"Grandolada", "swap", "irrevogável" ou "pós-troika" candidatas à Palavra do Ano de 2013

Casos políticos marcam a lista das dez finalistas num ano em que também houve "bombeiro", "corrida", um "Papa" e "piropo".

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A lista das palavras finalistas de 2013 DR

Depois da “austeridade” em 2011 e do que é viver ou sentir-se “entroikado” em 2012, a situação política e económica do país volta a dominar a lista das candidatas à palavra do ano 2013. Do "irrevogável" acto demissionário do ministro Paulo Portas neste Verão à polémica que envolve os contratos “swap” e a ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque até à esperança dos governantes no “pós-troika”, mas também às iniciativas legislativas sobre o “piropo” e a “co-adopção” e o potencial “inconstitucional” de outras tantas, tudo pode acabar com uma “grandolada” aos ministros que antecipou a manifestação de 2 de Março. São dez palavras que a partir desta segunda-feira estão a votos para encontrar a palavra de 2013.

É a quinta vez que a Porto Editora lança esta votação, em que estão também incluídas as palavras "bombeiro", "corrida” e "papa”. A morte de vários bombeiros no combate aos fogos este Verão, além das reivindicações que levaram ao ministro Miguel Macedo sobre a classificação da sua profissão, terá contribuído para colocar a palavra na lista das finalistas da eleição deste ano. A febre do jogging e da “corrida”, reflectida nos média e nos hábitos dos portugueses, pode também perfilar-se como uma motivação para a presença deste vocábulo entre os candidatos ao título de Palavra do Ano – e a renúncia de Bento XVI e a chegada de Jorge Mario Bergoglio ao Vaticano para se tornar no “Papa” Francisco , cujas declarações sobre temas fracturantes também o tornaram alvo de muitas notícias, será o motivo pelo qual a palavra está entre os finalistas.

A iniciativa da Porto Editora visa “enaltecer o património da língua portuguesa, sublinhando a importância das palavras e dos seus diferentes sentidos no nosso quotidiano”, escreve a editora em comunicado. No final de Novembro, a Porto Editora promoveu um inquérito no seu site para ouvir os portugueses sobre a iniciativa, criando a possibilidade de sugerirem vocábulos para a listagem.

A escolha final envolve oito linguistas do Departamento de Dicionários da Porto Editora e, como indica a editora na nota, “a lista de palavras candidatas resultará do trabalho permanente de acompanhamento e análise da realidade da língua portuguesa, com base em critérios de frequência de uso e de relevância assumida quer através dos meios de comunicação social e das redes sociais, quer da utilização dos dicionários da Porto Editora nas suas versões online e mobile”. Na prática, esclarece o Departamento de Dicionários ao PÚBLICO, "a primeira análise das palavras é feita por meios informáticos que fornecem dados estatísticos de frequência de uso dos vocábulos e, num segundo passo, a intervenção é linguística". A votação começa esta segunda-feira e decorre até 31 de Dezembro. O resultado será conhecido a 3 de Janeiro.

Fonte da editora disse à Lusa que uma das regras deste processo era de que na lista de finalistas de 2013 não poderia constar qualquer “palavra que tivesse sido seleccionada nos anos anteriores".

A eleição pode levar ao reconhecimento de novos vocábulos no Dicionário da Língua Portuguesa online da Porto Editora, como foi o caso de "entroikado", uma junção de “troika” e o prefixo "en" e o sufixo "ado", que funciona como adjectivo e que tem na sua origem o verbo “entroikar” na forma de particípio passado. "A Porto Editora actualiza frequentemente os seus dicionários garantindo que cobrem o vocabulário actual. Por razões práticas, qualquer vocábulo estrangeiro ou um novo vocábulo é imediatamente registado na versão online e só posteriormente registado em papel", diz ao PÚBLICO a editora. Questionado sobre se esta iniciativa agiliza a inclusão de novas palavras no dicionário da Porto Editora, o Departamento de Dicionários da Porto Editora precisa que "os novos vocábulos são todos tratados da mesma maneira e são registados sempre que a sua frequência de uso o justifique".  http://smartletters.marketing.portoeditora.pt/ut.php?site=marketing&u=f6e48dfee99f8c2cd4279734233854e8&m=3620

Em 2011, um ano depois do Mundial de futebol na África do Sul, a palavra do ano foi “vuvuzela”, o instrumento de sopro utilizado nos estádios pelos adeptos sul-africanos para acompanhar ruidosamente os jogos; em 2009, ano inaugural da iniciativa da Porto Editora que elege a Palavra do Ano, o termo escolhido foi “esmiuçar”.

Algumas "candidatas":

Grandolada Ouvida há quase 40 anos nas manifestações do 1º Maio e nas comemorações do 25 de Abril, Grândola, Vila Morena, a música de Zeca Afonso voltou às gargantas muito por culpa do movimento Que se Lixe a Troika! Cantada à porta do Palácio de Belém em Setembro do ano passado com a ajuda da gravação, a icónica canção passou a ser entoada só com a voz no Parlamento, repetidamente.

