Papa vai criar comissão para lutar contra abusos sexuais e pedofilia

Anúncio feito pelo arcebispo de Boston dias depois da recusa do Vaticano dar informações sobre pedofilia pedidas pela ONU

Stefano Rellandini/Reuters
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Stefano Rellandini/Reuters

O Papa Francisco vai estabelecer uma comissão para lutar contra o abuso sexual de crianças na Igreja e oferecer ajuda às vítimas, anunciou o arcebispo de Boston após um encontro entre o Papa e o seu grupo de conselheiros, o “G8 dos cardeais”.

A comissão, composta por cerca de 12 peritos, religiosos e laicos, irá definir um código de conduta para os clérigos, linhas orientadoras para responsáveis da igreja, e melhores sistemas de avaliação para potenciais padres, disse o arcebispo de Boston, Sean O’Malley. “Até agora houve demasiado foco nas partes judiciais mas a parte pastoral é muito, muito importante”, declarou, citado pela BBC. “O Santo Padre está preocupado com isso.”

A arquidiocese de Boston foi o centro de um escândalo de abuso sexual em 2002, um dos vários casos de alegações de pedofilia de padres por todo o mundo e críticas ao modo como os superiores lidaram com o problema. O então arcebispo demitiu-se na sequência do escândalo.

Um grupo de apoio a vítimas declarou já que considera este passo insuficiente.

David Clohessy, director da SNAP (Rede de Sobreviventes dos que foram Abusados por Padres), disse que “a nova comissão não tem qualquer significado”, cita a agência francesa AFP. “É como dar um penso rápido minúsculo a um doente com cancro em fase terminal”, critica. “Apenas uma acção decisiva pode ajudar – não novos estudos, comissões, e promessas. Nenhuma instituição se pode corrigir a si própria, sobretudo se for uma antiga monarquia secreta, rígida, exclusivamente masculina.”

Ainda há dias, o Vaticano recusou dar informações pedidas pela ONU sobre alegados abusos de padres e freiras.

O Comité para a Protecção das Crianças, que regula a aplicação da Convenção dos Direitos das Crianças da ONU, tinha perguntado à Santa Sé o que tinha feito para punir ou denunciar os casos de que tinha conhecimento desde 1995 (a última vez que a Igreja tinha respondido à ONU).

O Vaticano recusou este pedido, alegando que os casos eram responsabilidade dos sistemas judiciais dos países onde tinha havido abusos.