feira no Palácio de Belém pelo comissário das conferências, João Lobo Antunes, e pelo consultor de Cavaco Silva e coordenador dos Roteiros do Futuro, David Justino, terá lugar na Primavera – tão perto do 25 de Abril quanto possível, mas ainda sem data pública -, e continuará a reunir oradores nacionais e personalidades estrangeiras, que trarão a sua visão sobre o evoluir da democracia em Portugal.

“Qualquer altura é boa para pensar Portugal”, respondeu João Lobo Antunes quando questionado pelos jornalistas sobre o calendário da conferência, coincidindo com a pré-campanha eleitoral para as europeias e o final do programa de ajustamento da troika. “Se pensarmos bem, todos os dias são dias eleitorais, e todos os dias se está a fazer a contabilidade”, acrescentou o também conselheiro de Estado. Logo secundado por David Justino que diz mesmo que “não há melhor altura” do que esta.

“Esta urgência de pensar Abril prende-se com a preocupação generalizada do povo português: saber o que aprendemos com o 25 de Abril, falarmos da experiência da democracia em que nos metemos há 40 anos, e a necessidade de encontrar medidas imaginativas e modernas para ultrapassarmos este tempo áspero em que vivemos”, descreveu João Lobo Antunes para justificar o tema e a abordagem escolhidos.

O compromisso e a “cultura de esperança”

Além da análise ao espírito da democracia e aos desafios da competitividade e desenvolvimento indispensáveis para o período pós-troika, na conferência internacional far-se-á também uma reflexão sobre a cultura de compromisso, termo tão caro à política nacional nos últimos tempos.

João Lobo Antunes realçou que, em política, o compromisso “implica que cada uma das partes ceda um bocadinho da sua ambição em favor de um projecto comum”. Ou seja, quando colocam o “interesse público” acima dos seus antagonismos e “compreendem que desse compromisso pode surgir um bem maior que permita maior durabilidade das políticas públicas”. Lobo Antunes lembrou mesmo que insistir em cavar “divergências fundas pode até causar a paralisação da máquina do Estado”, numa alusão ao recente impasse no congresso dos Estados Unidos.

“Não será uma obrigação em relação a Abril que as pessoas consigam encontrar e conversar sem ódios ideológicos?”, questionou o neurocirurgião, afirmando que “é preciso pensar Portugal com generosidade e a capacidade de ouvir o outro”.

O país, acrescentou, necessita também de uma “cultura de esperança”. “Eu tenho um pensamento político muito simples: a única contribuição eficaz que podemos dar  é cada um de nós fazer o seu trabalho bem feito todos os dias.”

Por uma questão de “elegância moral”, Lobo Antunes recusou responder se considera que a situação “áspera” do país se deve ao facto de alguém não ter feito o seu trabalho o melhor que podia. Até porque acredita que “quem está a fazer, pensa que faz o que melhor sabe e pode”. Mas ainda assim o neurocirurgião deixou uma crítica no ar. “É evidente que se a pessoa que está a fazer o que faz, está a pensar em si próprio e no seu futuro político, na necessidade de negociar e não é o compromisso que se pretende… aí não está bem.”

Ultrapassar o “comemorativismo estrutural”

David Justino defendeu que o país precisa ultrapassar o “comemorativismo estrutural” usado em relação ao 25 de Abril e usar os princípios que a revolução trouxe para reflectir para o futuro, em vez de se olhar em volta à procura de sinais no tempo de hoje idênticos ao do tempo de pré-revolução de 1974.

A intenção dos organizadores, acrescentou, é transformar os três D de 1974 – democracia, descolonização e desenvolvimento – em DCD – democracia, compromisso e desenvolvimento. Ou seja, “saber como o espírito fundador da democracia permite construir o futuro; perceber que as instituições e os cidadãos têm que encontrar novas plataformas de concepção e desenvolvimento do sistema político e social; e identificar os desafios para a sociedade portuguesa ter melhores padrões de vida”, enumerou o antigo ministro da Educação.

Com o anúncio desta nova edição dos Roteiros do Futuro, a Presidência da República aproveitou para lançar em livro as intervenções da conferência do ano passado, dedicada ao posicionamento estratégico de Portugal na balança da Europa e do mundo. Para que estas conferências “não sejam apenas palavras deitadas ao vento e para que fique algo palpável”, disse João Lobo Antunes. A primeira edição fora dedicada ao desenvolvimento demográfico e centrada na fecundidade e crescimento populacional.