Pedro Passos Coelho foi o primeiro a ser interrompido num debate quinzenal em meados de Fevereiro e, depois dele, em poucas semanas, quase todos os ministros foram presenteados com essa banda sonora em eventos públicos e tiveram sempre a atitude de desvalorizar o protesto. O então ministro Miguel Relvas foi um dos alvos preferenciais: num debate do Clube dos Pensadores, em Gaia, optou pela táctica do “senão os podes vencer, junta-te a eles”, mas acabou a tentar cantar a letra errada. A grandolada passou a ser uma arma primordial para protestar – contra o que quer que seja.

Inconstitucional Deve ser dos termos mais temidos pelo Governo e é difícil ao comum cidadão não saber o seu significado, uma vez que o tribunal que avalia a conformidade entre a legislação e a lei fundamental passou a fazer abertura de telejornais devido ao “chumbo” de normas. Depois de reprovar normas do OE2012 sobretudo devido a questões de desigualdade, o TC voltou a fazer o mesmo a algumas do orçamento deste ano (Abril), recusou a requalificação dos funcionários públicos (Agosto) e algumas regras do Código de Trabalho (Setembro), além da carga horária na função pública nas regiões autónomas. É certo e sabido que perante o carimbo de inconstitucional, Pedro Passos Coelho tem sempre que encontrar alternativas para cortar na despesa noutras áreas. Agora aguarda-se o veredicto, até dia 18, sobre a convergência das pensões.

Piropo O tema foi trazido para a ribalta precisamente quase no pino do Verão, por duas feministas, uma delas militante do Bloco de Esquerda. Foi na rentrée deste partido, o Fórum Socialismo 2013, com a mesa-redonda “Engole o teu piropo”, no início de Setembro. Adriana Lopera defendeu que o piropo é assédio verbal e por isso deve ser criminalizado. Lançada a polémica e apanhadas as críticas, Lopera veio depois dizer que a sua intenção era apenas levantar a discussão sobre o assunto e não protagonizar qualquer iniciativa de proibição do piropo. Durante algum tempo, o partido foi alvo de chacota por causa deste episódio, visto também como o reflexo de um esvaziar dos temas-bandeira dos bloquistas.

Irrevogável Meia hora antes da tomada de posse da nova ministra das Finanças, a 2 de Julho, apareceu o comunicado de Paulo Portas. O então ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros pedira a sua demissão ao primeiro-ministro e dizia que a decisão de deixar o Governo era “irrevogável”. Portas discordava da nomeação de Maria Luís Albuquerque para o lugar de Vítor Gaspar. Começava assim a pior crise desta coligação, que se arrastou durante três semanas, incluiu maratonas de negociações para um compromisso de salvação nacional. Até que o Presidente da República aceitou o nome de Portas para um cargo criado especialmente para o líder centrista. A irrevogabilidade ficou arquivada – mas sempre que pode, a oposição vai buscá-la para o debate político.

Pós-troika O Presidente da República insiste em reivindicar para si a autoria da expressão e da preocupação com o pós-troika. É certo que Cavaco Silva, como gosta de lembrar, avisou, no discurso do 25 de Abril, que o país precisa de se preparar para sobreviver sozinho depois de Junho do próximo ano. Mas a primeira voz de peso que veio a público com tal mensagem foi o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, que em Março defendeu a necessidade de um pacto de regime para continuar o ajustamento depois do final do programa. Entretanto, o Governo tem insistido, sem sucesso, com o PS para a necessidade de concertar políticas a médio e longo prazo.

Swap O termo, estrangeiro e relativo a operações financeiras complexas, fica associado à ideia de negócios ruinosos para o Estado, feitos com o conhecimento de diversos responsáveis que actualmente estão em lugares de destaque no Governo ou na administração pública. No Parlamento funciona há meses uma comissão de inquérito, por onde já passaram muitos conhecedores do termo – só a actual ministra das Finanças já lá foi três vezes para esclarecer o que disse, não disse ou quis dizer. Porque Maria Luís Albuquerque lidou (directa ou indirectamente) com o assunto quando trabalhou no IGCP. E porque escolheu para seu secretário de Estado do Tesouro Joaquim Pais Jorge, que em 2005, enquanto funcionário do Citigroup, tentou vender swaps ao Governo de José Sócrates. Enredado, no início de Agosto, numa complicada teia de não-explicações e "inconsistências", Pais Jorge acabou por ser, apenas um mês depois de ser nomeado para o Governo, a terceira vítima dos swaps.

Co-adopção A surpresa chegou numa manhã de sexta-feira e no Parlamento foi preciso andar a contar os votos com cuidado: o projecto de lei socialista da co-adopção por casais ou unidos de facto do mesmo sexo foi aprovado na generalidade com 99 votos a favor, 94 contra e nove abstenções. Dos 230 deputados só votaram 202 porque alguns saíram da sala mais cedo, outros faltaram. Esta aparente falta de coordenação da direita, que deu liberdade de voto, abriu um processo que promete ainda arrastar-se. A intenção é que se possa estender o vínculo de parentalidade de um dos elementos do casal ao seu cônjuge. Fez um grupo de trabalho sobre o assunto, a maior parte dos pareceres, incluindo da Ordem dos Psicólogos, é positivo. Mais do que sobre o conteúdo, a direita e o PS esgrimem argumentos processuais nos corredores do Parlamento. Depois de PSD e CDS-PP terem chumbado a avocação do diploma para o plenário, a JSD propôs que a co-adopção seja alvo de um referendo – ideia que não agrada ao PSD.